2007/10/15

O Algarve e eu

A minha relação com a província mais a sul do país é antiga, e assemelha-se muito a um romance de cordel, com amores, zangas, amuos, e toda a demais panóplia de situações comuns às grandes paixões; metade da minha família é algarvia, não "das praias" mas "da serra", como se usa na região, e isso fez-me começar a visitar a zona quase desde o berço, numa altura em que as torres por todo o lado ainda eram um projecto, infelizmente já não muito distante. Tudo era simples, como se é simples quando se é criança ou pré-adolescente, e vivia sistematicamente as minhas férias estivais à beira mar algarvia, sem mais preocupações do que guardar o tempo das digestões antes de mais um banho. Depois, veio a fase da adolescência, das férias sozinho, ou pelo menos já sem os pais. O Algarve manteve-se o destino regular, mais por hábito do que por qualquer outro motivo, mas o gosto pela terra começou a esbater-se na proporção inversa da quantidade de pessoas que demandavam aquelas terras, lusos ou etrangeiros. Foi o tempo da construção desenfreada, das lojecas de souvenirs por todo o lado, dos restaurantes com péssima qualidade de comida e serviços e altos preços, das discotecas onde se tinha que ir para se ser alguém, e depois gente, gente demais por todo o lado... Enfim, demasiados condicionamentos para a minha veia alternativa, e assim acabei por colocar uma grande cruz no mapa sobre o Algarve. Fim do primeiro acto, cai o pano.

Mal sabia então que, passados alguns anos, iria aceitar um emprego em que teria que me deslocar praticamente todas as semanas ao Algarve, com estadia de alguns dias. Pensei desde logo que dificilmente me manteria muito tempo em funções em tal cenário mas, como de costume, os factos surpreederam-me: as idas ao Algarve fora da época estival fizeram-me olhar para a terra com outros olhos, e até as ruas carregadas de lojas de souvenirs e marroquinaria, que anteriormente me pareciam descaracterizar as terras, passaram a concorrer, aos meus olhos, para o novo aspecto típico do Algarve, com o seu quê de kitsch. Voltei a apreciar a terra, depois de muitos anos, mudando apenas a perspectiva estética com que olhava para ela. E agora, é a nostalgia que me guia nas viagens ao Algarve.

Epílogo: esta semana voltei ao Algarve, em lazer. Fui para um desses hotéis de apartamentos, de sistema "tudo incluído", que tanto facilitam a vida das pessoas, principalmente a de quem tem filhos. Vim de lá completamente reconciliado com o Algarve, mesmo com as suas partes mais "plásticas", mas com uma nova embirração de estimação - ou melhor, não é nova mas reacendeu-se. Os turistas estrangeiros que nos visitam, sempre com um ar de sobranceria como se estivessem a visitar uma reserva indígena, mas que não passam, em mais de 90% dos casos, de perfeitos selvagens, com níveis de educação comparáveis aos dos primatas do Zoo. Usando o tal sistema "tudo incluído" pedem coisas que não consumirão e que deixam intocadas em cima das mesas, atropelam-se, e a nós, para atafulhar alarvemente os pratos de comida, deixam as suas pestinhas de 4 e 5 anos andarem livremente sem vigilância, a fazerem todo o tipo de asneiras e a colocarem-se, a elas próprias, em situações bem arriscadas. Enfim, a lista seria longa, e acredito que alguns dos que me lêem já conhecem o estilo; os ruidosos espanhóis, principalmente, mas também bastantes ingleses com formação de aborígene. E ainda sentimos nós alguma preocupação relativamente àquilo que de nós é dito lá fora. Tem tudo a ver com o nível de civismo de quem escreve ou fala. Para mim, ingleses javardos, como os que vi, virem dizer que Portugal é isto ou aquilo, equivale a ouvir Mugabe dizer que a Birmânia é uma ditadura. Credibilidade, ou a sua ausência, só isso.

2007/10/08

Sonhos adiados:


Galeão em tempos usado para o transporte do sal nas águas do Sado, actualmente adquirido e restaurado pela Câmara Municipal de Cascais, e utilizado para passeios com quem quiser ao largo da baía da vila. O sonho aqui passaria por poder adquirir um veleiro antigo, obrigatoriamente de madeira, e dispôr do tempo, da habilidade e das possibilidades para o conseguir restaurar e usufruir dele. Os sonhos amadurecem mas não morrem

2007/10/07

AA's & bêbedos conhecidos


Abstémios, façam um favor às vossas almas e às vossas vidas: comprem este livro, leiam-no, bebam-no...

2007/10/05

A má consciência da república

Neste dia, em que alguns comemoram o aniversário da implantação da república em Portugal, é bom lembrar que este regime apenas foi introduzido no nosso país na sequência de um crime hediondo perpetrado a mando dos seus partidários, e do subsequente golpe de estado que completou a urdidura. Antes disso, o regime monárquico e democrático vigente permitia a realização de eleiçõs livres, às quais concorria regularmente o partido republicano, não tendo ultrapassado contudo, em nenhuma ocasião, a barreira dos 10%. No entanto, se por acaso este partido alguma vez tivesse ganho eleições há cem anos atrás, teria tido nas mãos de imediato os instrumentos para acabar com o regime monárquico e implantar naquela altura a república em Portugal, de forma legal e honesta e não com as mãos sujas de sangue, até de menores, como sucedeu; já a "nossa" república apresenta características bem mais ditatoriais, uma vez que tratou, desde o princípio, de vetar através da constituição a possibilidade de o país evoluir para uma monarquia, bem como de proibir liminarmente qualquer hipotético referendo ou consulta que viessem a ser feitos nesse sentido.

É uma questão de consciência e justiça elementar: se condenamos Chavez, os militares birmaneses ou os chineses por terem tomado, ou mantido, o poder pela força, com que moral nos podemos afirmar republicanos, sabendo de antemão como o país chegou aqui?

2007/10/02

Lesmas

Aos poucos vamos vendo que, afinal, a famosa carapaça de arrogância e autismo deste malfadado governo é apenas uma maquilhagem para consumo interno - um pouco como aquele fulano frustrado, vítima de um patrão déspota ao qual não tem coragem de responder, e que se vinga da sua miséria em casa, batendo na mulher e nos filhos. Querem evidências? A China rosna, e aí surge o primeiro ministro candidamente, qual menino bem comportado, a dizer que o Tibete não é um país, que nunca foi invadido, e que o Dalai Lama não merece a (duvidosa) honraria de ser recebido por membros do governo luso.

Agora é um casal inglês, de hábitos mais que questionáveis, mas apoiados num marketing monstruoso (é este o melhor termo) e, principalmente, nos seus conhecimentos ao nível do governo inglês, casal esse que não gostou de ser "espremido" pela nossa Judiciária - vai daí queixa-se aos outros beefs, estes puxam novamente as orelhas ao "menino" Sócrates, e este, vergonhosamente subserviente, logo demite (ou manda demitir) o inspector encarregado da investigação do caso, Gonçalo Amaral, que tanto incomoda os ingleses.

O problema não é que este governo não tenha pingo de dignidade; o problema é que confunde, lá fora, a imagem do português com coluna vertebral, com a sua própria imagem de molusco invertebrado.

Navegar é preciso!


Enquanto não vou ao Faial, a marina de Oeiras vai-me dando para sonhar...

2007/10/01

Rally Magic


Gosto de ver o Vitória a ganhar, gosto de ir aos jogos, e até admito que me sinto envolvido pelo entusiasmo do povo, logo eu que sou um céptico militante, do mais difícil de convencer que existe - agora o que eu não consigo descobrir, por mais que tente, é a tal "magia" das imagens de futebol. Admito que exista, e que a dificuldade seja minha, assim como aceitarei se a maior parte dos meus leitores não descortinar ponta de magia nesta foto. Afinal as coisas são como são.

P.S.: Obrigado ao JAM pela foto.

Irra!

Homem, pode parar com essa choradeira, que parece-me que já toda a gente, incluindo a pastorinha da SIC, o Tino de Rans e o emplastro, percebeu o que é que você acha da eleição de Luís Filipe Menezes para a liderança do PSD, ou ainda lhe dá uma apoplexia. Bolas, que eu não sou do seu partido, mas não embirro tanto com ele e com o que lá se passa como você. Conhece aquela anedota, do fulano que segue na auto-estrada e ouve na rádio dizer que, na via em que segue, anda um condutor em sentido contrário, e logo responde em voz alta: "Um? São todos!"? Pois, já pensou se estará mesmo no lugar certo?

2007/09/29

Sonhos adiados:


A piada é que saía mais barato comprar um bom Jaguar XJS, recondicioná-lo até ficar "de lamber" (como se diz entre os amantes dos clássicos), e usá-lo, do que comprar alguns carros "desportivo-familiares" - seja lá isso o que fôr - que a publicidade nos impinge, e que povoam os sonhos de muita gente. E há lá coisa que se compare com o som daquele V12...

Laranjas espremidas

Luís Filipe Menezes parece ser o novo líder do PSD, segundo oiço agora nas várias estações noticiosas. Do ponto de vista de um militante do CDS/PP, ainda que a coisa possa parecer relativamente indiferente, seria de supôr que este seria o resultado menos bom, dada a maior tendência para o mediatismo de Menezes. Correr-se-ia assim o risco de ver a agenda política da direita, normalmente marcada pelo CDS/PP, face à passividade de Marques Mendes, escorregar ligeiramente para o PSD, diminuindo o espaço de manobra à direita. Mas, como bem lembra o 31 da Armada, Menezes tem agora outro problema pela frente, antes de chegar à ribalta - melhor, tem dois (pelo menos), e trazem sempre a sombra do que aconteceu recentemente a Ribeiro e Castro: primeiro, é mais que certo que Menezes não vai deixar a Câmara de Gaia, como Castro não deixou o Parlamento Europeu, mas vai ter que suportar as acusações de falta de entrega total, e até de não ter querido largar a segurança da "rede" daí decorrentes. Por outro lado, tal como Castro, está na oposição mas não no Parlamento, ie, falta-lhe algo essencial em política: palco. Com certeza que a bancada será mexida, e que a sua liderança deverá passar rapidamente para Santana Lopes, que nunca deixou de "andar por aí"; mas tal só vai servir de rápido trampolim para Lopes brilhar na oposição a Sócrates (e ofuscar Menezes), e para ele próprio, o enfant terrible, preparar o assalto ao poder daqui a um ano e tal. Não auguro tarefa fácil para Menezes, mas isso não me preocupa nem um bocadinho, para ser sincero.

Desanuviemos

2007/09/28

Erro de casting


Depois de um "assobiar para o lado" que durou vinte anos, durante os quais o petróleo e o gás sairam da Birmânia satisfatoriamente, foi precisa agora a morte de um jornalista japonês para que o ocidente comece a perceber que algo tem que ser feito ali. Mas certamente ainda muitos monges e outros civis serão mortos em nome dessa causa, antes que a pesada máquina ocidental comece a mostrar algum serviço - se chegar a mostrar.

Azar dos tibetanos, não terem petróleo nem gás.

Quem, eu?

Há pouco vi, e ouvi, o inefável Alberto João Jardim, num telejornal, dizer que não se identificava com "este PSD", presumo que o dos últimos dias, da campanha para as directas. Calculo que a falta de empatia do senhor se aplica especialmente às atitudes truculentas e aos excessos linguísticos. Sim, realmente Jardim não tem nada a ver com isso...

2007/09/27

Mas está tudo doido?

Este nosso país tem um povo consumista, habituado a "comer" sem questionar muito aquilo que lhe é "empurrado", seja pela publicidade, seja por supostos opinion makers, nem sempre inocentes nos seus desígnios. Foi assim que, há cerca de três anos, um grupo de sociais-democratas desejosos de ver Cavaco na cadeira presidencial, com os socialistas a aproveitar o "jeito", e mais a comunicação social bem canhota a apanhar o comboio, puseram, à sua vontade, o país todo encarneiradamente a repetir que Santana Lopes era um "trapalhão", ideia que lhe conseguiram colar até hoje, sem que contudo ninguém, em plena consciência e honestidade, consiga apontar objectivamente uma única "trapalhada" de Santana durante o tempo em que esteve em São Bento. Mas a imagem já estava convenientemente criada, e a opinião "culta" (se entendermos por "culto" ler o Expresso, e mandar uns "bitaites" em seguida) não se preocupou muito em questionar os fundamentos do pressuposto e, no fundo, até sabia bem atirar uns tomates podres a quem parecia ter uma carreira tão irritantemente bem sucedida!

Mas a vida dá muitas voltas, e o homem continua a "andar por aí", para desespero de muitos. E continua a mostrar a dignidade que fez dele o enfant terrible que se sabe, como o mostra a atitude na SIC Notícias há uns dias. Há que ter noção do ridículo, e interromper a entrevista de um ex-primeiro ministro para transmitir em directo a chegada de um treinador de futebol, por muito respeito que Mourinho nos mereça, faz-nos crer que a estação televisiva perde por vezes (secalhar demasiadas...) essa noção. Chapeau, Santana!

Então?

O blog está de volta, repararam? Pois, podem escrever comentários, se quiserem. Era só para lembrar...

Pequenas infâmias

Por respeito, e porque não quero fazer a mal educada figura de intrometido de toda a gente que se achou no direito de opinar e preconizar futuros mais ou menos sombrios, ou mesmo apocalípticos, aquando das eleições directas no CDS/PP, não me irei pronunciar sobre a qualidade do debate (em) público a que estamos a assistir no processo das directas do PSD. Mas também não me parece que qualquer coisa que eu diga vá adiantar muito, e até arrisco que a maior parte das pessoas sabe o que penso sobre isso, mesmo sem o escrever.

Onde é que existe um rio azul igual ao meu?

No domingo fui a Alvalade, e ontem acompanhei as eliminatórias da liga. Mesmo sem Mourinho, e jogando invariavelmente contra as outras doze pessoas em campo, o Vitória continua a dar-me grandes alegrias - e tristezas a muitas outras pessoas, pelo menos às mais distraídas.

And now for something completly different...

Não tenciono ir, e não irei certamente, ver o espectáculo de suposta "recriação" dos sketches dos Monty Python que um punhado de humoristas portugueses puseram em cena recentemente - e não irei simplesmente porque considero que não se pode imitar o que é inimitável. Ir ver aquilo, estou certo, apenas contribuiria para aumentar a minha tristeza por ver que há quem tenha a petulância de querer repetir algo que é único. Já alguém imaginou uma imitação de Nureyev ou de Aldous Huxley, ou de qualquer outro génio?

Só poderá achar piada a pindéricas imitações quem não cresceu com o flying circus.

2007/09/21

Paixão


Vou ouvindo, como todo o mundo de resto, as evoluções recentes de José Mourinho, meu ex-colega dos corredores do Liceu de Setúbal. Não é preciso procurar muito para que as notícias venham ter connosco, e foi assim que, depois de jantar, acabei por prestar alguma atenção a uma entrevista que o self called "Special One" dava a um canal nacional, dando conta da separação do Chelsea, numa atitude mista de alívio e emoção, pelo que me pareceu. Dizia ele, por outras palavras, que neste momento procurava alguma distância dos factos recentes, e também tempo para se reencontrar - luxo a que, como todos sabemos, se pode dar sem que os recursos financeiros disso se ressintam. E disse, no meio desses desabafos de alguém que afinal é apenas um ser humano, que, depois da adrenalina despertada pela experiência na Velha Albion, só aceitaria novamente desafios com algum grau de dificuldade.

Pois bem, Zé Mário: é pouco provável - para não dizer bastante improvável - que alguma vez venhas a tropeçar neste espaço da blogosfera. Mas se, por eventual acaso, isso se vier a verificar, não será de esperar que te lembres de mim, apesar de eu me lembrar muito bem de ti, do Conde de Arcos, do Seagull, e de todos os lugares que frequentávamos em Setúbal há mais de vinte anos. Mas se aqui vieste parar, e se ainda te encontras a ler isto, então é porque os deuses quiseram que acontecesse e, nesse caso, tenho um pedido a fazer-te, que é meu e de todos os vitorianos: esquece o dinheiro por um ano, ou mais - afinal pouca falta te faz mais milhão ou menos milhão - e vem treinar e ajudar o clube da tua terra. A felicidade às vezes custa bem pouco.

2007/09/19

Segredos mal guardados:

O Restaurante Afonso, em Mora: as entradas, o arroz de lebre, os vinhos, a simpatia, a terra, e tudo o resto!

Coisas simples...







Estas três imagens foram tiradas no mesmo lugar, à mesma hora, por mim, em Junho deste ano. Não existe muito mais que possa ser dito.

Decadência


Que saudades dos Grandes Prémios, quando eram disputados por homens verdadeiros, ao volante de carros verdadeiros...

Pedaços de sonho:

Uma noite da semana passada a olhar para a tempestade sobre a planície, da janela do meu quarto na Mina Juliana, Santa Vitória, Beja.

2007/09/17

Interpretações

A passagem do Dalai Lama pelo nosso país causou muitos e notórios embaraços, ainda que concorde que o mais mediático foi o do próprio Governo, vergonhosamente subserviente à China (talvez ainda à espera dos investimentos dos empresários chineses, em busca dos tais "baixos ordenados" aqui praticados); não obstante, esse mesmo pudor não impediu o suposto licenciado em engenharia José Sócrates de receber oficialmente Bob Geldof, cantor de méritos discutíveis mas, principalmente, mentor de grandes camapanhas de auxílio aos países do terceiro mundo, sendo que, pelo que consta, os portadores das verbas angariadas nem sempre têm conseguido encontrar esse tal "terceiro mundo", confundindo-o bastas vezes com as montanhas suíças e as suas apelativas instituições bancárias.

Mas houve mais quem tivesse andado "às aranhas", sem saber o que fazer ao Dalai Lama, tendo achado providencial a atrapalhação do ministro Luís Amado, e a consequente distracção da opinião pública: os comunistas portugueses, ainda a sonhar com os "amanhãs que cantam" vindos de algum dos últimos bastiões mais ou menos comunistas, como a China, acharam coerente não darem, com a sua presença, razão a quem acha que o Tibete foi indecentemente ocupado pela China, pelo que apenas participaram, para manter a face, numa recepção em que o senhor se apresentou como "líder religioso", já que, em boa verdade, e face à ocupação chinesa, ele não é chefe de estado nenhum! Curioso, no entanto, é notar que esse rigor e preciosismo apenas são utilizados pelos comunistas quando interessa, já que ao acolherem, na sua festa anual, partidos com ligações directas a grupos terroristas, conseguem arranjar, candidamente, forma de nos mostrar que as "coisas não são exactamente como se dizem" - mesmo quando quem o diz, que as FARC são perigosas forças terroristas, são as principais organizações de segurança mundiais!

Obrigado, Colin!


Não sei se foi o melhor, mas tinha de certeza o maior coração de todos!

2007/09/09

Fénix

A SIC Notícias não pára de me surpreender, normalmente pela positiva. É bem verdade que há ali coisas dispensáveis, como a polivalência e prosápia de Moita Flores no caso da criança inglesa desaparecida, por exemplo, se bem que as suas declarações pouco passem do óbvio - mesmo para leigos. Mais eficazes, para uma razoável percepção da evolução do caso, com objectividade, são as visões lúcidas de Barra da Costa na RTP.

Mas há muitas coisas mais que meritórias, a principal das quais, sem dúvida, o renascimento de Mário Crespo no grande jornalismo, depois da travessia do deserto que lhe foi imposta na RTP, e que quase o atirou para a prateleira de recordações, da qual pouco mais reteríamos do que o transatlântico "F...-se!" em directo, aqui há uns anos - de resto tema de uma oportuna e brilhante (como sempre) crónica de Miguel Esteves Cardoso. Isto, evidentemente, se não tivesse acontecido o seu resgate pela SIC, e que nos proporciona actualmente o melhor jornal televisivo - com a vantagem adicional de encostar às cordas muita "esperteza saloia" deste nosso rectângulo.

"Agarrem-me..."

Conhecem aqueles cartoons, maioritariamente da época de ouro da Warner, tipo Tex Avery e quejandos, que parecem ter uma personalidade muito calma e sisuda e depois, de repente, por um qualquer motivo estapafúrdio e pífio, se descontrolam subitamente, esbugalhando olhos, gritando, dando saltos descontrolados? Pois é o que Pacheco Pereira me lembra de cada vez que alguém murmura sequer os nomes de Paulo Portas ou Santana Lopes perto de si. É absolutamente desconcertante ver aquela figura de inteligência e capacidade de raciocínio enormes, qualidades de dimensão apenas comparável, de resto, à vaidade que o próprio tem nas mesmas, a debater com lucidez e conhecimento de causa impressionantes qualquer tema chamado à colação n'"A Quadratura do Círculo", e depois ler uma crónica como a sua na "Sábado" da semana passada, em que se consegue até adivinhar a espuma nos cantos da boca enquanto gasta cerca de meia crónica - que é de duas páginas - a criticar Portas pela (incorrecta, na sua opinião) utilização do YouTube na rentrée, ou pela não criação de um blog próprio, e não alimentado por zelosos assessores, como no caso de Luis Filipe Menezes - e aqui até concordo. Mas a paranóia da perseguição aqui reside no facto de Pacheco Pereira criticar o putativo blog que Paulo Portas podia ter, presumindo que, a existir, ele seria feito em moldes não capazes de cativar os habitués da net. Ou seja, não feliz por atacar de forma descontrolada e obsessiva Paulo Portas pelo que faz, agora resolve atacá-lo pelo que não faz mas podia fazer. Patético. Paulo Portas, presumo, agradece.

2007/09/03

Sonhos ou disparates?


Anda aí novamente um bichinho, mas há tanta coisa pela frente antes...

2007/09/02

O meu regresso, parte CCXLIV

Gostava de poder prometer agora que os meus escritos vão retomar uma mais sadia regularidade - e prometê-lo-ia sem hesitações, se fosse um membro do governo - mas a verdade é que as sucessivas "falsas partidas" dos últimos meses me retiraram quase toda a credibilidade. Por isso, tudo o que posso garantir é que é essa, de momento, a minha firme intenção, mas quem sabe o que eu pensarei amanhã? Assim, só posso continuar a pedir aos estóicos dois vírgula quarenta e seis leitores que insistem em passar de vez em quando por este espaço, que mantenham essa paciência mandarim, que eu tentarei não vos desiludir (demasiado).

Nesta rentrée, depois de férias de nada, existiriam muitos temas que gostava de abordar: a minha estadia maravilhosa de Junho, em São Pedro de Moel (as hordas que só "conhecem" o Algarve não sabem o que perdem - nem saberão nunca, felizmente!); o excelente início de época do Vitória, que surpreenderá mais que um esta época - e não sou só eu que o afirmo, mas pessoas que realmente sabem; a minha progressiva e irreversível conversão à causa monárquica, por descobrir cada vez mais as injustiças, prepotências e faltas de democracia do regime republicano; a minha lenta adaptação à vida urbana de Lisboa, depois de mais de quatro décadas em meio rural; os meus contactos recentes com serviços públicos, pejados de estrangeiros que "entopem" qualquer sistema, e em que funcionários aberrantes - como só podem ser funcionários públicos - embirram com quem traz os seus pedidos de forma objectiva e organizada, e missionariamente encaminham quem não traz um único papel, mal sabe o seu nome e muito menos o que anda ali a fazer; as minhas dificuldades em voltar ao mercado laboral, não obstante enviar centenas de Curricula Vitae, numa demonstração prática de que as vistas de largura discutível das empresas preferem um qualquer recém-licenciado, mesmo daqueles que não sabem sequer qual é o maior oceano do mundo, desde que tenha 28 a 30 anos, do que alguém com comprovados conhecimentos, formação e experiência, mas cuja idade já ultrapassou os 40 anos; a condescendência, quase romantismo, com que a imprensa (não toda, graças a Deus...) designa por "activistas" um bando de energúmenos com graus de intoxicação diversos que, a pretexto de zelarem pelo "bem público" (A propósito, quem os investiu nessa qualidade? Eu não, de certeza...), destroem criminosamente propriedade privada, num gesto "simbólico" - tão "simbólico", de resto, como a quebra de montras e vandalismos avulsos desta cambada de imberbes (que mais não mereciam que um bom e profiláctico par de estalos, e de seguida fechados no quarto, normalmente em casa dos paizinhos) aquando de uma anterior manifestação em Lisboa contra skinheads e neo-nazis, não reparando, en passant, que os seus actos são tão vis ou piores do que os daqueles contra os quais protestam; a morte de Eduardo Prado Coelho, espécie de "salta-pocinhas" ideológico que várias vezes critiquei neste blog, mas cuja coluna no "Público" lia sempre - e essa assunção é a melhor homenagem póstuma que lhe posso prestar; a evolução política nacional, e a "coincidência" da desinformação nunca confirmada mas sempre generalizada, de cada vez que o CDS assume uma caminhada de retoma (leia-se, quando a liderança de Paulo Portas começa a ameaçar poderes instituídos); os meus novos projectos na área automobilística, para já dependentes de muitas coisas, mas principalmente deixando para os mais "jovens" as participações nos ralis e corridas mais competitivas dos campeonatos nacionais, e orientando agulhas para os clássicos, minha paixão de sempre e coisa bem mais social e civilizada, e assim mais adequada à minha idade e atitude; o quarto aniversário deste blog, um dos primeiros do país, passado há uns meses; e muitos, muitos outros assuntos. A alguns destes certamente voltarei, mas procurarei pincipalmente "despejar" com maior frequência aquilo que me vai na alma em cada momento - pelo menos aquilo que pode ser publicamente "despejado".

Agora, contudo, a novidade é bem pequenina - mais concretamente com 48 cm, 3,010 Kg, isto segundo medições efectuadas no passado dia 07 de Agosto, data de nascimento, no Hospital da Estefânia, da Maria Madalena, a minha segunda filha, a menina mais bonita do mundo!

2007/05/21

Paixão

Há algo que me faz alguma confusão em Portugal: é que é mais difícil encontrar alguém cujo clube favorito não seja um dos ditos três "grandes", do que acertar duas semanas consecutivas nos números do Euromilhões. Lá fora, noutros países de hábitos talvez mais excêntricos, é possível encontrar quem goste do Sevilha, do Marselha, do Milão, do Liverpool, e podia ficar aqui eternamente a dar exemplos de clubes descentralizados, mas com verdadeira aficción, se a minha cultura futebolística mo permitisse. Cá, se não se é do Benfica, é-se do Sporting ou do Porto. Quem não for adepto de um destes três é, futebolisticamente falando, órfão. Se um marciano de repente aqui aterrasse, seria difícil fazê-lo acreditar, sem provas factuais, que existem mais de três clubes em Portugal. Conheço até pessoas cuja afinidade com o Porto não vai além de saber indicar razoavelmente a cidade num mapa, que nunca foram sequer lá, mas que não hesitam em indicar o Futebol Clube do Porto como o seu "clube do coração". Normalmente há também a variação politicamente correcta de se ser do clube da terra, seja ela Coimbra, Barcelos, Faro, Campo Maior, ou outra qualquer, como se se cumprisse uma espécie de obrigação moral, mas salvaguardano inevitavelmente a verdadeira admiração por um dos malfadados três que lhe podem garantir a segurança, quase freudiana, de lhe irem fornecendo regularmente vitórias: o Porto, o Benfica ou o Sporting!

Não era grande adepto de futebol, e só recentemente assumi o gosto, reconheço. No entanto, se existia clube que me despertava fortes simpatias, esse clube sempre foi o Vitória de Setúbal, desde os tempos em que alguns colegas de liceu me convidavam para assistir aos seus treinos nos intervalos das aulas. De ténue interesse, passei recentemente a sócio interessado e sofredor, e agora não concebo sequer a hipótese de apoiar outro clube, pelo menos enquanto o Vitória existir - e tanto se me faria que ele tivesse descido à segunda divisão, pois a minha intenção de o continuar a apoiar já estava decidida. Preparados para o pior, eis que hoje, no final de noventa minutos que pareceram novecentos, temos a feliz notícia: a equipa com o orçamento mais baixo da primeira divisão, em que o conjunto dos ordenados de todos os jogadores, do treinador e seus adjuntos, poderiam ser facilmente pagos com o ordenado de apenas um jogador das equipas de tôpo, conseguiu o milagre da permanência, subindo dois lugares na última jornada. São eles, para mim, os heróis da época, e não produtos de marketing, primas donnas, que apenas conseguem jogar se encontrarem a conjugação de uma série infinda de condições ideais.

E é por isso que me dá alguma vontade de rir - ou de chorar, já nem sei - quando alguém me pergunta qual o clube da minha simpatia e, confrontado com a resposta óbvia de que se trata da equipa sadina, insiste para saber, para além disso, qual dos "outros", dos tais três, é, "de verdade", o meu favorito. Normalmente olham-me com um ar assim meio condescendente e até pesaroso, como se soubessem de algo que eu não sei, quando respondo convicto que, tirando o Vitória, nada mais me interessa.

No domingo passado, José Diogo Quintela, talvez o menos "interventivo-justiceiro" da troupe humorística Gato Fedorento (e, talvez por isso, o único que ainda consegue manter alguma piada em anúncios e quejandos), na sua crónica habitual no "Público" corporizava o pensamento de quase dez milhões de portugueses, ao afirmar que não compreendia como era possível que alguém fosse de um clube que nunca ganhava nada. Tenho pena, mas quem não compreende isto, não compreende nada...

Economia de inteligência

Este fim de semana o CDS voltou aos seus Congressos interessantes, com mensagem para fora, e eu com ele. Não que entretanto me tivesse afastado das lides partidárias, mas fiz também a minha travessia do deserto, deixando os holofotes por conta de quem pensa que se pode andar eternamente na ribalta, sem que ninguém repare nos seus ziguezagues constantes. Afinal parece que nem todos andam distraídos, e surgem agora os primeiros sinais, tristes, por sinal, de anunciadas derrocadas e implosões diversas entre quem se pensava, impunemente, a chegar ao Céu. Mas não me adiantarei muito mais sobre assuntos que se passaram nos bastidores de um Congresso que apenas pareceu morno, preferindo esperar, no meu camarote, pelas cenas dos próximos capítulos.

Se falei aqui do Congresso, foi, primeiramente, e antes de começar alguns desvios políticos, por questões fundamentalmete urbanísticas, outra das minhas paixões: como alguns saberão, o Congresso decorreu numa excelente infraestrutura de Torres Novas, o Pavilhão dosDesportos. Trata-se de uma construção aparentemente bastante recente, com capacidade para receber eventos desportivos de modalidades diversas, mas encontrando-se também prevista, como se viu esta semana, a sua utilização para outros fins, tais como precisamente congressos, aos quais comparecem milhares de congressistas, convidados, jornalistas, e muitas outras pessoas. Ora é aqui precisamente que começa a aberração urbanística: não sei como se faz em Torres Novas, mas asseguro que, no resto do país, é usual as pessoas percorrerem trajectos de alguns quilómetros nos seus carros, e até, pasme-se, tentar estacioná-lo nas imediações do local de destino. Pois, o tal Pavilhão de Torres Novas esté preparado para receber milhares de pessoas, mas apenas o carro de umas cinquenta delas, já que o projectista, os promotores (penso que municipais, o que não admira...), e toda a gente que geriu este empreendimento nunca deve ter previsto que, no futuro, existiriam pessoas a levarem carro para as imediações deste espaço. Disse "nunca" e reforço, porque me parece que ainda hoje em dia os responsáveis não perceberam o aborto urbanístico que conceberam nas imediações de uma obra arquitectónica de indubitável interesse, sejamos justos. Só assim se justifica que, nos dias antes do Congresso, temendo afluências superiores a trinta carros, tenham andado a "semear" pequenos pilares metálicos nos passeios, a fim de evitar que os energúmenos que se atrasassem e não conseguissem ocupar a meia dúzia de lugares de estacionamento previstos, largassem as suas viaturas em cima dos imaculados passeios da área!

2007/04/22

Alternativo

O defeito é meu, assumo; nada com que não consiga viver, e até se trata de algo que não deveria incomodar ninguém - deixem-me apenas ser feliz com as minhas idiossincrasias. Mas, desde que comecei a tomar consciência de mim, que me tornei um bocado "bicho do mato" nos gostos. Se toda a gente gosta de algo, normalmente dá-me para desconfiar - e até já me desinteressei de coisas depois de ver que elas começavam a andar na boca do mundo: foi assim na música, nas leituras, e em muitas outros aspectos. O ponto aqui, contudo, é saber se foram essas coisas que mudaram, ou apenas eu, snob semi-assumido, que não gosto de me misturar com gostos populares.

Não gostaria de perder coisas boas apenas por estúpido preconceito, mas deixei de me sentir verdadeiramente confortável há uns anos, por exemplo, a ouvir Oasis, depois de ter comprado o seu primeiro álbum um ano antes, quase clandestinamente, em Londres. E não queria que fosse o meu preconceito também a impedir-me de usufruir do Gato Fedorento, que tanto me fez rir antes. Por isso voltei hoje a vê-los na tv, mas é escusado: uma sucessão de clichés, muita produção, piada óbvia (os matarruanos locais não percebem o non sense, não estamos em Inglaterra), e a mensagem política e, pior, ferozmente tendenciosa, sempre presente. Aprecie quem quiser - parece que agora é toda a gente - que eu já dei para esse peditório.

2007/04/09

Desta é que é mesmo!

Os Rolling Stones voltarão este ano a Portugal para tocar, outra vez, o seu último concerto de sempre em Portugal!

Ele há com cada uma...

Ainda bem que há gente conhecedora, como Mariano Gago ou António Vitorino, entre outros, que nos concedem a graça de iluminar os nossos espíritos com aquilo que, afinal, tem estado desde sempre à frente dos nossos olhos: afinal é público e notório, como se diz em Direito, que os serviços da Universidade Independente foram satisfatórios até cerca de 1996, data da suposta licenciatura de Sócrates, mas a sua qualidade veio a degradar-se progressivamente depois dessa data. Eu até arriscaria que a degradação começou logo na segunda-feira seguinte à data da licenciatura do nosso Primeiro Ministro, e que o responsável por essa espiral de rebaldaria foi precisamente o Sr. Costa dos arquivos que, depois de ter utilizado os papéis comprovativos da formação do "engenheiro" para finalidades menos próprias, se viu forçado a compor um novo e criativo dossier, possivelmente com o fito de, daí a mais de dez anos, induzir os jornais e os portugueses em crasso erro!

2007/03/27

O melhor de dois mundos

Alguns de vós saberão que já desde o ano passado resido mais perto de Lisboa, mais concretamente em Carnaxide, no concelho de Oeiras. A minha capacidade de adaptação a novas situações não me tem deixado mal ao longo da vida, e por isso nunca me coloquei objectivamente a questão sobre se preferia esta nova morada ou a anterior, em Vila Nogueira de Azeitão - nunca me tinha passado pela cabeça, pronto. Mas este fim de semana o meu amigo Paulo colocou-me directamente a questão, em conversa casual e descontraída, e fez-me pensar.

É verdade que quem mora perto da cidade tem uma quantidade de infraestruturas disponíveis que não podem ombrear com as de uma aldeia que ainda mantém algumas características de rusticidade: aqui, à distância de alguns passos, existem famácias, táxis, bancos, supermercados, tabacarias, quiosques, e apenas falo de algumas coisas a que posso aceder sem sequer mexer no carro (aliás, a partir de certa hora é melhor nem pensar nisso, pois seguramente no regresso não terei lugar para o estacionar). Mas, em contrapartida, existe aqui uma impessoalidade a que um assumido rústico, como eu, talvez não se habitue facilmente. De acordo que os simpáticos empregados do café aqui de baixo, um dos principais e mais movimentados cá da terra, me cumprimentam com cordialidade quando lá passo a tomar o pequeno almoço - e que excelentes croissants eles lá têm. Mas em Azeitão tudo é diferente, mais lento, já com um cheirinho a Alentejo (que ainda não é, contrariamente ao que se pensa): não há lugar a que se vá em que não encontremos meia dúzia de pessoas conhecidas, com tudo o que isso tem de bom e de mau. E depois há o trânsito, mas disso falarei noutra altura.

Mas, balanço feito, e voltando sempre que posso a Azeitão, não me estou a dar nada mal com esta nova experiência - até porque não falei dos motivos por que aqui estou, e esses fazem toda a diferença. Afinal, acho que me vou habituar a isto.

Os "engenheiros" deste Governo

Se eu fosse engenheiro civil, se além diso defendesse a aberrante localização do novo aeroporto de Lisboa na Ota, se tivesse sido convidado para defender esta posição no programa "Prós e Contras" da RTP1, ontem, e se tivesse um pingo, pelo menos, de ética profissional não me parece que tivesse muitas soluções a não ser declinar a proposta. É que tornou-se absolutamente confrangedor ver profissionais, alguns deles certamente com grande capacidade e conhecimentos técnicos, a "embatucarem" na defesa do indefensável, sem quaisquer dados de engenharia a sustentarem as suas teses - e com os poucos arremedos de números a serem de imediato arrasados, para mais com o ridículo acrescido de os estarem a tentar justificar perante uma plateia de colegas, assim um pouco como se um médico quisesse justificar, num congresso ou simpósio, a eficácia da Aspirina contra o cancro da pele. E, por fim, foi triste ver estes profissionais a enveredarem envergonhados, mas na flagrante ausência de algo mais para dizer, pela argumentação política, mostrando inequivocamente os seus interesses em algo que só politicamente poderia ter alguma justificação.

2007/03/23

Constança, Júdice & outros "Zandingas"

Estaria rico se as sentenças de todos os "especialistas" que, desde há muitos anos, se dedicam, de forma quase obsessiva, a vaticinar a morte do CDS/PP e/ou do Vitória de Setúbal tivessem algum tipo de fiabilidade e eu ganhasse, digamos, um Euro por palpite certo. Infelizmente para essa minha putativa bolsa, mas felizmente para as instituições de que gosto, nenhum deles tem a capacidade de Garcia Marquez para anunciar mortes!

P.S.: Lúcida (sem trocadilhos), é a apreciação de hoje, no "Público", de Vasco Pulido Valente (não faço link para o jornal porque é pago, mas o Paulo Pinto Mascarenhas deu-se ao trabalho de scannerizar o artigo, o que desde já agradeço).

2007/03/21

Talvez durem mais um ano...

Há uns anos, fui dos primeiros a reconhecer-lhes o talento, ainda eles andavam por aqui, na blogosfera. Agora parece-me que o fedor se deve à putrefacção do bichano. O Gato Fedorento, como seria de esperar, rendeu-se ao mercado e adaptou-se a ele. A piada agora é formatada, repetitiva, quase revisteira em alguns casos. A subtileza perdeu-se para dar lugar ao riso fácil, ao trocadilho esperado, quase alarve, e os quatro jovens irreverentes que em tempos não muito distantes me fizeram rir às lágrimas, aburguesaram-se. Mudam-se os tempo, mudam-se os alvos...

Além disso, os rapazes têm ideias políticas, como é natural e desejável, especialmente numa época de tanto desinteresse social; discutível é, porém, o facto de não se coibirem de as misturar com o seu programa de entretenimento, numa promiscuidade aparentemente inocente, mas à qual subjaz uma perfeita consciência do seu efeito sobre o telespectador. Porque será que, do actual espectro político, apenas o Bloco de Esquerda é sistematicamente poupado às caricaturas da trupe? Só os ingénuos acreditam em acasos.

2007/03/19

Patético

A história é velha mas repete-se sempre; Fernando Nogueira, Ferro Rodrigues ou Marques Mendes sabem contá-la bem. Mas há sempre ingénuos para cair nela. To cut a long story short, nos períodos em que é pouco previsível que os partidos cheguem perto do poder, surge fatalmente alguém cheio de ambição e ingenuidade que pensa que vai fazer a diferença, e impor um novo rumo até às próximas eleições. Depois, quando se apercebe que apenas serviu para "cozer em lume brando", revolta-se contra o sistema de que voluntariamente fez parte e, numa estratégia de lémingue, apenas passa a acreditar na fuga em frente.

Como já alguns terão percebido, falo de Ribeiro e Castro; numa primeira fase, pós anúncio de candidatura à liderança de Paulo Portas, pensou que iria vender cara a pele, e até acreditou, nos seus sonhos cor de rosa, que se poderia manter líder do partido. Depois, ao ver os ratos, que antes o idolatravam, a abandonar o barco, percebeu que a sua única dúvida existencial seria se perderia o partido em directas, com 10%, ou em congresso, com 20%. Nessa altura, em desespero de causa, regrediu aos piores tempos da sua infância e pensou: "se não pode ser para mim, não será para ninguém!". E, na impossibilidade de deformar o partido com um ataque de ácido sulfúrico, resolveu destrui-lo por dentro com patéticas e desesperadas manobras que apenas visam protelar o seu inevitável declínio - uma política de terra queimada, muito aquém do que se pensaria ser expectável de alguém com este tipo de formação.

Só não esperava, confesso,que Maria José Nogueira Pinto se prestasse a este tipo de comportamentos perversos e manipuladores. Mas a senhora ainda não esqueceu o congresso de Braga em 1998, e acha que a vingança é um prato que se serve frio - e não se importa de prejudicar milhares de militantes e simpatizantes, na sua sanha de repôr a (sua) justiça.

Dignidade, por onde é que andas?

2007/03/15

Vou ser mãe!

Afinal não é menino - é menina! Vai-se chamar Madalena e vai ser linda! Eu disse "vai ser"? Já é!

Círculo empenado

Parece impossível; tanta associação de protecção disto e daquilo, e não há uma única liga de defesa de qualquer coisa que impeça o massacre público e sádico a que Jorge Coelho é sujeito semanalmente n'"A Quadratura do Círculo". As pessoas não têm culpa de ser como são, e é feio gozar com os outros...

2007/03/14

"A vida é sempre a perder" (*)

Estranha sensação esta, de percebermos que temos mais passado que futuro, e ainda assim não nos sentirmos tristes...

(*): Parte da letra de "O Homem do Leme", dos Xutos e Pontapés; o título deste post também poderia ter sido "Je ne regrette rien", de Edith Piaf.

2007/03/13

Domingo

O meu amigo E. tem razão: a política anda especialmente desinteressante, a maior parte da gente que lá anda ainda mais e a pachorra começa a faltar-me. Desinteressante por desinteressante, falo da minha vida, que essa ao menos interessa pelo menos a uma pessoa!

E falo de domingo passado, um dia que podia ser passado em casa, a ver as janelas do prédio em frente, e a acumular aquela neura do fim de semana a escoar-se. Mas reagimos, fomos comer umas belas tostas ao Bar do Guincho, e eu aproveitei para beber a primeira caipirinha deste ano. Havia gente a mais, um pouco de sol a mais, e faltava-me um livro - mas foi bom, muito bom.

Mas o sol e o calor não abrandavam, os guarda-sóis desta temporada ainda não haviam sido fornecidos pelos especialistas de merchandising, e lembrei-me de algo que já há muito andava a adiar: uma visita ao Palácio Anjos, em Algés, para ver a colecção de Manuel de Brito - os seus Paula Rego, Vieira da Silva, Hogan, Rui Chafes e tantas, tantas mais coisas lindas. Algés, numa tarde solarenga de domingo, estava entregue aos velhos no banco do jardim, e a poucas mais pessoas, tudo situações a apelar à minha costela "estético-depressiva" - a tal coisa de saber apreciar um pôr do sol reflectido numa marquise de Moscavide, lembram-se?

Há muito que não me lembro de passar um domingo tão bom...

2007/03/12

"Roma não paga a traidores!"

Para já é tudo o que me apetece dizer sobre as manobras de bastidores no meu partido de há vinte anos, o CDS/PP, na perspectiva da próxima mudança de liderança. De repente, todos aqueles que "cacicaram" congressos para levar Ribeiro e Castro ao colo, se tornaram "portistas" desde pequeninos.

Mas pode-se enganar muita gente durante pouco tempo, ou pouca gente durante muito tempo, mas nunca ninguém conseguiu enganar toda a gente o tempo todo...

2007/02/12

O tosco

Os últimos dias deste nosso cantinho trouxeram ao conhecimento da população uma espécie que andava meio hibernada desde que abandonou os bancos da escola e começou a tratar da vidinha. Trata-se dos "Tipos que Optaram Sim Com Orgulho", ie, os T.O.S.C.O ou, para maior simplicidade deste post, os toscos. Também existem os T.O.S.S.E., os que optaram pelo sim "Semi Envergonhados", mas como o argumentário de ambas as sub-espécies é muito similar, e está todo profusamente descrito na cartilha do Guru Francisco Louçã, apenas descreverei de seguida os toscos com que me cruzei nos últimos dias, e que me fazem temer pelo futuro deste país.

Ora bem, o tosco reapareceu agora, depois de há uns anos ter querido partir a Indonésia aos bocadinhos e de ter chorado emocionado com os resultados da selecção Nacional nos Campeonatos Internacionais de futebol, isso sim, um facto digno de orgulho Nacional e merecedor dos maiores encómios. É exactamente a mesma pessoa que passa os serões no sofá a indignar-se com a fome em África e com o aumento da temperatura do planeta, mas que sistematicamente adia a sua redentora intervenção em áreas tao prementes. Tambem há a variante mais humanitária do tosco que partilha a sua visão solidária para com os que sofrem, com os seus colegas de balcão, num qualquer estabelecimento nocturno da moda, enquanto os dedos arrefecem agarrados ao copo. Mas agora chegou a altura de, com pouco esforço, o tosco poder contribuir para o avanço do país; trata-se de uma criatura que sempre sofreu um bocadinho da nostalgia de não ter estado presente nos grandes acontecimentos recentes da sua raça, designadamente por não ter atirado uns calhaus aos gendarmes no Maio de 1968, ou de não ter fumado umas belas "ganzas" e ter agido em consonância com o espírito do Woodstock. Contudo, interiorizou as conquistas dos bravos que lutaram nessa altura, e agora é a sua vez (do tosco), de fazer algo para preservar o património herdado, como por exemplo o amor livre sem consequências - a não ser para o bébé, mas isso são pormenores, ate porque ele - o bébé - não se queixa.

O tosco sente-se, pois, um justiceiro, alguém especialmente iluminado para resolver, através do seu voto-Excalibur, os grandes problemas da humanidade, especialmente o das pessoas que gostam de ir para a cama sem precauções, mas depois não querem assumir as consequências do que fizeram. Aqui vem também uma outra faceta do tosco à superfície: a de yuppie-de-trazer-por-casa, o fulano que acha que o prosseguimento de uma carreira que lhe permita ter um carro em leasing, um T3 em Telheiras, e ir de vez em quando ao Brasil, não é compaginável com um filho, e que é um argumento suficiente para se matar alguem. O tosco, infelizmente, anda um pouco atrasado nos seus ideais: ele quer ser um incurável romântico, mas as causas soixante-huitardes, hippies ou yuppies já ficaram para trás e ninguém lhe disse.

No entanto, estudos recentes provaram que, apesar de se tratar de algo de difícil detecção, os toscos parecem possuir uma consciência, ou um seu arremedo. É por isso que o tosco não consegue responder quando o questionam sobre a justiça de matar alguém, sobre o facto de eles, toscos, andarem neste mundo porque alguém decidiu pela sua vida, mas agora arrogarem-se o direito de brincarem aos deuses e decidirem o futuro, a vida ou a morte de outras pessoas. É por isso que fogem à discussão como gato escaldado de água fria, e apenas discutem o tema em auto-apologéticas reuniões somente dedicadas a toscos, como quem consome pornografia mas naturalmente tem vergonha de o assumir. Normalmente sao reuniões pouco produtivas, onde apenas se usam as palavras "mata" e "esfola", nos seus sentidos mais literais. Mas é a única hipótese de o fazerem, já que, quando discutem com quem defende a vida, os argumentos que antes lhes pareciam tão fortes e definitivos, lhes soam agora, a eles próprios, pífios e ridículos, sentindo vergonha e frustração por não serem capazes de dizer, num fiozinho de voz, algo mais importante e consistente do que o reaccionário chavão "apenas as mulheres deviam votar", ou "a opção é apenas da mulher" (de certa forma é uma triste verdade, pois a outra pessoa que poderia ter interesse em dar opinião infelizmente não consegue falar, e nem sabe o que a espera - mas não seria difícil imaginar o que diria, se pudesse. E garanto que nem o patético Rui Rio, agora tão moderno ao lado dos "okupas", ou coisa parecida, teria querido ser abortado se interrogado no ventre materno!).

Não obstante, o tosco continua a sentir-se um incompreendido pelas pessoas que defendem a vida humana. Pensa que já está num patamar mais avançado de evolução, o que lhe permite ver que a solução para o futuro da humanidade está na morte dos seus, mas tem dificuldade em mostrá-lo a quem não partilha a sua transcendência. Não consegue, infelizmente, ver que este é um retrocesso civilizacional de séculos, e que, por este andar, qualquer dia, quando velho, será abandonado pelos seus filhos num qualquer monte, apenas com um cobertor.

Depois de ter lutado e conseguido que a morte de bébés se tornasse legal, o tosco sente-se agora cheio de energia para as novas batalhas que se avizinham: tornar ilegais as corridas de toiros (principalmente com a morte do animal) e a caça à raposa!

O tosco acha-se um tipo moderno, avant la lettre. Mas para fora só consegue passar a impressão de uma pessoa que, para colocar algum movimento na sua vida triste, decidiu polemizar (poucochinho) e mudar o mundo - da pior maneira!

Deus tenha piedade dos toscos.

2007/02/09

Scoop

Noutros realizadores não seria mau, mas vindo de Woody Allen, estava à espera de bem melhor.

2007/02/07

Desculpem lá, mas até dia 11 vai ter que ser assim...

Às vezes penso que os defensores do "sim" se acham especialmente inteligentes, assim acima do mortal comum, com aquele ar "eu-sei-mais-que-tu" do Francisco Louçã; a parte especialmente irritante deste comportamento é a maneira que eles têm de achar que todas as pessoas que não estão especialmente iluminadas pela sua luz, são estúpidas.

É só isso que eu posso pensar quando oiço atentados à minha inteligência como o de há pouco, no Telejornal da RTP: contava a Dra. Maria José Alves, uma acérrima e empolgada (às vezes demais) defensora da liberalização do aborto, que, na sua vida de médica, se deparou há uns anos com uma rapariga grávida, de nome Natália, com graves problemas de saúde - não percebi se decorrentes da gravidez ou com outra origem. Diz ela que, reunidos em conselho de emergência, os vários médicos presentes resolveram tentar o parto em lugar de provocar o aborto, ao que se deu a entender para não contrariar a lei vigente. A coisa correu mal, o bébé salvou-se, mas a mãe faleceu, o que lamento profunda e sinceramente. Isto foi o que contou a dita médica, e logo, de forma oportunista, aproveitou para chamar a atenção dos portugueses (que ela deve pensar que andam todos a dormir), para a vida que assim se perdeu devido ao cumprimento da lei. O que a doutora não explicou foi que a lei já prevê - e previa, nessa altura - o aborto, completamente justificado e descriminalizado, sempre que haja conflito entre a saúde do bébé e a da mãe ou, por outras palavras, quando a vida da mãe está em perigo. Ou seja, se houve a lamentável morte da mãe, ela só se pode atribuir à incompetência técnica dos médicos na altura da avaliação, pois do ponto de vista legal possuíam todos os instrumentos para efectuar um aborto.

Lembra-me esta outra falácia propalada pelo "sim": a de que, a aprovar-se a por eles tão desejada liberalização do aborto até às dez semanas, deixariam de haver as humilhações públicas de mulheres como as que se verificaram nos julgamentos da Maia, de Setúbal e outros. Só que, muito convenientemente, não referem que todos estes casos de julgamento sucederam com mulheres que abortaram com mais de dez semanas de gravidez, pelo que, com a sua aberrante lei que prevê a criminalização e prisão às dez semanas e um dia, sucederiam na mesma.

Haja paciência.

E agora, para desanuviar:


Podem preparar as palmatórias; como já muitos me disseram, pela boca morre o peixe. Neste caso é pior, porque as minhas opiniões de ontem estao registadas algures nas catacumbas deste blog. Mas é verdade: mudei de opinião. Detestava futebol e agora até me entusiasmo com a coisa. Ainda não sei distinguir as posições dos jogadores em campo, a não ser a do guarda-redes, mas tambem não se pode querer tudo duma vez, não é?

E inscrevi-me no único clube que, mesmo durante os tempos em que reneguei o fenómeno, me fazia desviar o olho para a televisão: o Vitória de Setúbal, evidentemente.

Mas os tipos só me dão desgostos...

2007/02/06

A mim, a paternidade deixa-me susceptível...

Pois é, Ana. Também eu tenho registado alguns comportamentos e impressões inesperadas nesta campanha:

- À Dra. Maria de Belém Roseira, parece-me que lhe devia ter sido concedida uma autorização especial para fazer o número de abortos que muito bem entendesse. A educação que tem não chega para ela, e muito menos para educar terceiros;

- O Engenheiro Sócrates nao é tão parvo como parece. Antes que lhe falassem da interrupção de vida que tem que fazer no Governo, ele, ainda de olhos em bico, já se encarregou de amuar de forma a pressionar e amedrontar os defensores do "não" mais impressionáveis, com ameaças radicais e inquisitórias;

- Deveria ser obrigatória a utilização de legendas ou tradução simultânea sempre que o Professor Vital Moreira aparece na televisão, principalmente quando começa a ficar roxinho e a falar com voz de Pato Donald;

- O Dr. Rui Pereira e o Dr. Miguel Oliveira e Silva deveriam contratar um assessor de imagem para resolver os seus problemas bucais. Num denota-se facilmente o grau de irritação pela quantidade de espuma que se acumula nos cantos da boca, enquanto que o outro passa o tempo, enquanto fala, a passar a língua pelos labios para retirar cascas de tremoços, ou coisa parecida;

- O Dr. José Pinto da Costa não tem só ar de maluco;

- Lídia Jorge devia escrever mais e falar menos. E talvez ler qualquer coisa: "O Princípio de Peter", por exemplo;

- A comunicação social perdeu a vergonha e decidiu atacar decididamente pelo lado do "sim" (leia-se de quem está no poder). Mesmo os órgãos habitualmente isentos e insuspeitos, como o "Público" (hoje com 6 - seis! - artigos de opinião pelo "sim", com erros de ortografia até, e apenas 1 - um! - pelo "não"), a TSF, ou o Portugal Diário alinharam na euforia. O patrão está de volta e o respeitinho é muito bonito;

- Em bom rigor, nesta campanha, e até agora, pelo lado do "sim" a única pessoa que me convenceu foi a Dra. Marta Rebelo - e não foi por nada que ela tivesse dito;

- Mas continuo a achar que há muito boa gente no "sim"...

De regresso

Antes de mais, não tenho palavras para demonstrar o meu reconhecimento por quem esperou que eu voltasse a escrever neste espaço, apesar do hiato decorrido. A todos o meu penhoradíssimo agradecimento.

Muita coisa aconteceu, e muita coisa teria agora para dizer, mas como tenciono incrementar uma mais sadia regularidade na escrita, até por questões de sanidade mental, apenas escreverei para já o fundamental e inadiável.

Como alguns já saberão, estou à espera do meu segundo filho; em princípio será um rapaz, cujo nome não está ainda decidido (a propósito, aceito sugestões, sem contudo me comprometer a segui-las), e que entrou há dias na sua décima terceira semana de gestação. Devido a uma ligeira confusão da médica que segue a gravidez, a ecografia que se encontrava prevista para algures entre a décima primeira e a décima segunda semanas de gravidez, acabou por se realizar à décima. Foi assim, pois, que vi o meu filho com dez semanas, a idade com que os defensores da liberalização do aborto acham razoável eliminar uma vida, a colocar as mãozinhas na cara e a procurar a melhor posição no ventre materno.

O actual debate a que assistimos na praça publica a propósito da dita liberalização de algo a que eufemisticamente se chama "interrupção", como se pudesse haver mais tarde um reatamento da vida, tem-nos mostrado o quão falha de valores se tornou grande parte da sociedade portuguesa, eminentemente rendida aos capitalistas valores do consumismo e da progressão, não obstante o "sim" ser principalmente defendido por uma esquerda que se tem por "moderna". Há um ruído enorme à volta dos direitos de opção da mulher, mas um ensurdecedor silencio sobre os direitos do bébé que, por não ter possibilidade de se exprimir ou defender, acaba por ser eliminado liminarmente precisamente pela unica pessoa no mundo em que poderia confiar para a sua protecção.

Apesar disso, é evidente que a mulher (e o homem, já agora) tem direito a optar por ter ou não um filho - só que essa opção, manda o bom senso, deve ser tomada a montante, ie, antes da concepção. Não existirá, no cantinho mais recôndito deste país, e pesem embora todas as deficiências acumuladas do nosso sistema educativo ao nível da educação sexual, uma unica alma adulta, ou em idade de procriar, que desconheça que, caso tenha relações, pode vir a engravidar. Em aparente desorientação ou desespero de causa, invoca-se agora insistentemente a falibilidade dos métodos contraceptivos; de repente, sistemas que nos eram apresentados pelos seus fabricantes como possuindo taxas de deficiência meramente residuais, aparecem agora como toscas e primárias formas de protecção que falham em mais de metade dos casos.

Sejamos sérios, amigos: por muito que haja quem o tente maquilhar, existe uma vida humana em plena formação a partir da data da sua concepção, e essa vida tem que ser protegida. Os nossos actos têm que ser consequentes, e temos que nos responsabilizar por eles. O curioso é que a maior parte das pessoas que agora fala da liberdade "da mulher" para não assumir as consequencias de algo que fez voluntariamente - sim, porque em caso de violação, ou outras situações anómalas, já existe o devido enquadramento jurídico - sabe condenar veementemente, por exemplo, a irresponsabilidade e imoralidade de quem aceitou um cachorrinho "porque era muito fofinho", mas que mais tarde, perdido o encanto e roídos alguns sofás, o foi abandonar numa qualquer zona industrial.

Outros aspectos desta proposta de liberalização que servem aos seus defensores para justificar a mesma, prendem-se com o actual enquadramento penal existente para uma mãe que faz um aborto. É um facto que a lei em vigor prevê uma pena de até três anos de prisão efectiva para quem praticar esse ilícito, mas a verdade é que os juízes perceberam desde logo o espírito da lei, e nunca uma mulher foi presa por ter feito um aborto em Portugal. Afirmar o contrário, em imagens choque tão queridas ao Bloco de Esquerda e ao Partido Socialista que vai a seu reboque, é uma desonestidade e uma manipulação grosseira da verdade que em nada abona quanto à idoneidade de quem a pratica. Aliás, tanto quanto se sabe, as mulheres que até hoje têm sido indiciadas pela prática de aborto não o são por iniciativa isolada do Ministério Publico, antes surgindo como réus na sequência das investigações efectuadas por aquele relativamente a clínicas "de vão de escada", estas sim, merecedoras de efectiva punição. E a exposição publica que esta "moderna" esquerda tanto condena, apenas se deve ao folclore que a mesma vai fazer para as portas dos tribunais, chamando a atenção massiva dos media para uma pessoa que, noutra situação, se apresentaria discretamente a julgamento e sairia absolvida no espírito da lei.

Isto dito, não se pense que eu, e a maioria - arriscaria a quase totalidade - dos defensores do "não" concorda com a actual legislação relativamente a quem aborta. Mas existem, e os ultimos dias têm-nos demonstrado isso, meios efectivos de transformar a sanção aplicável, sem no entanto promover a liberalização total do aborto. Mas, no seu pânico de poder perder terreno e até o referendo, o Primeiro Ministro José Sócrates, no seu tom arrogante de criança mimada, ja nos veio dizer que, caso vença o "não", o Governo não se encontra disponível para alterar a actual lei, mesmo que seja no objectivo interesse da população. Um típico caso de amuo que mostra bem que, para este Governo, o referendo apenas constitui um medir de forças políticas, e a situação de quem aborta pouco interessa.

Muito mais haveria aqui a dizer, designadamente a discutibilidade de um aborto a pedido, sem mais explicações, poder ser feito num hospital público, passando à frente, por exemplo, de uma operação de cancro ou de transplante (muito) anteriormente agendada. Também se pergunta onde ficou a coerência, quando vemos pessoas a defender que uma mulher com uma gravidez de dez semanas pode abortar livremente, e é até ajudada a fazê-lo pelo Estado, enquanto que a que tem uma gravidez de dez semanas e um dia, para além de ter de procurar outros meios (ilegais) para o fazer, pratica um crime punível com os "famosos" três anos de prisão. Também merecedora de atenção especial é a proposta de se legalizar algo que não se consegue (ou não se quer?) combater doutra forma, o que nos abriria um precedente que nos permitiria legalizar em seguida a droga, a prostituição e, no limite, os furtos ou assassinatos. Não são, pois, todas estas coisas que sempre existirão, pese embora a legislação contraria?

Sem comentários, pelo menos da minha parte, ficam as declarações de Lídia Jorge em pleno directo na RTP, chamando ao bébé no ventre materno, "coisa humana". Mostra o nível, afere os valores...

Muito mais haveria a dizer, é verdade, mas ficará para outra altura. Hoje o meu filho mais velho, o Lourenço, faz seis anos e é altura de festejar a sua presença neste mundo, perto de mim.

2006/09/21

Sinais do tempo

A vida, as suas condições, parecem-nos coisas estáveis, que não mudam, com as quais podemos contar sempre, mas de vez em quando algo nos diz que o tempo passa, e que nada se pode tomar como certo. A morte de quem nos é querido vem-nos sempre esbofetear para que acordemos e percebamos que as coisas mudam e as oportunidades perdem-se - a oportunidade de dizer algo, a oportunidade de um gesto que sempre adiámos porque pensávamos que teríamos muitas mais ocasiões de o fazer.

Mas há coisas mais simples, menos dolorosas, que, à sua maneira, também nos vão fazendo sentir que há pedacinhos de nós a desaparecer. Todos sentimos isso já uma vez ou outra na vida: o encerramento e desmantelamento, por estúpidas tricas políticas, do bar da Tia Luz, no Carvalhal, Zambujeira do Mar, é apenas um exemplo de como de repente, e sem aviso prévio, alguém nos tira um bocadinho de chão de debaixo dos pés.

Agora outra notícia triste me chega: a livraria da Assírio e Alvim que existia na cave do Cinema King fechou as portas por falta de rentabilidade. Quem me deu a notícia diz que parece que as pessoas gostavam muito de folhear os livros antes dos filmes, mas raramente os compravam. Desolado, respondi que esse era um dos motivos que me levavam a achar o King um dos melhores cinemas lisboetas, e que praticamente de todas as vezes em que lá ia não conseguia resistir à tentação e acabava por exceder frequentemente o orçamento disponível. Pois, responderam-me, mas nem todos compravam os livros. Ingénuo de mim, que acreditava que aquele era um espaço de grande sucesso comercial.

Hoje irei lá ver "Volver", se Deus quiser, mas já me preparei para o choque de ver aquela porta encerrada, se bem que cá no fundo ainda luza uma esperança ínfima de que quem me deu a notícia se tenha enganado, que tenha sido apenas um encerramento para férias ou remodelações...

Update: Afinal as portas não estão fechadas; é necessário passar pelo espaço onde funcionava a livraria para se aceder à cafetaria, lá ao fundo. Mas a visão daquelas prateleiras vazias ainda é pior do que se nos barrassem a passagem, parece-me - como olhar para o sítio onde estava o bar do Carvalhal. E "Volver" é excelente, mas vindo de Pedro Almodôvar isso não é novidade, pois não?

2006/09/19

Agradecimento

Eu sei, vocês têm razão: a euforia dos acontecimentos recentes na minha vida tornou-me desleixado com este blog, e ele (o blog) não merece, nem tampouco os meus 2,7 leitores. Há muita coisa sobre a qual me apetece falar ou escrever, desde a situação interna do meu partido de sempre, ao péssimo início de temporada do meu clube, o Vitória de Setúbal (que hoje já vai ganhar, espero). Há também notícias lindas sobre o Lourenço, as crónicas sobre a Arrábida de João Bénard da Costa, o regresso aos ralis, os toiros em Espanha, entre muitas outras coisas e, evidentemente, a minha situação pessoal, que não será objecto de grandes aprofundamentos públicos, mas que - isto não é segredo - está melhor do que nunca.

Prometo um regresso rápido a partir de agora, está bem? Desculpem o hiato, e obrigado por terem mantido esta consulta nos vossos hábitos. Espero que nunca se arrependam.

2006/08/07

2006/07/23

Há males que vêm por bem!

Na semana passada pensei que o meu programa cultural para esta semana bem que poderia passar por um reencontro com David Gahan y sus muchachos na próxima sexta-feira, em Alvalade. Não estava completamente convencido, não só porque seria a terceira vez que veria a banda - e a segunda no espaço de alguns meses - mas principalmente porque começo a ficar um bocadinho farto destes espaços demasiado grandes, cheios de gente com idade para serem meus filhos, e tudo numa noite que podia revelar-se de sauna. A única coisa que mantinha a minha decisão pendente era apenas o gosto que teria em reouvir ao vivo "Enjoy the silence" e "It´s just a question of time", mas os rapazes, ou os seus promotores em Portugal, fizeram o favor de decidir por mim ao cancelar o concerto, e assim pouparam-me provavelmente a uma noite demasiado agitada para alguns cabelos brancos que me começam a despontar.

Posta de parte a hipótese Depeche Mode, surgiu-me de imediato nova opção de concerto para o mesmo dia. O meu Lourenço descobriu que os D'zrt iriam actuar na mesma sexta-feira no espaço da Feira de Santiago, em Setúbal. Novamente apenas havia um único argumento a favor da comparência, mas era um argumento que facilmente se superiorizava a qualquer outro: a felicidade do Lourenço. Quero lá saber que a feira tenha perdido o carisma de outros tempos, de quando era na Avenida Luísa Todi, desterrada que foi para lugares da cidade do Sado que mal conhecia. Não me interessa também que os sons emitidos pelos imberbes actores se situe bem abaixo de medíocre numa hipotética escala qualitativa. Tampouco me importaria o convívio com alguns milhares de teenagers em delírio, desde que com isso pudesse satisfazer o ainda pouco ambicioso gosto cultural do meu filho. Mas de novo houve quem decidisse por mim: os avós do petiz irão resgatá-lo já quarta-feira para umas férias a quatrocentos quilómetros daqui, junto ao Douro, e agora a minha dúvida reside apenas em saber se serei capaz de aguentar mais de duas semanas sem o ver, ou se terei que improvisar um raid-relâmpago intercalar para matar saudades.

Mas voltando à agenda cultural desta semana, parece afinal que os deuses se estavam a conluiar para me proporcionar algo bem mais condizente com a minha disposição actual: em viagem recente aos lados do Cabo da Roca recordei, através dos cartazes afixados na marginal, que Ive Mendes actua na próxima quinta-feira no espaço intimista da Cidadela de Cascais. Pode ser que seja agora que algo comece a correr bem na minha vida...

2006/07/18

Que cabeça a minha!

Este blog, que se orgulha de ser dos primeiros do país (desculpem lá a vaidade, mas de alguma coisa me hei-de orgulhar, não?), fez na passada sexta feira, dia 14, três aninhos. Já anda e corre sozinho, já não pede chupeta, e apenas tem algumas dificuldades na articulação das palavras, mas está a melhorar!

2006/07/16

A derreter

Esta altura, como os meus leitores já devem ter notado, não tem sido das mais apropriadas para postar, e vários são os factores que concorrem para alguma apatia:

O calor, desde logo. Calor desumano, passe o trocadilho.

Algum aumento de trabalho, logo agora, e incertezas sobre férias: se as terei, quando, e, se as tiver, o que devo fazer? A Zambujeira chama-me, mas não antes de Setembro... E São Pedro de Moel também me deixou saudades, desde que não volte para o meio dos nove milhões de portugueses que tiram férias em Julho ou Agosto.

E há concertos para ir ver (a propósito, onde é que vocês andavam com a cabeça que deixaram passar uma coisa óptima como os Waterboys só com "meia dúzia" de assistentes?), corridas de automóveis (o Lourenço quer voltar ao autódromo, mas acho que já está a chegar a altura de lhe mostrar the real thing, os ralis!), a decisão se vendo esta casa enorme ou se fico aqui, a mota para ir buscar ao mecânico, só coisas, só coisas...

Desculpem lá o tom confuso, mas... it's more than I can bare!

2006/07/06

On the road again


Soube-se ontem, numa espécie de confirmação dos rumores que já há algum tempo andavam no ar, que o Rally de Portugal vai voltar ao Campeonato Mundial de Ralis já a partir do próximo ano. Uma óptima notícia para os muitos amantes do desporto automóvel, e mais especificamente dos ralis, que existem por este país, dirão talvez os mais desatentos.

Mas as coisas não são bem assim; muita coisa mudou na competição de estrada nos últimos anos e dos difíceis ralis cheios de público disputados nas décadas de 80 e 90, que a maior parte das pessoas lembram, pouco ou nada ficou. O Rally de Portugal que se disputará em 2007 na zona do Algarve é uma competição formatada segundo regras de normalização rígidas, de desenvolvimento mais ou menos asséptico que tanto poderia ter lugar em Portugal como noutra parte do mundo, com a ressalva natural da diferença de paisagens e de estradas. E note-se bem que não estou a falar da forma saudosista como muitos apreciadores, principalmente do norte do país, lamentam o abandono de troços tradicionais do rali, como os das zonas de Arganil ou de Fafe, entre outros. Eu participei em seis edições do rali sentado num carro de competição, e acompanhei muitas outras em equipas de assistência, como jornalista, ou mesmo como mero espectador. Conheço bem a mística de todos os lugares onde estive, sei bem o que é sair de Viseu às quatro da manhã, ver nascer o sol em troços de Arganil com mais de quarenta quilómetros, dormir duas ou três horas por noite, descer para o Confurco a olhar para as dezenas de milhares de pessoas que nos esperam na encosta do outro lado da estrada, ou reencontrar os amigos na chegada ao Estoril. Vivi as lágrimas e as alegrias do rali como poucos e, desculpem-me a imodéstia, sinto-me um privilegiado por isso. Mas sei também que não se vive do passado, e que, neste momento, não existe outro local em Portugal para realizar o rali que não o Algarve, dada a quantidade de infraestruturas logísticas disponíveis, a par com boas estradas de montanha, conjugação única no país.

No entanto, ainda aqui há tempos, em conversa com o meu grande amigo N.R.S., comentava que os ralis de hoje em dia perderam a magia de outros tempos, muito por culpa das organizações, para as quais o público é visto como um empecilho e que, se fosse possível, realizariam as suas provas dentro de pavilhões fechados com transmissão unicamente pela televisão. Com excepção de meia dúzia de credenciados, que perceberão tanto de ralis como de lagares de azeite, o acesso ao contacto com os bólides é controlado de forma quase ditatorial, sejam quais forem as circunstâncias - e não estou a falar de palhaçadas arriscadas no meio da estrada, mas de visitas a assistências, observação dos stops, ou "aquela" curva gira, cujo acesso, no entanto, está vedado cinco quilómetros antes por zelosos agentes da lei. O público conhecedor deixou de interessar, e um rali do Mundial hoje em dia não é um produto para o verdadeiro aficcionado, mas sim para o curioso, que tanto vai ao rali, como ao concerto dos Rolling Stones, como à festa lá da terra, e sempre com o mesmo grau de interesse.

Por isso, e porque assisti aos dois últimos ralis de Portugal como espectador e fiquei indignado com o que vi, garanto-vos desde já que, se não surgir um convite para participar na próxima edição do Rally de Portugal (já agora, aceito propostas), muito dificilmente me verão no sul do país entre 30 de Março e 1 de Abril do próximo ano. Façam bom proveito os que forem.

Lá se foi a taça!

Os comerciantes de móveis de Paços de Ferreira já podem respirar fundo; não ganharam para o susto!

2006/07/03

O apelo


Depois de ler, sem parar sequer para respirar, "As Duas Águas do Mar", do Francisco José Viegas (a propósito, parabéns atrasados pelo prémio APE), é que percebi que a minha vida não estará completa enquanto não for a Finisterra!

Oportunidade única

A falta de visão estratégica do nosso Primeiro Ministro vê-se mais nas oportunidades que deixa escapar do que no (pouco) que faz; com o país de olhos postos no Mundial de Futebol, Sócrates podia aumentar o IVA para 50%, vender o Algarve a uma empresa offshore (com transporte incluído até às instalações do cliente) e até nomear Zézé Camarinha para ministro de qualquer coisa, que ninguém dava por isso.

2006/07/01

Fairplay

A julgar pela reportagem apresentada na versão online do Daily Mirror, escassos minutos após o término da partida dos quartos de final do Mundial de Futebol 2006, que opôs Portugal à Inglaterra, é de supôr que as televisões inglesas não passaram o mesmo jogo que os portugueses viram. Senão, porquê escrever isto?

"But Simao scored the first and Cristiano Ronaldo hit the fifth after Jamie Carragher failed to put England back on terms. The shoot-out was particularly harsh on the Liverpool man, who had been brought on as substitute in the dying minutes of extra time with penalties in mind, as his first effort easily beat Ricardo in the Portugal goal. However, the referee decided he wasn't ready and ordered Carragher to re-take the kick."
(Estará o jornalista, quando diz que "bateu facilmente Ricardo", a referir-se a um penalty que Carragher marcou antes do apito do árbitro, e para o qual Ricardo nem se mexeu?)

E isto?

"Wayne Rooney - alone and upfront for much of the match - was given a straight red card in the 62nd minute as he reacted while being challenged and hacked by three Portuguese players in the centre of the pitch. It felt another harsh decision against England by the Argentinian referee. (...) The most remarkable incident of the second period was Rooney's sending off - not helped by Ronaldo running over to the referee in a blatant attempt to get him to take action against his Manchester United colleague. With the excellent Gary Neville and impeccable Rio Ferdinand also on the pitch, it's hard to see how Ronaldo can be assured a warm reception when he next returns to training at Carrington. If he does. He has said he wants to join Real Madrid - as far as many English fans are concerned (not to mention Manchester United's own) that might not be a bad idea."
(Gostei especialmente da candura com que se diz que Rooney levou um cartão vermelho directo "por ter reagido enquanto estava a ser pressionado por três jogadores portugueses...")

Há mais coisas giras na imprensa inglesa, mas o tom não varia muito. A dôr de cotovelo é uma coisa do arco da velha...

2006/06/30

Novidades da medicina:

Diogo Freitas do Amaral apresentou hoje a demissão do cargo que ocupava no Governo devido a problemas na coluna vertebral que, segundo o seu porta-voz, se têm vindo a agravar nos últimos tempos. Duas informações curiosas podemos extrair inequivocamente desta notícia:

Afinal o professor sempre tem coluna vertebral.

O contorcionismo, como já se calculava, é bastante prejudicial à dita.

2006/06/28

Coisas simples:


...para ir agora a Cacela Velha, comer umas ostras no largo e ver o pôr do sol...

Dependências

É sabido que nem tudo o que dá prazer nos é permitido; aliás, a maior parte das coisas que sabem bem são proibidas, engordam, ou ambas.

Há muitos anos que não dispensava a compra do jornal "Blitz", mas isto apenas até à altura em que percebi o quão pernicioso esse hábito se andava a tornar para a minha carteira - não pela parca quantia que custava o jornal em si, mas pelas excursões que logo em seguida fazia à FNAC para adquirir CD's que, face à crítica, se apresentavam como simplesmente indispensáveis. São desta fase as minhas "descobertas" de muitas bandas, tais como os Mansun, Mercury Rev, ou, mais recentemente, os Ordinary Boys, Delays ou The Libertines, e isto só para citar alguns. A decisão teve que ser drástica: deixar de comprar o jornal, com apenas algumas recaídas ocasionais, tão frequentes nos viciados. Olhos que não veêm, coração que não sente.

As finanças reorganizaram-se, até ao dia em que apareceram estes tipos a perturbar-me o espírito. Também lhes vou enviar, em breve as facturas referentes a despesas não previstas, se bem que gratificantes. Desta fase recordo, ainda a semana passada, a compra do álbum dos Final Fantasy, com o mentor dos Arcade Fire, cujo nome agora não recordo (e estou demasiado preguiçoso para pesquisas).

Agora a tentação voltou: o Blitz deixou o seu formato de pasquim semanal e passou a apresentar-se numa revista mensal que é impossível não comprar. Tempos difíceis se aproximam. A propósito, sabiam que Richard Hawley (o que eu penei à espera do primeiro CD, "Lowedges") já tem um novo álbum? E que Thom Yorke, dos Radiohead, lançou um álbum a solo? E que Neil Hannon, aka The Divine Comedy, também tem novo trabalho? Ai, ai...

Olé!


Sexta passada, por las ocho de la tarde, retomei um dos meus maiores prazeres: os toiros no único lugar onde podem ser vistos - em Espanha, claro.

A corrida foi mediana, com um El Juli razoavelmente inspirado e um Miguel Angel Perera numa das piores exibições que já lhe vi, ambos a terem que se defrontar com a nova estrela ascendente do toureio espanhol e, por inerência, mundial: Alejandro Talavante!

Há já dois anos, desde que vi César Jimenez em Almendralejo, que não tinha tamanha surpresa ao ver uma lide. Talavante, de apenas dezoito anos, e que tomou a alternativa há apenas duas semanas numa praça de nome impronunciável, confirmou todas as críticas que já tinha conhecido, e que o tornam no maior fenómeno da temporada, pelo menos até ver. Certo que algumas impetuosidades, a par com alguma dificuldade na avaliação da aprendizagem dos toiros durante a lide, pechas apenas imputáveis à sua juventude, o impediram de colher como troféus mais do que duas discutíveis orelhas na segunda lide. Mas a forma corajosa e elegante como executa as estatuárias, as gaoneras perfeitas, e a maestria com a muleta tornam-no, para já, num matador que aconselho vivamente aos aficcionados. Eu fiquei admirador, e decerto tudo farei para voltar a assistir a uma corrida onde ele conste no cartel - de preferência na Real Maestranza, em Sevilha, afinal a verdadeira "catedral" do toureio!

2006/06/26

Delírio duma noite quente

A minha vida bem que poderia ser um longo fim de semana, com ar condicionado em todos os lugares, bons restaurantes, cheios de coisas boas que não engordassem nem fizessem mal (incluindo charutos), livros por todo o lado, varandas sobre o mar, boas conversas, boas companhias, aqueles CD's que nos arrepiam, os jornais do dia espalhados pelo chão da sala, dinheiro no bolso, estrada para rolar, e o meu filho sempre perto de mim...

2006/06/20

O dinheiro afinal não compra tudo!

Ontem, ao folhear uma revista que se encontrava na mesa do café onde parei ao fim da tarde, daquelas que saem como suplemento num jornal qualquer, dei com uma entrevista de um tal Renato Berardo, filho de um famoso coleccionador de arte moderna com o mesmo apelido. A minha costela voyeur não me poupou, e lá acabei por dar comigo a ler as declarações do herdeiro. Não comentarei agora a maior parte do que lá ficou dito, mas não consegui conter um enorme arrepio quando li a descrição, pelo próprio, das suas primeiras tentativas de comprar arte. Segundo o entrevistado, só depois de ter adquirido, há alguns anos, um quadro, é que teve conhecimento de que este era uma reprodução, e isto por amável esclarecimento da esposa. Indignado, perguntou então a quem lhe facultou a informação por que motivo não tinham comprado o original, ao que a sua consorte conselheira o voltou a informar de que tal teria sido muito, mas mesmo muito difícil, já que o original se encontra no Louvre e se chama Mona Lisa. E ele contou isto, assim, numa revista.

Pensando bem, acho que também não vou comentar esta parte da entrevista.

2006/06/18

Carta aberta a Sílvia Alberto

Existem, definitivadamente, duas épocas no jornalismo escrito português: antes e depois de Miguel Esteves Cardoso (MEC). Para além da informalidade e paródia que introduziu na escrita, desde os seus tempos do "Se7e", passando pelas crónicas no "Expresso" (assim de repente lembro-me da "Causa das Coisas", "As minhas aventuras na República Portuguesa", "Os meus problemas"...), e culminando nos excelentes textos e legendas de "O Independente", que comprei desde o número 1, para além disso, dizia, MEC tinha ainda uma outra capacidade extraordinária: a de nos pôr a sofrer os seus próprios problemas, tal a forma como expunha despudoradamente os seus estados de espírito pessoais nas páginas das publicações em que escrevia. Foi talvez por isso que me veio há bocado à memória um artigo (mais à frente já perceberão porque me lembrei disto agora) em que o autor, tanto quanto sabemos encantado com as belezas de uma apresentadora de um programa televisivo de surf - também isto uma novidade naqueles dias - de sua graça Rita Seguro, dedicava toda uma crónica, em jeito de declaração pública, a confessar-nos o seu deslumbramento e paixão pela radical diva; aliás, se não estou em erro, o autor dirigia-se directamente à visada, isto apesar de, aparentemente, nunca terem sido sequer apresentados. Nunca percebi ao certo se a coisa era mesmo sentida ou se havia ali uma pequena pontinha de ironia, mas fascinou-me absolutamente a forma como escarrapachou nas páginas de um jornal coisas que até aí só se diziam em privado ao melhor amigo - e, mesmo assim, nunca antes do segundo gin tónico!

Lembrei-me disto há bocado quando, depois de jantar em casa da minha mãe com o meu filho, acabei por ceder às insistências de ambas as gerações para assistir a um programa televisivo, aparentemente de grande popularidade, chamado "Dança comigo". Curiosamente, foi a primeira vez que assisti a tal coisa (quem me conhece melhor já sabe da minha obstinada abstinência - tentem lá dizer isto depressa - em relação à televisão), e foi também, feliz ou infelizmente, o último programa exibido ("desta série", conforme nos foi dito, o que não augura nada de bom). O programa em si é banalíssimo, apelando permanentemente à palmadinha nas costas entre intervenientes e às emoções facilmente manipuladas de uma plateia já convenientemente instruída para assistir ao espectáculo das suas vidas, com muita lagriminha marota à mistura. Nada a acrescentar, portanto.

Contudo, algo ali me fez assistir ao programa com redobrada atenção até ao seu final: o "reencontro" com Sílvia Alberto, agora mulher, mas com o mesmo ar de menina que, há já alguns anos, me fazia levantar de manhã aos domingos para assistir ao "Clube dos Amigos Disney"! Sim, já sei, não esperavam isto de mim, mas também nunca vos garanti que não vos iria desiludir, pois não?

Bom, mas voltando ao assunto, e aproveitando a introdução sobre a desavergonhada atitude de MEC, e transpondo-a para este micro-espaço, vou, eu também, aproveitar a prolixidade e o desaforo que tenho na escrita para fazer aqui um convite público: convido-a, pois, a si, Sílvia Alberto, caso eventualmente faça uma pesquisa no Google e venha aqui parar, para dois almoços ou jantares por estes dias, preferencialmente depois de Outubro, altura em que a temperatura começa a voltar a níveis civilizados. Relativamente à escolha dos lugares, e como bom cavalheiro que prezo ser, deixarei este agradável assunto ao seu cuidado, Sílvia, certo aliás de que o seu leque de conhecimentos nesta área é muito superior ao meu. No entanto, se tiver a amabilidade de me incumbir dessa tarefa, poderei sugerir alguns que fujam ao óbvio de Lisboa como, por exemplo, o "Mar do Peixe" no Meco, o "Ribamar" em Sesimbra, o "Sacas" na Zambujeira do Mar, o "Aqui há peixe" no Carvalhal, o "Trinca-Espinhas" em São Torpes, ou outros em que pensarei se se dignar aceitar este convite duplo. Por fim, calculo que esteja intrigada pelo preciosismo de a convidar para duas refeições, e não simplesmente para almoçar ou jantar; bom, é que, conhecendo-me como me conheço, sei que no primeiro deles não conseguirei dizer mais que "pois...", "ah..." e "ia dizer qualquer coisa mas passou-me" - assim, só o segundo servirá para conversarmos normalmente. Está explicado?

2006/06/17

Orçamento

Apesar de, graças a Deus, nunca ter passado dificuldades financeiras por aí além, noto em mim, por vezes e cada vez mais, uma tendência para o "forretismo", se bem que, na maior parte dos casos, a consiga justificar com a simples invocação da razão.

Para ilustrar o que digo, não consigo conceber como, por exemplo, se gastam fortunas abissais em peças de roupa quando, muitas vezes, apenas estamos a comprar o emblema ou a griffe. Como diz com alguma graça e muita razão o meu amigo P.R., é absolutamente despudorado comprar uma peça de vestuário, seja ela qual for, cujo custo seja superior ao ordenado mínimo nacional. Claro que este raciocínio não poderá valer, por exemplo, para uma camisa, em que o plafond terá que ser forçosamente muito mais baixo, e cujo valor razoável de aquisição não poderá exceder nunca os cinquenta ou sessenta euros, e isto para casos de comprovada qualidade.

O mesmo para os automóveis: por muitos Euromilhões que me pudessem sair, não me veria em caso algum a comprar aqueles carros estranhos que os príncipes árabes ou o Vítor Baía compram, com preços superiores a meio milhão de euros. Acho que é um desrespeito a todas as pessoas com necessidades este tipo de desperdícios e, apesar de ser um grande adepto de automóveis em muitas das suas vertentes, considero que existem excelentes carros com todas as comodidades exigíveis muito abaixo dos cinquenta mil euros.

Por fim, um fenómeno recente: os telemóveis. Observo frequentemente, mesmo no meu círculo de amigos mais restrito, mudanças frequentes e dispendiosas de aparelhos cujo único defeito é não serem os últimos do catálogo, por forma a dispor permanentemente de toda a parafernália dos gadgets mais recentes que estes aparelhos oferecem, tais como máquina fotográfica, berbequim, cortadora de fiambre, máquina de café, e sei lá mais o quê. Esta mentalidade impressiona-me e arrepia-me, a mim que só compro um telemóvel quando o anterior está mesmo kaput. Aconteceu há dias e, contrariado, dirigi-me a uma loja da especialidade para adquirir um novo telemóvel. O vendedor bem me queria convencer da utilidade de comprar um modelo que podia receber e-mails, telegramas e correio azul, mas os meus olhos desde a entrada na loja recaíram num singelo aparelho que, por cerca de cinquenta euros, me oferece a possibilidade de fazer e receber chamadas, afinal tudo aquilo para que eu quero um telemóvel!

Em adenda às reflexões expressas acima, gostaria ainda de informar que o anterior aparelho, talvez ressabiado com a sua troca por uma unidade mais jovem e pujante, se recusou a colaborar na hora de passagem do testemunho, isto é, quando tentei salvar os números que possuía em agenda. É, pois, por esse motivo, que aproveito a amplitude deste espaço blogosférico para solicitar a todos os meus leitores e amigos, principalmente àqueles que ainda não incomodei através de e-mail ou mensagem de Hi5, o favor de me reenviarem os vossos números, usando para o efeito o endereço electrónico situado ao lado (em "Recados"), ou, caso o possuam já, o meu número de telemóvel, que não sofreu alterações.

2006/06/12

Problemas de hardware

Ontem, enquanto tentava criar um manjerico para o Lourenço, utilizando, como me mandaram no infantário, papel crepe e um copo de plástico, deixei cair umas grossas gotas de cola-tudo UHU aqui em cima do computador portátil (e agora perguntam vocês: mas para que raio usaste cola UHU numa coisa que se resolve só com agrafos e jeito, e eu, em vez de vos responder, mostro-vos as minhas notas do secundário em trabalhos manuais, ou oficinais, ou lá o que lhes chamam agora). Bom, mas voltando aqui ao meu fiel companheiro, tentei limpá-lo de imediato com um lenço de papel, mas só consegui espalhar mais o visco. Agora, a coisa já secou e o plástico apresenta uma textura como que "arrepanhada" junto ao mouse digital - mas o aparelhómetro vai funcionando na mesma.

Será grave, doutor?

Lindo!

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


(Alexandre O'Neill by M.G.)

A ternura dos quarenta

Este blog teve a característica original de acompanhar o final da minha quarta década de vida (os "trintas") e a entrada na quinta (os "quarentas"). Se bem que pareça um lugar comum, a verdade, verdadinha mesmo, é que muita coisa mudou "aqui dentro" com este franquear.

Houve diversos e importantíssimos factos que aconteceram nestes quase três anos que modificaram de forma irreversível a minha vida, mas houve também mudanças de atitude importantes, quando percebi que me estava irremediavelmente a afastar da minha juventude. Uma das principais diferenças que noto, e pela qual já me fizeram pagar a incoerência, foi o meu súbito interesse pelo futebol, quiçá por falta de coisas mais apelativas por que me interessar. Mas nada de precipitações! Consigo ver um jogo de princípio ao fim mas, em relação por exemplo aos lugares que cada jogador ocupa em campo, continuo a apenas distinguir o guarda-redes e todos os outros. Isto para grande desespero de quem me acompanha ao estádio (do Vitória de Setúbal, claro!), e que, com grande paciência, me vai elucidando sobre mudanças de flanco, faltas de ânimo e outras preciosidades do género (obrigado, F.C., grande amigo!).

Mas, se há coisa para que ainda não consegui a devida garra (e, nesta fase, duvido que venha a obtê-la já), é para embandeirar (literalmente) em relação à selecção Nacional. Que me desculpem os mais nacionalistas, e acreditem que gostaria tanto que os portugueses ganhassem este Mundial como qualquer um de vós - apesar de confessar que, se tivesse dinheiro para apostar, o faria no Brasil, ou melhor, na sua selecção. Talvez a coisa melhore, mas para me galvanizarem têm que passar a jogar bem melhor do que fizeram esta noite. Depois falaremos.

Entretanto, lembrem-me um destes dias de postar aqui qualquer coisa sobre outras mudanças fundamentais que chegaram com os quarentas - as que já chegaram e as que podem estar para vir.