2007/03/27

Os "engenheiros" deste Governo

Se eu fosse engenheiro civil, se além diso defendesse a aberrante localização do novo aeroporto de Lisboa na Ota, se tivesse sido convidado para defender esta posição no programa "Prós e Contras" da RTP1, ontem, e se tivesse um pingo, pelo menos, de ética profissional não me parece que tivesse muitas soluções a não ser declinar a proposta. É que tornou-se absolutamente confrangedor ver profissionais, alguns deles certamente com grande capacidade e conhecimentos técnicos, a "embatucarem" na defesa do indefensável, sem quaisquer dados de engenharia a sustentarem as suas teses - e com os poucos arremedos de números a serem de imediato arrasados, para mais com o ridículo acrescido de os estarem a tentar justificar perante uma plateia de colegas, assim um pouco como se um médico quisesse justificar, num congresso ou simpósio, a eficácia da Aspirina contra o cancro da pele. E, por fim, foi triste ver estes profissionais a enveredarem envergonhados, mas na flagrante ausência de algo mais para dizer, pela argumentação política, mostrando inequivocamente os seus interesses em algo que só politicamente poderia ter alguma justificação.

2007/03/23

Constança, Júdice & outros "Zandingas"

Estaria rico se as sentenças de todos os "especialistas" que, desde há muitos anos, se dedicam, de forma quase obsessiva, a vaticinar a morte do CDS/PP e/ou do Vitória de Setúbal tivessem algum tipo de fiabilidade e eu ganhasse, digamos, um Euro por palpite certo. Infelizmente para essa minha putativa bolsa, mas felizmente para as instituições de que gosto, nenhum deles tem a capacidade de Garcia Marquez para anunciar mortes!

P.S.: Lúcida (sem trocadilhos), é a apreciação de hoje, no "Público", de Vasco Pulido Valente (não faço link para o jornal porque é pago, mas o Paulo Pinto Mascarenhas deu-se ao trabalho de scannerizar o artigo, o que desde já agradeço).

2007/03/21

Talvez durem mais um ano...

Há uns anos, fui dos primeiros a reconhecer-lhes o talento, ainda eles andavam por aqui, na blogosfera. Agora parece-me que o fedor se deve à putrefacção do bichano. O Gato Fedorento, como seria de esperar, rendeu-se ao mercado e adaptou-se a ele. A piada agora é formatada, repetitiva, quase revisteira em alguns casos. A subtileza perdeu-se para dar lugar ao riso fácil, ao trocadilho esperado, quase alarve, e os quatro jovens irreverentes que em tempos não muito distantes me fizeram rir às lágrimas, aburguesaram-se. Mudam-se os tempo, mudam-se os alvos...

Além disso, os rapazes têm ideias políticas, como é natural e desejável, especialmente numa época de tanto desinteresse social; discutível é, porém, o facto de não se coibirem de as misturar com o seu programa de entretenimento, numa promiscuidade aparentemente inocente, mas à qual subjaz uma perfeita consciência do seu efeito sobre o telespectador. Porque será que, do actual espectro político, apenas o Bloco de Esquerda é sistematicamente poupado às caricaturas da trupe? Só os ingénuos acreditam em acasos.

2007/03/19

Patético

A história é velha mas repete-se sempre; Fernando Nogueira, Ferro Rodrigues ou Marques Mendes sabem contá-la bem. Mas há sempre ingénuos para cair nela. To cut a long story short, nos períodos em que é pouco previsível que os partidos cheguem perto do poder, surge fatalmente alguém cheio de ambição e ingenuidade que pensa que vai fazer a diferença, e impor um novo rumo até às próximas eleições. Depois, quando se apercebe que apenas serviu para "cozer em lume brando", revolta-se contra o sistema de que voluntariamente fez parte e, numa estratégia de lémingue, apenas passa a acreditar na fuga em frente.

Como já alguns terão percebido, falo de Ribeiro e Castro; numa primeira fase, pós anúncio de candidatura à liderança de Paulo Portas, pensou que iria vender cara a pele, e até acreditou, nos seus sonhos cor de rosa, que se poderia manter líder do partido. Depois, ao ver os ratos, que antes o idolatravam, a abandonar o barco, percebeu que a sua única dúvida existencial seria se perderia o partido em directas, com 10%, ou em congresso, com 20%. Nessa altura, em desespero de causa, regrediu aos piores tempos da sua infância e pensou: "se não pode ser para mim, não será para ninguém!". E, na impossibilidade de deformar o partido com um ataque de ácido sulfúrico, resolveu destrui-lo por dentro com patéticas e desesperadas manobras que apenas visam protelar o seu inevitável declínio - uma política de terra queimada, muito aquém do que se pensaria ser expectável de alguém com este tipo de formação.

Só não esperava, confesso,que Maria José Nogueira Pinto se prestasse a este tipo de comportamentos perversos e manipuladores. Mas a senhora ainda não esqueceu o congresso de Braga em 1998, e acha que a vingança é um prato que se serve frio - e não se importa de prejudicar milhares de militantes e simpatizantes, na sua sanha de repôr a (sua) justiça.

Dignidade, por onde é que andas?

2007/03/15

Vou ser mãe!

Afinal não é menino - é menina! Vai-se chamar Madalena e vai ser linda! Eu disse "vai ser"? Já é!

Círculo empenado

Parece impossível; tanta associação de protecção disto e daquilo, e não há uma única liga de defesa de qualquer coisa que impeça o massacre público e sádico a que Jorge Coelho é sujeito semanalmente n'"A Quadratura do Círculo". As pessoas não têm culpa de ser como são, e é feio gozar com os outros...

2007/03/14

"A vida é sempre a perder" (*)

Estranha sensação esta, de percebermos que temos mais passado que futuro, e ainda assim não nos sentirmos tristes...

(*): Parte da letra de "O Homem do Leme", dos Xutos e Pontapés; o título deste post também poderia ter sido "Je ne regrette rien", de Edith Piaf.

2007/03/13

Domingo

O meu amigo E. tem razão: a política anda especialmente desinteressante, a maior parte da gente que lá anda ainda mais e a pachorra começa a faltar-me. Desinteressante por desinteressante, falo da minha vida, que essa ao menos interessa pelo menos a uma pessoa!

E falo de domingo passado, um dia que podia ser passado em casa, a ver as janelas do prédio em frente, e a acumular aquela neura do fim de semana a escoar-se. Mas reagimos, fomos comer umas belas tostas ao Bar do Guincho, e eu aproveitei para beber a primeira caipirinha deste ano. Havia gente a mais, um pouco de sol a mais, e faltava-me um livro - mas foi bom, muito bom.

Mas o sol e o calor não abrandavam, os guarda-sóis desta temporada ainda não haviam sido fornecidos pelos especialistas de merchandising, e lembrei-me de algo que já há muito andava a adiar: uma visita ao Palácio Anjos, em Algés, para ver a colecção de Manuel de Brito - os seus Paula Rego, Vieira da Silva, Hogan, Rui Chafes e tantas, tantas mais coisas lindas. Algés, numa tarde solarenga de domingo, estava entregue aos velhos no banco do jardim, e a poucas mais pessoas, tudo situações a apelar à minha costela "estético-depressiva" - a tal coisa de saber apreciar um pôr do sol reflectido numa marquise de Moscavide, lembram-se?

Há muito que não me lembro de passar um domingo tão bom...

2007/03/12

"Roma não paga a traidores!"

Para já é tudo o que me apetece dizer sobre as manobras de bastidores no meu partido de há vinte anos, o CDS/PP, na perspectiva da próxima mudança de liderança. De repente, todos aqueles que "cacicaram" congressos para levar Ribeiro e Castro ao colo, se tornaram "portistas" desde pequeninos.

Mas pode-se enganar muita gente durante pouco tempo, ou pouca gente durante muito tempo, mas nunca ninguém conseguiu enganar toda a gente o tempo todo...

2007/02/12

O tosco

Os últimos dias deste nosso cantinho trouxeram ao conhecimento da população uma espécie que andava meio hibernada desde que abandonou os bancos da escola e começou a tratar da vidinha. Trata-se dos "Tipos que Optaram Sim Com Orgulho", ie, os T.O.S.C.O ou, para maior simplicidade deste post, os toscos. Também existem os T.O.S.S.E., os que optaram pelo sim "Semi Envergonhados", mas como o argumentário de ambas as sub-espécies é muito similar, e está todo profusamente descrito na cartilha do Guru Francisco Louçã, apenas descreverei de seguida os toscos com que me cruzei nos últimos dias, e que me fazem temer pelo futuro deste país.

Ora bem, o tosco reapareceu agora, depois de há uns anos ter querido partir a Indonésia aos bocadinhos e de ter chorado emocionado com os resultados da selecção Nacional nos Campeonatos Internacionais de futebol, isso sim, um facto digno de orgulho Nacional e merecedor dos maiores encómios. É exactamente a mesma pessoa que passa os serões no sofá a indignar-se com a fome em África e com o aumento da temperatura do planeta, mas que sistematicamente adia a sua redentora intervenção em áreas tao prementes. Tambem há a variante mais humanitária do tosco que partilha a sua visão solidária para com os que sofrem, com os seus colegas de balcão, num qualquer estabelecimento nocturno da moda, enquanto os dedos arrefecem agarrados ao copo. Mas agora chegou a altura de, com pouco esforço, o tosco poder contribuir para o avanço do país; trata-se de uma criatura que sempre sofreu um bocadinho da nostalgia de não ter estado presente nos grandes acontecimentos recentes da sua raça, designadamente por não ter atirado uns calhaus aos gendarmes no Maio de 1968, ou de não ter fumado umas belas "ganzas" e ter agido em consonância com o espírito do Woodstock. Contudo, interiorizou as conquistas dos bravos que lutaram nessa altura, e agora é a sua vez (do tosco), de fazer algo para preservar o património herdado, como por exemplo o amor livre sem consequências - a não ser para o bébé, mas isso são pormenores, ate porque ele - o bébé - não se queixa.

O tosco sente-se, pois, um justiceiro, alguém especialmente iluminado para resolver, através do seu voto-Excalibur, os grandes problemas da humanidade, especialmente o das pessoas que gostam de ir para a cama sem precauções, mas depois não querem assumir as consequências do que fizeram. Aqui vem também uma outra faceta do tosco à superfície: a de yuppie-de-trazer-por-casa, o fulano que acha que o prosseguimento de uma carreira que lhe permita ter um carro em leasing, um T3 em Telheiras, e ir de vez em quando ao Brasil, não é compaginável com um filho, e que é um argumento suficiente para se matar alguem. O tosco, infelizmente, anda um pouco atrasado nos seus ideais: ele quer ser um incurável romântico, mas as causas soixante-huitardes, hippies ou yuppies já ficaram para trás e ninguém lhe disse.

No entanto, estudos recentes provaram que, apesar de se tratar de algo de difícil detecção, os toscos parecem possuir uma consciência, ou um seu arremedo. É por isso que o tosco não consegue responder quando o questionam sobre a justiça de matar alguém, sobre o facto de eles, toscos, andarem neste mundo porque alguém decidiu pela sua vida, mas agora arrogarem-se o direito de brincarem aos deuses e decidirem o futuro, a vida ou a morte de outras pessoas. É por isso que fogem à discussão como gato escaldado de água fria, e apenas discutem o tema em auto-apologéticas reuniões somente dedicadas a toscos, como quem consome pornografia mas naturalmente tem vergonha de o assumir. Normalmente sao reuniões pouco produtivas, onde apenas se usam as palavras "mata" e "esfola", nos seus sentidos mais literais. Mas é a única hipótese de o fazerem, já que, quando discutem com quem defende a vida, os argumentos que antes lhes pareciam tão fortes e definitivos, lhes soam agora, a eles próprios, pífios e ridículos, sentindo vergonha e frustração por não serem capazes de dizer, num fiozinho de voz, algo mais importante e consistente do que o reaccionário chavão "apenas as mulheres deviam votar", ou "a opção é apenas da mulher" (de certa forma é uma triste verdade, pois a outra pessoa que poderia ter interesse em dar opinião infelizmente não consegue falar, e nem sabe o que a espera - mas não seria difícil imaginar o que diria, se pudesse. E garanto que nem o patético Rui Rio, agora tão moderno ao lado dos "okupas", ou coisa parecida, teria querido ser abortado se interrogado no ventre materno!).

Não obstante, o tosco continua a sentir-se um incompreendido pelas pessoas que defendem a vida humana. Pensa que já está num patamar mais avançado de evolução, o que lhe permite ver que a solução para o futuro da humanidade está na morte dos seus, mas tem dificuldade em mostrá-lo a quem não partilha a sua transcendência. Não consegue, infelizmente, ver que este é um retrocesso civilizacional de séculos, e que, por este andar, qualquer dia, quando velho, será abandonado pelos seus filhos num qualquer monte, apenas com um cobertor.

Depois de ter lutado e conseguido que a morte de bébés se tornasse legal, o tosco sente-se agora cheio de energia para as novas batalhas que se avizinham: tornar ilegais as corridas de toiros (principalmente com a morte do animal) e a caça à raposa!

O tosco acha-se um tipo moderno, avant la lettre. Mas para fora só consegue passar a impressão de uma pessoa que, para colocar algum movimento na sua vida triste, decidiu polemizar (poucochinho) e mudar o mundo - da pior maneira!

Deus tenha piedade dos toscos.

2007/02/09

Scoop

Noutros realizadores não seria mau, mas vindo de Woody Allen, estava à espera de bem melhor.

2007/02/07

Desculpem lá, mas até dia 11 vai ter que ser assim...

Às vezes penso que os defensores do "sim" se acham especialmente inteligentes, assim acima do mortal comum, com aquele ar "eu-sei-mais-que-tu" do Francisco Louçã; a parte especialmente irritante deste comportamento é a maneira que eles têm de achar que todas as pessoas que não estão especialmente iluminadas pela sua luz, são estúpidas.

É só isso que eu posso pensar quando oiço atentados à minha inteligência como o de há pouco, no Telejornal da RTP: contava a Dra. Maria José Alves, uma acérrima e empolgada (às vezes demais) defensora da liberalização do aborto, que, na sua vida de médica, se deparou há uns anos com uma rapariga grávida, de nome Natália, com graves problemas de saúde - não percebi se decorrentes da gravidez ou com outra origem. Diz ela que, reunidos em conselho de emergência, os vários médicos presentes resolveram tentar o parto em lugar de provocar o aborto, ao que se deu a entender para não contrariar a lei vigente. A coisa correu mal, o bébé salvou-se, mas a mãe faleceu, o que lamento profunda e sinceramente. Isto foi o que contou a dita médica, e logo, de forma oportunista, aproveitou para chamar a atenção dos portugueses (que ela deve pensar que andam todos a dormir), para a vida que assim se perdeu devido ao cumprimento da lei. O que a doutora não explicou foi que a lei já prevê - e previa, nessa altura - o aborto, completamente justificado e descriminalizado, sempre que haja conflito entre a saúde do bébé e a da mãe ou, por outras palavras, quando a vida da mãe está em perigo. Ou seja, se houve a lamentável morte da mãe, ela só se pode atribuir à incompetência técnica dos médicos na altura da avaliação, pois do ponto de vista legal possuíam todos os instrumentos para efectuar um aborto.

Lembra-me esta outra falácia propalada pelo "sim": a de que, a aprovar-se a por eles tão desejada liberalização do aborto até às dez semanas, deixariam de haver as humilhações públicas de mulheres como as que se verificaram nos julgamentos da Maia, de Setúbal e outros. Só que, muito convenientemente, não referem que todos estes casos de julgamento sucederam com mulheres que abortaram com mais de dez semanas de gravidez, pelo que, com a sua aberrante lei que prevê a criminalização e prisão às dez semanas e um dia, sucederiam na mesma.

Haja paciência.

E agora, para desanuviar:


Podem preparar as palmatórias; como já muitos me disseram, pela boca morre o peixe. Neste caso é pior, porque as minhas opiniões de ontem estao registadas algures nas catacumbas deste blog. Mas é verdade: mudei de opinião. Detestava futebol e agora até me entusiasmo com a coisa. Ainda não sei distinguir as posições dos jogadores em campo, a não ser a do guarda-redes, mas tambem não se pode querer tudo duma vez, não é?

E inscrevi-me no único clube que, mesmo durante os tempos em que reneguei o fenómeno, me fazia desviar o olho para a televisão: o Vitória de Setúbal, evidentemente.

Mas os tipos só me dão desgostos...

2007/02/06

A mim, a paternidade deixa-me susceptível...

Pois é, Ana. Também eu tenho registado alguns comportamentos e impressões inesperadas nesta campanha:

- À Dra. Maria de Belém Roseira, parece-me que lhe devia ter sido concedida uma autorização especial para fazer o número de abortos que muito bem entendesse. A educação que tem não chega para ela, e muito menos para educar terceiros;

- O Engenheiro Sócrates nao é tão parvo como parece. Antes que lhe falassem da interrupção de vida que tem que fazer no Governo, ele, ainda de olhos em bico, já se encarregou de amuar de forma a pressionar e amedrontar os defensores do "não" mais impressionáveis, com ameaças radicais e inquisitórias;

- Deveria ser obrigatória a utilização de legendas ou tradução simultânea sempre que o Professor Vital Moreira aparece na televisão, principalmente quando começa a ficar roxinho e a falar com voz de Pato Donald;

- O Dr. Rui Pereira e o Dr. Miguel Oliveira e Silva deveriam contratar um assessor de imagem para resolver os seus problemas bucais. Num denota-se facilmente o grau de irritação pela quantidade de espuma que se acumula nos cantos da boca, enquanto que o outro passa o tempo, enquanto fala, a passar a língua pelos labios para retirar cascas de tremoços, ou coisa parecida;

- O Dr. José Pinto da Costa não tem ar de maluco;

- Lídia Jorge devia escrever mais e falar menos. E talvez ler qualquer coisa: "O Princípio de Peter", por exemplo;

- A comunicação social perdeu a vergonha e decidiu atacar decididamente pelo lado do "sim" (leia-se de quem está no poder). Mesmo os órgãos habitualmente isentos e insuspeitos, como o "Público" (hoje com 6 - seis! - artigos de opinião pelo "sim", com erros de ortografia até, e apenas 1 - um! - pelo "não"), a TSF, ou o Portugal Diário alinharam na euforia. O patrão está de volta e o respeitinho é muito bonito;

- Em bom rigor, nesta campanha, e até agora, pelo lado do "sim" a única pessoa que me convenceu foi a Dra. Marta Rebelo - e não foi por nada que ela tivesse dito;

- Mas continuo a achar que há muito boa gente no "sim"...

De regresso

Antes de mais, não tenho palavras para demonstrar o meu reconhecimento por quem esperou que eu voltasse a escrever neste espaço, apesar do hiato decorrido. A todos o meu penhoradíssimo agradecimento.

Muita coisa aconteceu, e muita coisa teria agora para dizer, mas como tenciono incrementar uma mais sadia regularidade na escrita, até por questões de sanidade mental, apenas escreverei para já o fundamental e inadiável.

Como alguns já saberão, estou à espera do meu segundo filho; em princípio será um rapaz, cujo nome não está ainda decidido (a propósito, aceito sugestões, sem contudo me comprometer a segui-las), e que entrou há dias na sua décima terceira semana de gestação. Devido a uma ligeira confusão da médica que segue a gravidez, a ecografia que se encontrava prevista para algures entre a décima primeira e a décima segunda semanas de gravidez, acabou por se realizar à décima. Foi assim, pois, que vi o meu filho com dez semanas, a idade com que os defensores da liberalização do aborto acham razoável eliminar uma vida, a colocar as mãozinhas na cara e a procurar a melhor posição no ventre materno.

O actual debate a que assistimos na praça publica a propósito da dita liberalização de algo a que eufemisticamente se chama "interrupção", como se pudesse haver mais tarde um reatamento da vida, tem-nos mostrado o quão falha de valores se tornou grande parte da sociedade portuguesa, eminentemente rendida aos capitalistas valores do consumismo e da progressão, não obstante o "sim" ser principalmente defendido por uma esquerda que se tem por "moderna". Há um ruído enorme à volta dos direitos de opção da mulher, mas um ensurdecedor silencio sobre os direitos do bébé que, por não ter possibilidade de se exprimir ou defender, acaba por ser eliminado liminarmente precisamente pela unica pessoa no mundo em que poderia confiar para a sua protecção.

Apesar disso, é evidente que a mulher (e o homem, já agora) tem direito a optar por ter ou não um filho - só que essa opção, manda o bom senso, deve ser tomada a montante, ie, antes da concepção. Não existirá, no cantinho mais recôndito deste país, e pesem embora todas as deficiências acumuladas do nosso sistema educativo ao nível da educação sexual, uma unica alma adulta, ou em idade de procriar, que desconheça que, caso tenha relações, pode vir a engravidar. Em aparente desorientação ou desespero de causa, invoca-se agora insistentemente a falibilidade dos métodos contraceptivos; de repente, sistemas que nos eram apresentados pelos seus fabricantes como possuindo taxas de deficiência meramente residuais, aparecem agora como toscas e primárias formas de protecção que falham em mais de metade dos casos.

Sejamos sérios, amigos: por muito que haja quem o tente maquilhar, existe uma vida humana em plena formação a partir da data da sua concepção, e essa vida tem que ser protegida. Os nossos actos têm que ser consequentes, e temos que nos responsabilizar por eles. O curioso é que a maior parte das pessoas que agora fala da liberdade "da mulher" para não assumir as consequencias de algo que fez voluntariamente - sim, porque em caso de violação, ou outras situações anómalas, já existe o devido enquadramento jurídico - sabe condenar veementemente, por exemplo, a irresponsabilidade e imoralidade de quem aceitou um cachorrinho "porque era muito fofinho", mas que mais tarde, perdido o encanto e roídos alguns sofás, o foi abandonar numa qualquer zona industrial.

Outros aspectos desta proposta de liberalização que servem aos seus defensores para justificar a mesma, prendem-se com o actual enquadramento penal existente para uma mãe que faz um aborto. É um facto que a lei em vigor prevê uma pena de até três anos de prisão efectiva para quem praticar esse ilícito, mas a verdade é que os juízes perceberam desde logo o espírito da lei, e nunca uma mulher foi presa por ter feito um aborto em Portugal. Afirmar o contrário, em imagens choque tão queridas ao Bloco de Esquerda e ao Partido Socialista que vai a seu reboque, é uma desonestidade e uma manipulação grosseira da verdade que em nada abona quanto à idoneidade de quem a pratica. Aliás, tanto quanto se sabe, as mulheres que até hoje têm sido indiciadas pela prática de aborto não o são por iniciativa isolada do Ministério Publico, antes surgindo como réus na sequência das investigações efectuadas por aquele relativamente a clínicas "de vão de escada", estas sim, merecedoras de efectiva punição. E a exposição publica que esta "moderna" esquerda tanto condena, apenas se deve ao folclore que a mesma vai fazer para as portas dos tribunais, chamando a atenção massiva dos media para uma pessoa que, noutra situação, se apresentaria discretamente a julgamento e sairia absolvida no espírito da lei.

Isto dito, não se pense que eu, e a maioria - arriscaria a quase totalidade - dos defensores do "não" concorda com a actual legislação relativamente a quem aborta. Mas existem, e os ultimos dias têm-nos demonstrado isso, meios efectivos de transformar a sanção aplicável, sem no entanto promover a liberalização total do aborto. Mas, no seu pânico de poder perder terreno e até o referendo, o Primeiro Ministro José Sócrates, no seu tom arrogante de criança mimada, ja nos veio dizer que, caso vença o "não", o Governo não se encontra disponível para alterar a actual lei, mesmo que seja no objectivo interesse da população. Um típico caso de amuo que mostra bem que, para este Governo, o referendo apenas constitui um medir de forças políticas, e a situação de quem aborta pouco interessa.

Muito mais haveria aqui a dizer, designadamente a discutibilidade de um aborto a pedido, sem mais explicações, poder ser feito num hospital público, passando à frente, por exemplo, de uma operação de cancro ou de transplante (muito) anteriormente agendada. Também se pergunta onde ficou a coerência, quando vemos pessoas a defender que uma mulher com uma gravidez de dez semanas pode abortar livremente, e é até ajudada a fazê-lo pelo Estado, enquanto que a que tem uma gravidez de dez semanas e um dia, para além de ter de procurar outros meios (ilegais) para o fazer, pratica um crime punível com os "famosos" três anos de prisão. Também merecedora de atenção especial é a proposta de se legalizar algo que não se consegue (ou não se quer?) combater doutra forma, o que nos abriria um precedente que nos permitiria legalizar em seguida a droga, a prostituição e, no limite, os furtos ou assassinatos. Não são, pois, todas estas coisas que sempre existirão, pese embora a legislação contraria?

Sem comentários, pelo menos da minha parte, ficam as declarações de Lídia Jorge em pleno directo na RTP, chamando ao bébé no ventre materno, "coisa humana". Mostra o nível, afere os valores...

Muito mais haveria a dizer, é verdade, mas ficará para outra altura. Hoje o meu filho mais velho, o Lourenço, faz seis anos e é altura de festejar a sua presença neste mundo, perto de mim.

2006/09/21

Sinais do tempo

A vida, as suas condições, parecem-nos coisas estáveis, que não mudam, com as quais podemos contar sempre, mas de vez em quando algo nos diz que o tempo passa, e que nada se pode tomar como certo. A morte de quem nos é querido vem-nos sempre esbofetear para que acordemos e percebamos que as coisas mudam e as oportunidades perdem-se - a oportunidade de dizer algo, a oportunidade de um gesto que sempre adiámos porque pensávamos que teríamos muitas mais ocasiões de o fazer.

Mas há coisas mais simples, menos dolorosas, que, à sua maneira, também nos vão fazendo sentir que há pedacinhos de nós a desaparecer. Todos sentimos isso já uma vez ou outra na vida: o encerramento e desmantelamento, por estúpidas tricas políticas, do bar da Tia Luz, no Carvalhal, Zambujeira do Mar, é apenas um exemplo de como de repente, e sem aviso prévio, alguém nos tira um bocadinho de chão de debaixo dos pés.

Agora outra notícia triste me chega: a livraria da Assírio e Alvim que existia na cave do Cinema King fechou as portas por falta de rentabilidade. Quem me deu a notícia diz que parece que as pessoas gostavam muito de folhear os livros antes dos filmes, mas raramente os compravam. Desolado, respondi que esse era um dos motivos que me levavam a achar o King um dos melhores cinemas lisboetas, e que praticamente de todas as vezes em que lá ia não conseguia resistir à tentação e acabava por exceder frequentemente o orçamento disponível. Pois, responderam-me, mas nem todos compravam os livros. Ingénuo de mim, que acreditava que aquele era um espaço de grande sucesso comercial.

Hoje irei lá ver "Volver", se Deus quiser, mas já me preparei para o choque de ver aquela porta encerrada, se bem que cá no fundo ainda luza uma esperança ínfima de que quem me deu a notícia se tenha enganado, que tenha sido apenas um encerramento para férias ou remodelações...

Update: Afinal as portas não estão fechadas; é necessário passar pelo espaço onde funcionava a livraria para se aceder à cafetaria, lá ao fundo. Mas a visão daquelas prateleiras vazias ainda é pior do que se nos barrassem a passagem, parece-me - como olhar para o sítio onde estava o bar do Carvalhal. E "Volver" é excelente, mas vindo de Pedro Almodôvar isso não é novidade, pois não?

2006/09/19

Agradecimento

Eu sei, vocês têm razão: a euforia dos acontecimentos recentes na minha vida tornou-me desleixado com este blog, e ele (o blog) não merece, nem tampouco os meus 2,7 leitores. Há muita coisa sobre a qual me apetece falar ou escrever, desde a situação interna do meu partido de sempre, ao péssimo início de temporada do meu clube, o Vitória de Setúbal (que hoje já vai ganhar, espero). Há também notícias lindas sobre o Lourenço, as crónicas sobre a Arrábida de João Bénard da Costa, o regresso aos ralis, os toiros em Espanha, entre muitas outras coisas e, evidentemente, a minha situação pessoal, que não será objecto de grandes aprofundamentos públicos, mas que - isto não é segredo - está melhor do que nunca.

Prometo um regresso rápido a partir de agora, está bem? Desculpem o hiato, e obrigado por terem mantido esta consulta nos vossos hábitos. Espero que nunca se arrependam.

2006/08/07

2006/07/23

Há males que vêm por bem!

Na semana passada pensei que o meu programa cultural para esta semana bem que poderia passar por um reencontro com David Gahan y sus muchachos na próxima sexta-feira, em Alvalade. Não estava completamente convencido, não só porque seria a terceira vez que veria a banda - e a segunda no espaço de alguns meses - mas principalmente porque começo a ficar um bocadinho farto destes espaços demasiado grandes, cheios de gente com idade para serem meus filhos, e tudo numa noite que podia revelar-se de sauna. A única coisa que mantinha a minha decisão pendente era apenas o gosto que teria em reouvir ao vivo "Enjoy the silence" e "It´s just a question of time", mas os rapazes, ou os seus promotores em Portugal, fizeram o favor de decidir por mim ao cancelar o concerto, e assim pouparam-me provavelmente a uma noite demasiado agitada para alguns cabelos brancos que me começam a despontar.

Posta de parte a hipótese Depeche Mode, surgiu-me de imediato nova opção de concerto para o mesmo dia. O meu Lourenço descobriu que os D'zrt iriam actuar na mesma sexta-feira no espaço da Feira de Santiago, em Setúbal. Novamente apenas havia um único argumento a favor da comparência, mas era um argumento que facilmente se superiorizava a qualquer outro: a felicidade do Lourenço. Quero lá saber que a feira tenha perdido o carisma de outros tempos, de quando era na Avenida Luísa Todi, desterrada que foi para lugares da cidade do Sado que mal conhecia. Não me interessa também que os sons emitidos pelos imberbes actores se situe bem abaixo de medíocre numa hipotética escala qualitativa. Tampouco me importaria o convívio com alguns milhares de teenagers em delírio, desde que com isso pudesse satisfazer o ainda pouco ambicioso gosto cultural do meu filho. Mas de novo houve quem decidisse por mim: os avós do petiz irão resgatá-lo já quarta-feira para umas férias a quatrocentos quilómetros daqui, junto ao Douro, e agora a minha dúvida reside apenas em saber se serei capaz de aguentar mais de duas semanas sem o ver, ou se terei que improvisar um raid-relâmpago intercalar para matar saudades.

Mas voltando à agenda cultural desta semana, parece afinal que os deuses se estavam a conluiar para me proporcionar algo bem mais condizente com a minha disposição actual: em viagem recente aos lados do Cabo da Roca recordei, através dos cartazes afixados na marginal, que Ive Mendes actua na próxima quinta-feira no espaço intimista da Cidadela de Cascais. Pode ser que seja agora que algo comece a correr bem na minha vida...

2006/07/18

Que cabeça a minha!

Este blog, que se orgulha de ser dos primeiros do país (desculpem lá a vaidade, mas de alguma coisa me hei-de orgulhar, não?), fez na passada sexta feira, dia 14, três aninhos. Já anda e corre sozinho, já não pede chupeta, e apenas tem algumas dificuldades na articulação das palavras, mas está a melhorar!