2009/02/07

Sondagens em profundidade

É curioso perceber como a comunicação social institucionalizada, assim como todo o aparelho alinhado, manipula de forma aparentemente inócua a informação que nos chega. Numa sondagem recente da Eurosondagem (não encontrei link), a propósito do "caso Freeport", uma das hipóteses de resposta à questão que os inquiridores colocavam sobre o grau de envolvimento de Sócrates no assunto, era qualquer coisa como "Sócrates não tem culpa do que a família faz". Consegue-se assim, de forma tosca (mas pretensamente subtil), insinuar o duvidoso pressuposto de que tudo isto não passa de um problema de terceiros, a que o primeiro ministro é completamente alheio.

Aproveitando o ensejo, e nesta tendência laudatória e desculpabilizante, gostaria desde já de deixar à Eurosondagem sugestões de perguntas para próximas inquiriçoes:

- Acha que o nosso competentíssimo primeiro ministro tem alguma culpa das asneiras que fazem os seus ministros?

- Com que percentagem de votos é que acha que Sócrates vai conquistar a próxima maioria absoluta?

- Considera o desempenho do nosso primeiro ministro: a) Excelente, b) Excepcional, c) Brilhante.

2009/02/05

Quantos são, quantos são?

Vital Moreira, para quem não sabe, é aquela figura que se tem desdobrado na defesa de Sócrates neste caso Freeport, mais até do que o próprio, se tal é possível. A genuina raiva que VM nutre por quem quer que seja que lhe tente atingir o impoluto líder, leva-o a escrever pérolas como esta: "Manuel Pedro, associado da Smith & Pedro, em comunicado enviado à Lusa, afirma que nunca procedeu a «pagamentos ilícitos» e que a única vez que se encontrou com Sócrates foi no Ministério do Ambiente numa reunião pedida pela autarquia de Alcochete. Ficam assim categoricamente desmentidas pelos próprios as suspeitas de reuniões "clandestinas" e de pagamento de "luvas" (o mesmo desmentido já tinha sido feito por Charles Smith)". O itálico é citado de outro lado, mas o rosa (não foi de propósito...), incluindo o bold, é do próprio que, na sua ingenuidade, aguarda ainda que os criminosos ou suspeitos emitam comunicados "categóricos" a assumir o seu envolvimento em ilícitos.

No entanto, VM, apesar da lealdade apenas comparável à do ministro iraquiano da propaganda de há uns anos, também é humano, e certamente a sua tensão arterial não lhe permitirá passar 24 sobre 24 horas a escrever posts chamados "Freeport número não sei quantos" - e, nesses intervalos, preocupa-se solidariamente com acontecimentos fortuitos que possam prejudicar outros percursos, como o cruzamento com Sócrates tem prejudicado o seu.

Mas, com o devido respeito pelo seu estado de nervos actual, que se deve afigurar calamitoso, não lhe ocorrerá que há coisas que dirão respeito a outros e não a si - ainda que lhe fique bem a preocupação?

2009/02/03

O espírito da coisa

Está descoberto o mistério: a pessoa que tramou o Belenenses, por achar que "goal average" significa "diferença de golos", só pode ser alguém que escreve no seu blog "who do girls like they're boys".

2009/02/01

A ignomínia


Cento e um anos de vergonha!

Obrigatório:


Só Woody Allen conseguiria o milagre de colocar um narrador em voz off, a explicar-nos de forma paternalista o que vai na cabeça dos personagens, e ao mesmo tempo deixar-nos tanto espaço para a imaginação. Genial Penelope, ao nível de "Volver", com as suas peixeiradas em espanhol!

Termómetro

Na sua edição de ontem, o "Semanário Económico" apresenta os resultados de uma nova sondagem de opinião relativa às eleições que terão local este ano. Como são forretas, no link para a notícia não incluiram os resultados da dita auscultação, para obrigar os curiosos a comprar o jornal, mas o "Margens de Erro" fez-nos o favor de transcrever o que lá vem escrito, que reproduzimos com a devida vénia:

PS: 39,6%
PSD: 24,9%
CDU: 11,9%
BE: 10,1%
CDS-PP: 9,7%

Três notas breves sobre o assunto, uma específica e duas genéricas, se bem que todas factuais e não subjectivas:

1. Como bem nota o autor do post linkado, o trabalho de inquirição terminou a 23 de Janeiro, pelo que não poderá reflectir o evidente decréscimo de confiança, justo ou injusto, que o "caso Freeport" e as "forças ocultas" trouxeram ao primeiro ministro e, por arrastamento, ao seu governo;

2. Desde sempre que nas sondagens o BE surge com uma simpática votação, que em muitos casos lhe dá a terceira posição nas preferências dos eleitores, mas nunca, na sua curta carreira, atingiu melhor que o quinto lugar em eleições - sempre a considerável distância do quarto, normalmente menos de metade;

3. Ao invés, o CDS é normalmente "massacrado" nas sondagens, onde amiúde surge com votações residuais de 2 ou 3%, para gáudio do exército de carpideiras que salivam com este tipo de exercícios. Contudo, e felizmente, na realidade o partido oscila entre o terceiro e o quarto lugares no escalonamento das forças políticas em Portugal, e obtém sistematicamente votações bastante superiores às sondagens - em alguns casos, como recentemente nos Açores, quase o triplo do anunciado. E não me lembro de uma única ocasião em que o resultado efectivo do partido tenha sido inferior a qualquer sondagem que tenha visto antes.

2009/01/29

Lugares #26


São Pedro de Moel, hoje a meio do dia.

2009/01/28

E a Deborah assinou?

A comissão independente que avaliou a invulgar celeridade com que foram deferidos os projectos assinados pelo "engenheiro" Sócrates na Câmara da Guarda, alguns nuns fantásticos três dias, concluiu que tal não constitui novidade nem excepção nos procedimentos habituais daquela autarquia e, pelos vistos, na amostragem de dezoito processos que consultou, encontrou até algumas situações idênticas. Só eu, que assinei (e fiz, de facto) incontáveis projectos para Câmaras Municipais, nunca tive a felicidade de esperar menos de um mês, mesmo que se tratasse do mais insignificante projecto de alterações - mas, em contrapartida, em vários casos esperei mais de um ano.

Terá esta investigação sido também feita seguindo a "metodologia da OCDE"?

2009/01/24

Sinais de desespero socialista ou "Fuga, Parte II"

1. Sócrates, ao ser confrontado com os óbvios indícios de irregularidades no caso Freeport, que agora voltam à baila, achou que o mais importante a destacar era o facto de o aparecimento de novos dados suceder normalmente em anos eleitorais. Das duas uma: ou acha que a sua oposição manipula o Ministério Público, ou acha que este é oposição ao PS. Uma e outra a raiar a paranóia, diga-se de passagem.

2. Ontem foi novamente votado na Assembleia da República um projecto de Decreto-Lei apresentado pelo CDS visando a suspensão do actual sistema de avaliação de professores, e a sua substituição por um modelo mais justo. O PS, que quando todos olham para a lua prefere olhar para o dedo que aponta, achou que a congregação de esforços de toda a oposição, e até de alguns deputados seus, em defesa desta proposta, constituia uma estranha aliança contra o governo. Ou seja, pouco lhes importou o conteúdo da coisa, mas sim a forma. Como se fosse verosímil esperar que o BE ou o PCP votassem ao lado do CDS apenas para fazer o jeito a este último, mesmo que não acreditassem ou concordassem com a matéria da votação.

O último de que nos lembramos assim, começou por ver fantasmas - que por acaso até lhe dava jeito ver - e acabou por se "refugiar" na ONU.

Lugares #25


Oeiras, hoje por volta das 15 horas.

2009/01/21

Crise de imaginação

A Standard & Poor's é, provavelmente, a mais importante empresa de rating a nível mundial, o que, contudo, não é suficente para a transformar necessariamente numa instituição fiável, como infelizmente os seus graves falhanços têm vindo a demonstrar pelo mundo fora. Não obstante, é a agência que temos, e é a que avalia a performance das diversas economias espalhadas pelo globo.

Foi essa mesma Standard & Poor's que decidiu hoje aumentar o nível de risco Português de AA- para A+, concedendo mais uma machadada à nossa imagem internacional. Na prática isto significa que, da próxima vez que Sócrates e a sua comitiva forem tentar angariar um empréstimozito lá fora, no intervalo dos mediáticos joggings e das calinadas de "Piño & Lino", o seu interlocutor consultará a avaliação de risco disponível, e far-lhe-á a cara do tipo do banco quando lá vamos pedir mais um empréstimo para um aspirador especial de corrida, e o monitor mostra que ainda lá se encontram por pagar as prestações da viagem ao Brasil, do plasma que ocupa uma parede da sala ou do leasing do BMW.

Interessante, no entanto, é ouvir a naturalidade com que o Governo, pela boca de Teixeira dos Santos, explica tudo com esta crise de tão largas costas. Só falta explicar por que razão, se é de uma crise internacional que se trata, apenas Portugal e mais dois países foram penalizados, e apenas um país europeu, a Grécia, apresenta um rating inferior ao nosso. A crise, pelos vistos, não é para todos.

Lugares #24


Fátima, hoje ao fim do dia.

Donde saíu este cromo?

José Saramago, um dos espanhóis que melhor domina a língua portuguesa, manifestou, no seu blog, perplexidade por Obama ser "uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida". A minha perplexidade é outra mas decorre dessa: mas qual será o político, seja de que quadrante for, que não invoca estes valores ao falar em público? Onde é que está a novidade? Até Hitler deve ter defendido a memória dos seus antecessores.

Até quando vai durar a adoração? Pouco faltará para vermos debates empolgados sobre o que Obama jantou, a marca de pasta de dentes que usa ou, ainda mais transcendente, o número que calça - e tudo isso passarão a ser novas referências mundiais, provindas que são do messias.

2009/01/20

Histeria


A crer na enjoativa irracionalidade que contagiou meio mundo relativamente à eleição de Obama, espero bem que amanhã, quando me levantar, já tenha acabado a fome em África, que o messias já tenha deixado cair a dívida, que alguém já tenha tapado o buraco da camada de ozono, e que os soldados americanos no Afeganistão e Iraque já tenham sido chamados de volta. En passant, não me admirarei também se a América, com o seu potencial bélico, expulsar amanhã os israelitas do seu país, que os palestinianos há tanto cobiçam - tanto que não hesitam em matar os seus filhos! - de forma a que estes pacíficos e razoáveis palestinianos, vítimas de uma perseguição injusta que apenas o HAMAS combate, possam finalmente viver em paz, sem ouvir a palavra "judeu".

O estado de demência que assola metade da população mundial lembra-me aqueles transes colectivos das plateias frente a um "pastor" brasileiro, que lhes vai curar todas as maleitas - mas para pior.

Como ouvi hoje, não deixa de ser curioso notar que esta esquerda sem rumo nem coerência que por aqui passeia o seu folclore, sempre condenou a influência dos Estados Unidos nos restantes países mundiais, mas agora, babados que estão com a chegada do seu salvador, já acham que ele traz no saco de golf as soluções para todo o mundo.

Lavem a cara, vejam-se ao espelho, ganhem juízo!

João Aguardela: 1969-2009


Obrigado, João, por me teres ajudado a amadurecer.

2008/12/16

Coerência

Uma das coisas mais tristes e deploráveis de observar nesta triste figura dos deputados que passam a independentes, como já se viu com a patética saga de Luísa Mesquita, e agora se pode observar com José Paulo Carvalho no CDS, é que todos tomam a decisão, auto-proclamada de corajosa e frontal (leiam-se as tiradas tragicómicas de Carvalho sobre as "conversas olhos nos olhos com Portas"), de pedirem a sua demissão, mas não são minimamente consequentes com essa suposta rectidão de carácter na hora de tomarem a única decisão decente que podiam tomar a seguir: renunciar ao cargo de deputados!

Nada disso; sabem-lhes muito bem os Euros garantidos no fim do mês, a imunidade, as mordomias. E assim mandam às malvas a vergonha e a decência e continuam a baixar - ainda mais - a perspectiva que o povo tem da política e dos políticos, se bem que aqui se possa reconhecer um módico de razão a quem os acha uns interesseiros sem princípios.

Eu, pessoalmente, não votei no Sr. José Paulo Carvalho, mas sim nas ideias do partido que ele, até hoje, representava. Se ele já não representa esse partido, e consequentemente as suas ideias, eu não me encontro na disposição de lhe sustentar a gula e a ambição pessoal, e penso que comigo qualquer pessoa que também tenha votado num modelo de política, e não numa qualquer vontade de protagonismo bacoco pessoal!

Carpideiras a metro

O CDS, vá-se lá saber porquê, sempre teve o dom de congregar em atenta observação do que se passa no seu interior muita gentinha, aparentemente sem nada de mais útil para fazer. Será razoável que os seus militantes, entre os quais me incluo há mais de vinte anos com orgulho, se interessem pelas movimentações cirúrgicas que avulsos materialistas desiludidos vão protagonizando no seu interior em cada momento; já será mais estranho que pessoas de outros partidos revelem uma obsessão a raiar a patologia, salivando pavlovianamente de cada vez que existe algum tipo de questão interna no CDS. Eu, pelo menos, não tenho essa tara voyeurista de me fascinar com o que se passa na casa do vizinho.

Há uns meses eram "centenas" os militantes de Setúbal que iriam protagonizar uma "desfiliação maciça"
, e as carpideiras do costume não se esqueceram de dar disso eco suficiente em tudo o que fosse suporte para tal. Infelizmente já não tiveram a mesma disponibilidade para proporcionar destaque idêntico ao facto de apenas se terem vindo a confirmar cerca de dez desfiliações, de pessoas pertencentes às mesmas famílias, com o toque irónico de os supostos "líderes" do processo, aqueles que vociferavam raios e coriscos contra tão ingrata madrasta, não se terem afinal desfiliado ou, em casos mais flagrantes, terem deixado um conveniente "pézinho" dentro do partido.

Agora novamente surgem as maciças desfiliações natalícias
, e novamente também os outros partidos babam-se de êxtase, para ver se é desta que o vizinho de cima parte mesmo um braço à mulher ou, quem sabe, lhe espeta uma faca. Para já a dimensão da tragédia já vai em dois dirigentes, mas tudo indica que os números poderão ser catastróficos, e de novo poderão ser atingidos os níveis de destruição de Julho passado.

2008/12/12

Os equivocados da política

Já há dias falei dos "salta-pocinhas" da política, sempre prontos a renegar princípios por trinta dinheiros, e falo agora de outra espécie que, se bem que não ostente tão vergonhoso comportamento, também me deixa especialmente confuso: falo desta gente, como Manuel Alegre, Pacheco Pereira ou Marcelo Rebelo de Sousa, que são militantes de determinados partidos, mas não perdem uma oportunidade de atacar os mesmos - e, com a honrosa excepção de entre os citados de Manuel Alegre, na hora de poderem avançar e demonstrar a valia das suas opiniões, preferem assobiar para o lado, mantendo confortável silêncio e indisponibilidade, a raiar a cobardia do cão que ladra mas foge a sete pés quando enxotado.

Que diabo, a mim não me incomoda nada que cada qual tenha a ideia política que muito bem entender, e até entendo que seria desejável que toda a gente tivesse a sua; o que me confunde são estes comportamentos esquizofrénicos de se pertencer a um partido e defender sistematicamente ideias de outros.

2008/12/11

Lugares Comuns

Existe alguma distinção para um blog que tenha conseguido atravessar estes últimos dias sem ter falado na morte de Alçada Baptista ou nos cem anos de Manoel de Oliveira?

Fobias

Cada um tem as suas; a minha são condomínios, condóminos e tudo o que se aparente, ainda que vagamente, com o tema. Não consigo evitar ataques de ansiedade quando os reformados lá de cima me apanham à má fila na entrada, para me chatearem com a mudança das caixas de correio ou a revisão dos elevadores - e tudo com o ar conspirativo e solene de quem está a presidir à Assembleia Geral da ONU ou coisa parecida.