2007/03/12

"Roma não paga a traidores!"

Para já é tudo o que me apetece dizer sobre as manobras de bastidores no meu partido de há vinte anos, o CDS/PP, na perspectiva da próxima mudança de liderança. De repente, todos aqueles que "cacicaram" congressos para levar Ribeiro e Castro ao colo, se tornaram "portistas" desde pequeninos.

Mas pode-se enganar muita gente durante pouco tempo, ou pouca gente durante muito tempo, mas nunca ninguém conseguiu enganar toda a gente o tempo todo...

2007/02/12

O tosco

Os últimos dias deste nosso cantinho trouxeram ao conhecimento da população uma espécie que andava meio hibernada desde que abandonou os bancos da escola e começou a tratar da vidinha. Trata-se dos "Tipos que Optaram Sim Com Orgulho", ie, os T.O.S.C.O ou, para maior simplicidade deste post, os toscos. Também existem os T.O.S.S.E., os que optaram pelo sim "Semi Envergonhados", mas como o argumentário de ambas as sub-espécies é muito similar, e está todo profusamente descrito na cartilha do Guru Francisco Louçã, apenas descreverei de seguida os toscos com que me cruzei nos últimos dias, e que me fazem temer pelo futuro deste país.

Ora bem, o tosco reapareceu agora, depois de há uns anos ter querido partir a Indonésia aos bocadinhos e de ter chorado emocionado com os resultados da selecção Nacional nos Campeonatos Internacionais de futebol, isso sim, um facto digno de orgulho Nacional e merecedor dos maiores encómios. É exactamente a mesma pessoa que passa os serões no sofá a indignar-se com a fome em África e com o aumento da temperatura do planeta, mas que sistematicamente adia a sua redentora intervenção em áreas tao prementes. Tambem há a variante mais humanitária do tosco que partilha a sua visão solidária para com os que sofrem, com os seus colegas de balcão, num qualquer estabelecimento nocturno da moda, enquanto os dedos arrefecem agarrados ao copo. Mas agora chegou a altura de, com pouco esforço, o tosco poder contribuir para o avanço do país; trata-se de uma criatura que sempre sofreu um bocadinho da nostalgia de não ter estado presente nos grandes acontecimentos recentes da sua raça, designadamente por não ter atirado uns calhaus aos gendarmes no Maio de 1968, ou de não ter fumado umas belas "ganzas" e ter agido em consonância com o espírito do Woodstock. Contudo, interiorizou as conquistas dos bravos que lutaram nessa altura, e agora é a sua vez (do tosco), de fazer algo para preservar o património herdado, como por exemplo o amor livre sem consequências - a não ser para o bébé, mas isso são pormenores, ate porque ele - o bébé - não se queixa.

O tosco sente-se, pois, um justiceiro, alguém especialmente iluminado para resolver, através do seu voto-Excalibur, os grandes problemas da humanidade, especialmente o das pessoas que gostam de ir para a cama sem precauções, mas depois não querem assumir as consequências do que fizeram. Aqui vem também uma outra faceta do tosco à superfície: a de yuppie-de-trazer-por-casa, o fulano que acha que o prosseguimento de uma carreira que lhe permita ter um carro em leasing, um T3 em Telheiras, e ir de vez em quando ao Brasil, não é compaginável com um filho, e que é um argumento suficiente para se matar alguem. O tosco, infelizmente, anda um pouco atrasado nos seus ideais: ele quer ser um incurável romântico, mas as causas soixante-huitardes, hippies ou yuppies já ficaram para trás e ninguém lhe disse.

No entanto, estudos recentes provaram que, apesar de se tratar de algo de difícil detecção, os toscos parecem possuir uma consciência, ou um seu arremedo. É por isso que o tosco não consegue responder quando o questionam sobre a justiça de matar alguém, sobre o facto de eles, toscos, andarem neste mundo porque alguém decidiu pela sua vida, mas agora arrogarem-se o direito de brincarem aos deuses e decidirem o futuro, a vida ou a morte de outras pessoas. É por isso que fogem à discussão como gato escaldado de água fria, e apenas discutem o tema em auto-apologéticas reuniões somente dedicadas a toscos, como quem consome pornografia mas naturalmente tem vergonha de o assumir. Normalmente sao reuniões pouco produtivas, onde apenas se usam as palavras "mata" e "esfola", nos seus sentidos mais literais. Mas é a única hipótese de o fazerem, já que, quando discutem com quem defende a vida, os argumentos que antes lhes pareciam tão fortes e definitivos, lhes soam agora, a eles próprios, pífios e ridículos, sentindo vergonha e frustração por não serem capazes de dizer, num fiozinho de voz, algo mais importante e consistente do que o reaccionário chavão "apenas as mulheres deviam votar", ou "a opção é apenas da mulher" (de certa forma é uma triste verdade, pois a outra pessoa que poderia ter interesse em dar opinião infelizmente não consegue falar, e nem sabe o que a espera - mas não seria difícil imaginar o que diria, se pudesse. E garanto que nem o patético Rui Rio, agora tão moderno ao lado dos "okupas", ou coisa parecida, teria querido ser abortado se interrogado no ventre materno!).

Não obstante, o tosco continua a sentir-se um incompreendido pelas pessoas que defendem a vida humana. Pensa que já está num patamar mais avançado de evolução, o que lhe permite ver que a solução para o futuro da humanidade está na morte dos seus, mas tem dificuldade em mostrá-lo a quem não partilha a sua transcendência. Não consegue, infelizmente, ver que este é um retrocesso civilizacional de séculos, e que, por este andar, qualquer dia, quando velho, será abandonado pelos seus filhos num qualquer monte, apenas com um cobertor.

Depois de ter lutado e conseguido que a morte de bébés se tornasse legal, o tosco sente-se agora cheio de energia para as novas batalhas que se avizinham: tornar ilegais as corridas de toiros (principalmente com a morte do animal) e a caça à raposa!

O tosco acha-se um tipo moderno, avant la lettre. Mas para fora só consegue passar a impressão de uma pessoa que, para colocar algum movimento na sua vida triste, decidiu polemizar (poucochinho) e mudar o mundo - da pior maneira!

Deus tenha piedade dos toscos.

2007/02/09

Scoop

Noutros realizadores não seria mau, mas vindo de Woody Allen, estava à espera de bem melhor.

2007/02/07

Desculpem lá, mas até dia 11 vai ter que ser assim...

Às vezes penso que os defensores do "sim" se acham especialmente inteligentes, assim acima do mortal comum, com aquele ar "eu-sei-mais-que-tu" do Francisco Louçã; a parte especialmente irritante deste comportamento é a maneira que eles têm de achar que todas as pessoas que não estão especialmente iluminadas pela sua luz, são estúpidas.

É só isso que eu posso pensar quando oiço atentados à minha inteligência como o de há pouco, no Telejornal da RTP: contava a Dra. Maria José Alves, uma acérrima e empolgada (às vezes demais) defensora da liberalização do aborto, que, na sua vida de médica, se deparou há uns anos com uma rapariga grávida, de nome Natália, com graves problemas de saúde - não percebi se decorrentes da gravidez ou com outra origem. Diz ela que, reunidos em conselho de emergência, os vários médicos presentes resolveram tentar o parto em lugar de provocar o aborto, ao que se deu a entender para não contrariar a lei vigente. A coisa correu mal, o bébé salvou-se, mas a mãe faleceu, o que lamento profunda e sinceramente. Isto foi o que contou a dita médica, e logo, de forma oportunista, aproveitou para chamar a atenção dos portugueses (que ela deve pensar que andam todos a dormir), para a vida que assim se perdeu devido ao cumprimento da lei. O que a doutora não explicou foi que a lei já prevê - e previa, nessa altura - o aborto, completamente justificado e descriminalizado, sempre que haja conflito entre a saúde do bébé e a da mãe ou, por outras palavras, quando a vida da mãe está em perigo. Ou seja, se houve a lamentável morte da mãe, ela só se pode atribuir à incompetência técnica dos médicos na altura da avaliação, pois do ponto de vista legal possuíam todos os instrumentos para efectuar um aborto.

Lembra-me esta outra falácia propalada pelo "sim": a de que, a aprovar-se a por eles tão desejada liberalização do aborto até às dez semanas, deixariam de haver as humilhações públicas de mulheres como as que se verificaram nos julgamentos da Maia, de Setúbal e outros. Só que, muito convenientemente, não referem que todos estes casos de julgamento sucederam com mulheres que abortaram com mais de dez semanas de gravidez, pelo que, com a sua aberrante lei que prevê a criminalização e prisão às dez semanas e um dia, sucederiam na mesma.

Haja paciência.

E agora, para desanuviar:


Podem preparar as palmatórias; como já muitos me disseram, pela boca morre o peixe. Neste caso é pior, porque as minhas opiniões de ontem estao registadas algures nas catacumbas deste blog. Mas é verdade: mudei de opinião. Detestava futebol e agora até me entusiasmo com a coisa. Ainda não sei distinguir as posições dos jogadores em campo, a não ser a do guarda-redes, mas tambem não se pode querer tudo duma vez, não é?

E inscrevi-me no único clube que, mesmo durante os tempos em que reneguei o fenómeno, me fazia desviar o olho para a televisão: o Vitória de Setúbal, evidentemente.

Mas os tipos só me dão desgostos...

2007/02/06

A mim, a paternidade deixa-me susceptível...

Pois é, Ana. Também eu tenho registado alguns comportamentos e impressões inesperadas nesta campanha:

- À Dra. Maria de Belém Roseira, parece-me que lhe devia ter sido concedida uma autorização especial para fazer o número de abortos que muito bem entendesse. A educação que tem não chega para ela, e muito menos para educar terceiros;

- O Engenheiro Sócrates nao é tão parvo como parece. Antes que lhe falassem da interrupção de vida que tem que fazer no Governo, ele, ainda de olhos em bico, já se encarregou de amuar de forma a pressionar e amedrontar os defensores do "não" mais impressionáveis, com ameaças radicais e inquisitórias;

- Deveria ser obrigatória a utilização de legendas ou tradução simultânea sempre que o Professor Vital Moreira aparece na televisão, principalmente quando começa a ficar roxinho e a falar com voz de Pato Donald;

- O Dr. Rui Pereira e o Dr. Miguel Oliveira e Silva deveriam contratar um assessor de imagem para resolver os seus problemas bucais. Num denota-se facilmente o grau de irritação pela quantidade de espuma que se acumula nos cantos da boca, enquanto que o outro passa o tempo, enquanto fala, a passar a língua pelos labios para retirar cascas de tremoços, ou coisa parecida;

- O Dr. José Pinto da Costa não tem ar de maluco;

- Lídia Jorge devia escrever mais e falar menos. E talvez ler qualquer coisa: "O Princípio de Peter", por exemplo;

- A comunicação social perdeu a vergonha e decidiu atacar decididamente pelo lado do "sim" (leia-se de quem está no poder). Mesmo os órgãos habitualmente isentos e insuspeitos, como o "Público" (hoje com 6 - seis! - artigos de opinião pelo "sim", com erros de ortografia até, e apenas 1 - um! - pelo "não"), a TSF, ou o Portugal Diário alinharam na euforia. O patrão está de volta e o respeitinho é muito bonito;

- Em bom rigor, nesta campanha, e até agora, pelo lado do "sim" a única pessoa que me convenceu foi a Dra. Marta Rebelo - e não foi por nada que ela tivesse dito;

- Mas continuo a achar que há muito boa gente no "sim"...

De regresso

Antes de mais, não tenho palavras para demonstrar o meu reconhecimento por quem esperou que eu voltasse a escrever neste espaço, apesar do hiato decorrido. A todos o meu penhoradíssimo agradecimento.

Muita coisa aconteceu, e muita coisa teria agora para dizer, mas como tenciono incrementar uma mais sadia regularidade na escrita, até por questões de sanidade mental, apenas escreverei para já o fundamental e inadiável.

Como alguns já saberão, estou à espera do meu segundo filho; em princípio será um rapaz, cujo nome não está ainda decidido (a propósito, aceito sugestões, sem contudo me comprometer a segui-las), e que entrou há dias na sua décima terceira semana de gestação. Devido a uma ligeira confusão da médica que segue a gravidez, a ecografia que se encontrava prevista para algures entre a décima primeira e a décima segunda semanas de gravidez, acabou por se realizar à décima. Foi assim, pois, que vi o meu filho com dez semanas, a idade com que os defensores da liberalização do aborto acham razoável eliminar uma vida, a colocar as mãozinhas na cara e a procurar a melhor posição no ventre materno.

O actual debate a que assistimos na praça publica a propósito da dita liberalização de algo a que eufemisticamente se chama "interrupção", como se pudesse haver mais tarde um reatamento da vida, tem-nos mostrado o quão falha de valores se tornou grande parte da sociedade portuguesa, eminentemente rendida aos capitalistas valores do consumismo e da progressão, não obstante o "sim" ser principalmente defendido por uma esquerda que se tem por "moderna". Há um ruído enorme à volta dos direitos de opção da mulher, mas um ensurdecedor silencio sobre os direitos do bébé que, por não ter possibilidade de se exprimir ou defender, acaba por ser eliminado liminarmente precisamente pela unica pessoa no mundo em que poderia confiar para a sua protecção.

Apesar disso, é evidente que a mulher (e o homem, já agora) tem direito a optar por ter ou não um filho - só que essa opção, manda o bom senso, deve ser tomada a montante, ie, antes da concepção. Não existirá, no cantinho mais recôndito deste país, e pesem embora todas as deficiências acumuladas do nosso sistema educativo ao nível da educação sexual, uma unica alma adulta, ou em idade de procriar, que desconheça que, caso tenha relações, pode vir a engravidar. Em aparente desorientação ou desespero de causa, invoca-se agora insistentemente a falibilidade dos métodos contraceptivos; de repente, sistemas que nos eram apresentados pelos seus fabricantes como possuindo taxas de deficiência meramente residuais, aparecem agora como toscas e primárias formas de protecção que falham em mais de metade dos casos.

Sejamos sérios, amigos: por muito que haja quem o tente maquilhar, existe uma vida humana em plena formação a partir da data da sua concepção, e essa vida tem que ser protegida. Os nossos actos têm que ser consequentes, e temos que nos responsabilizar por eles. O curioso é que a maior parte das pessoas que agora fala da liberdade "da mulher" para não assumir as consequencias de algo que fez voluntariamente - sim, porque em caso de violação, ou outras situações anómalas, já existe o devido enquadramento jurídico - sabe condenar veementemente, por exemplo, a irresponsabilidade e imoralidade de quem aceitou um cachorrinho "porque era muito fofinho", mas que mais tarde, perdido o encanto e roídos alguns sofás, o foi abandonar numa qualquer zona industrial.

Outros aspectos desta proposta de liberalização que servem aos seus defensores para justificar a mesma, prendem-se com o actual enquadramento penal existente para uma mãe que faz um aborto. É um facto que a lei em vigor prevê uma pena de até três anos de prisão efectiva para quem praticar esse ilícito, mas a verdade é que os juízes perceberam desde logo o espírito da lei, e nunca uma mulher foi presa por ter feito um aborto em Portugal. Afirmar o contrário, em imagens choque tão queridas ao Bloco de Esquerda e ao Partido Socialista que vai a seu reboque, é uma desonestidade e uma manipulação grosseira da verdade que em nada abona quanto à idoneidade de quem a pratica. Aliás, tanto quanto se sabe, as mulheres que até hoje têm sido indiciadas pela prática de aborto não o são por iniciativa isolada do Ministério Publico, antes surgindo como réus na sequência das investigações efectuadas por aquele relativamente a clínicas "de vão de escada", estas sim, merecedoras de efectiva punição. E a exposição publica que esta "moderna" esquerda tanto condena, apenas se deve ao folclore que a mesma vai fazer para as portas dos tribunais, chamando a atenção massiva dos media para uma pessoa que, noutra situação, se apresentaria discretamente a julgamento e sairia absolvida no espírito da lei.

Isto dito, não se pense que eu, e a maioria - arriscaria a quase totalidade - dos defensores do "não" concorda com a actual legislação relativamente a quem aborta. Mas existem, e os ultimos dias têm-nos demonstrado isso, meios efectivos de transformar a sanção aplicável, sem no entanto promover a liberalização total do aborto. Mas, no seu pânico de poder perder terreno e até o referendo, o Primeiro Ministro José Sócrates, no seu tom arrogante de criança mimada, ja nos veio dizer que, caso vença o "não", o Governo não se encontra disponível para alterar a actual lei, mesmo que seja no objectivo interesse da população. Um típico caso de amuo que mostra bem que, para este Governo, o referendo apenas constitui um medir de forças políticas, e a situação de quem aborta pouco interessa.

Muito mais haveria aqui a dizer, designadamente a discutibilidade de um aborto a pedido, sem mais explicações, poder ser feito num hospital público, passando à frente, por exemplo, de uma operação de cancro ou de transplante (muito) anteriormente agendada. Também se pergunta onde ficou a coerência, quando vemos pessoas a defender que uma mulher com uma gravidez de dez semanas pode abortar livremente, e é até ajudada a fazê-lo pelo Estado, enquanto que a que tem uma gravidez de dez semanas e um dia, para além de ter de procurar outros meios (ilegais) para o fazer, pratica um crime punível com os "famosos" três anos de prisão. Também merecedora de atenção especial é a proposta de se legalizar algo que não se consegue (ou não se quer?) combater doutra forma, o que nos abriria um precedente que nos permitiria legalizar em seguida a droga, a prostituição e, no limite, os furtos ou assassinatos. Não são, pois, todas estas coisas que sempre existirão, pese embora a legislação contraria?

Sem comentários, pelo menos da minha parte, ficam as declarações de Lídia Jorge em pleno directo na RTP, chamando ao bébé no ventre materno, "coisa humana". Mostra o nível, afere os valores...

Muito mais haveria a dizer, é verdade, mas ficará para outra altura. Hoje o meu filho mais velho, o Lourenço, faz seis anos e é altura de festejar a sua presença neste mundo, perto de mim.

2006/09/21

Sinais do tempo

A vida, as suas condições, parecem-nos coisas estáveis, que não mudam, com as quais podemos contar sempre, mas de vez em quando algo nos diz que o tempo passa, e que nada se pode tomar como certo. A morte de quem nos é querido vem-nos sempre esbofetear para que acordemos e percebamos que as coisas mudam e as oportunidades perdem-se - a oportunidade de dizer algo, a oportunidade de um gesto que sempre adiámos porque pensávamos que teríamos muitas mais ocasiões de o fazer.

Mas há coisas mais simples, menos dolorosas, que, à sua maneira, também nos vão fazendo sentir que há pedacinhos de nós a desaparecer. Todos sentimos isso já uma vez ou outra na vida: o encerramento e desmantelamento, por estúpidas tricas políticas, do bar da Tia Luz, no Carvalhal, Zambujeira do Mar, é apenas um exemplo de como de repente, e sem aviso prévio, alguém nos tira um bocadinho de chão de debaixo dos pés.

Agora outra notícia triste me chega: a livraria da Assírio e Alvim que existia na cave do Cinema King fechou as portas por falta de rentabilidade. Quem me deu a notícia diz que parece que as pessoas gostavam muito de folhear os livros antes dos filmes, mas raramente os compravam. Desolado, respondi que esse era um dos motivos que me levavam a achar o King um dos melhores cinemas lisboetas, e que praticamente de todas as vezes em que lá ia não conseguia resistir à tentação e acabava por exceder frequentemente o orçamento disponível. Pois, responderam-me, mas nem todos compravam os livros. Ingénuo de mim, que acreditava que aquele era um espaço de grande sucesso comercial.

Hoje irei lá ver "Volver", se Deus quiser, mas já me preparei para o choque de ver aquela porta encerrada, se bem que cá no fundo ainda luza uma esperança ínfima de que quem me deu a notícia se tenha enganado, que tenha sido apenas um encerramento para férias ou remodelações...

Update: Afinal as portas não estão fechadas; é necessário passar pelo espaço onde funcionava a livraria para se aceder à cafetaria, lá ao fundo. Mas a visão daquelas prateleiras vazias ainda é pior do que se nos barrassem a passagem, parece-me - como olhar para o sítio onde estava o bar do Carvalhal. E "Volver" é excelente, mas vindo de Pedro Almodôvar isso não é novidade, pois não?

2006/09/19

Agradecimento

Eu sei, vocês têm razão: a euforia dos acontecimentos recentes na minha vida tornou-me desleixado com este blog, e ele (o blog) não merece, nem tampouco os meus 2,7 leitores. Há muita coisa sobre a qual me apetece falar ou escrever, desde a situação interna do meu partido de sempre, ao péssimo início de temporada do meu clube, o Vitória de Setúbal (que hoje já vai ganhar, espero). Há também notícias lindas sobre o Lourenço, as crónicas sobre a Arrábida de João Bénard da Costa, o regresso aos ralis, os toiros em Espanha, entre muitas outras coisas e, evidentemente, a minha situação pessoal, que não será objecto de grandes aprofundamentos públicos, mas que - isto não é segredo - está melhor do que nunca.

Prometo um regresso rápido a partir de agora, está bem? Desculpem o hiato, e obrigado por terem mantido esta consulta nos vossos hábitos. Espero que nunca se arrependam.

2006/08/07

2006/07/23

Há males que vêm por bem!

Na semana passada pensei que o meu programa cultural para esta semana bem que poderia passar por um reencontro com David Gahan y sus muchachos na próxima sexta-feira, em Alvalade. Não estava completamente convencido, não só porque seria a terceira vez que veria a banda - e a segunda no espaço de alguns meses - mas principalmente porque começo a ficar um bocadinho farto destes espaços demasiado grandes, cheios de gente com idade para serem meus filhos, e tudo numa noite que podia revelar-se de sauna. A única coisa que mantinha a minha decisão pendente era apenas o gosto que teria em reouvir ao vivo "Enjoy the silence" e "It´s just a question of time", mas os rapazes, ou os seus promotores em Portugal, fizeram o favor de decidir por mim ao cancelar o concerto, e assim pouparam-me provavelmente a uma noite demasiado agitada para alguns cabelos brancos que me começam a despontar.

Posta de parte a hipótese Depeche Mode, surgiu-me de imediato nova opção de concerto para o mesmo dia. O meu Lourenço descobriu que os D'zrt iriam actuar na mesma sexta-feira no espaço da Feira de Santiago, em Setúbal. Novamente apenas havia um único argumento a favor da comparência, mas era um argumento que facilmente se superiorizava a qualquer outro: a felicidade do Lourenço. Quero lá saber que a feira tenha perdido o carisma de outros tempos, de quando era na Avenida Luísa Todi, desterrada que foi para lugares da cidade do Sado que mal conhecia. Não me interessa também que os sons emitidos pelos imberbes actores se situe bem abaixo de medíocre numa hipotética escala qualitativa. Tampouco me importaria o convívio com alguns milhares de teenagers em delírio, desde que com isso pudesse satisfazer o ainda pouco ambicioso gosto cultural do meu filho. Mas de novo houve quem decidisse por mim: os avós do petiz irão resgatá-lo já quarta-feira para umas férias a quatrocentos quilómetros daqui, junto ao Douro, e agora a minha dúvida reside apenas em saber se serei capaz de aguentar mais de duas semanas sem o ver, ou se terei que improvisar um raid-relâmpago intercalar para matar saudades.

Mas voltando à agenda cultural desta semana, parece afinal que os deuses se estavam a conluiar para me proporcionar algo bem mais condizente com a minha disposição actual: em viagem recente aos lados do Cabo da Roca recordei, através dos cartazes afixados na marginal, que Ive Mendes actua na próxima quinta-feira no espaço intimista da Cidadela de Cascais. Pode ser que seja agora que algo comece a correr bem na minha vida...

2006/07/18

Que cabeça a minha!

Este blog, que se orgulha de ser dos primeiros do país (desculpem lá a vaidade, mas de alguma coisa me hei-de orgulhar, não?), fez na passada sexta feira, dia 14, três aninhos. Já anda e corre sozinho, já não pede chupeta, e apenas tem algumas dificuldades na articulação das palavras, mas está a melhorar!

2006/07/16

A derreter

Esta altura, como os meus leitores já devem ter notado, não tem sido das mais apropriadas para postar, e vários são os factores que concorrem para alguma apatia:

O calor, desde logo. Calor desumano, passe o trocadilho.

Algum aumento de trabalho, logo agora, e incertezas sobre férias: se as terei, quando, e, se as tiver, o que devo fazer? A Zambujeira chama-me, mas não antes de Setembro... E São Pedro de Moel também me deixou saudades, desde que não volte para o meio dos nove milhões de portugueses que tiram férias em Julho ou Agosto.

E há concertos para ir ver (a propósito, onde é que vocês andavam com a cabeça que deixaram passar uma coisa óptima como os Waterboys só com "meia dúzia" de assistentes?), corridas de automóveis (o Lourenço quer voltar ao autódromo, mas acho que já está a chegar a altura de lhe mostrar the real thing, os ralis!), a decisão se vendo esta casa enorme ou se fico aqui, a mota para ir buscar ao mecânico, só coisas, só coisas...

Desculpem lá o tom confuso, mas... it's more than I can bare!

2006/07/06

On the road again


Soube-se ontem, numa espécie de confirmação dos rumores que já há algum tempo andavam no ar, que o Rally de Portugal vai voltar ao Campeonato Mundial de Ralis já a partir do próximo ano. Uma óptima notícia para os muitos amantes do desporto automóvel, e mais especificamente dos ralis, que existem por este país, dirão talvez os mais desatentos.

Mas as coisas não são bem assim; muita coisa mudou na competição de estrada nos últimos anos e dos difíceis ralis cheios de público disputados nas décadas de 80 e 90, que a maior parte das pessoas lembram, pouco ou nada ficou. O Rally de Portugal que se disputará em 2007 na zona do Algarve é uma competição formatada segundo regras de normalização rígidas, de desenvolvimento mais ou menos asséptico que tanto poderia ter lugar em Portugal como noutra parte do mundo, com a ressalva natural da diferença de paisagens e de estradas. E note-se bem que não estou a falar da forma saudosista como muitos apreciadores, principalmente do norte do país, lamentam o abandono de troços tradicionais do rali, como os das zonas de Arganil ou de Fafe, entre outros. Eu participei em seis edições do rali sentado num carro de competição, e acompanhei muitas outras em equipas de assistência, como jornalista, ou mesmo como mero espectador. Conheço bem a mística de todos os lugares onde estive, sei bem o que é sair de Viseu às quatro da manhã, ver nascer o sol em troços de Arganil com mais de quarenta quilómetros, dormir duas ou três horas por noite, descer para o Confurco a olhar para as dezenas de milhares de pessoas que nos esperam na encosta do outro lado da estrada, ou reencontrar os amigos na chegada ao Estoril. Vivi as lágrimas e as alegrias do rali como poucos e, desculpem-me a imodéstia, sinto-me um privilegiado por isso. Mas sei também que não se vive do passado, e que, neste momento, não existe outro local em Portugal para realizar o rali que não o Algarve, dada a quantidade de infraestruturas logísticas disponíveis, a par com boas estradas de montanha, conjugação única no país.

No entanto, ainda aqui há tempos, em conversa com o meu grande amigo N.R.S., comentava que os ralis de hoje em dia perderam a magia de outros tempos, muito por culpa das organizações, para as quais o público é visto como um empecilho e que, se fosse possível, realizariam as suas provas dentro de pavilhões fechados com transmissão unicamente pela televisão. Com excepção de meia dúzia de credenciados, que perceberão tanto de ralis como de lagares de azeite, o acesso ao contacto com os bólides é controlado de forma quase ditatorial, sejam quais forem as circunstâncias - e não estou a falar de palhaçadas arriscadas no meio da estrada, mas de visitas a assistências, observação dos stops, ou "aquela" curva gira, cujo acesso, no entanto, está vedado cinco quilómetros antes por zelosos agentes da lei. O público conhecedor deixou de interessar, e um rali do Mundial hoje em dia não é um produto para o verdadeiro aficcionado, mas sim para o curioso, que tanto vai ao rali, como ao concerto dos Rolling Stones, como à festa lá da terra, e sempre com o mesmo grau de interesse.

Por isso, e porque assisti aos dois últimos ralis de Portugal como espectador e fiquei indignado com o que vi, garanto-vos desde já que, se não surgir um convite para participar na próxima edição do Rally de Portugal (já agora, aceito propostas), muito dificilmente me verão no sul do país entre 30 de Março e 1 de Abril do próximo ano. Façam bom proveito os que forem.

Lá se foi a taça!

Os comerciantes de móveis de Paços de Ferreira já podem respirar fundo; não ganharam para o susto!

2006/07/03

O apelo


Depois de ler, sem parar sequer para respirar, "As Duas Águas do Mar", do Francisco José Viegas (a propósito, parabéns atrasados pelo prémio APE), é que percebi que a minha vida não estará completa enquanto não for a Finisterra!

Oportunidade única

A falta de visão estratégica do nosso Primeiro Ministro vê-se mais nas oportunidades que deixa escapar do que no (pouco) que faz; com o país de olhos postos no Mundial de Futebol, Sócrates podia aumentar o IVA para 50%, vender o Algarve a uma empresa offshore (com transporte incluído até às instalações do cliente) e até nomear Zézé Camarinha para ministro de qualquer coisa, que ninguém dava por isso.

2006/07/01

Fairplay

A julgar pela reportagem apresentada na versão online do Daily Mirror, escassos minutos após o término da partida dos quartos de final do Mundial de Futebol 2006, que opôs Portugal à Inglaterra, é de supôr que as televisões inglesas não passaram o mesmo jogo que os portugueses viram. Senão, porquê escrever isto?

"But Simao scored the first and Cristiano Ronaldo hit the fifth after Jamie Carragher failed to put England back on terms. The shoot-out was particularly harsh on the Liverpool man, who had been brought on as substitute in the dying minutes of extra time with penalties in mind, as his first effort easily beat Ricardo in the Portugal goal. However, the referee decided he wasn't ready and ordered Carragher to re-take the kick."
(Estará o jornalista, quando diz que "bateu facilmente Ricardo", a referir-se a um penalty que Carragher marcou antes do apito do árbitro, e para o qual Ricardo nem se mexeu?)

E isto?

"Wayne Rooney - alone and upfront for much of the match - was given a straight red card in the 62nd minute as he reacted while being challenged and hacked by three Portuguese players in the centre of the pitch. It felt another harsh decision against England by the Argentinian referee. (...) The most remarkable incident of the second period was Rooney's sending off - not helped by Ronaldo running over to the referee in a blatant attempt to get him to take action against his Manchester United colleague. With the excellent Gary Neville and impeccable Rio Ferdinand also on the pitch, it's hard to see how Ronaldo can be assured a warm reception when he next returns to training at Carrington. If he does. He has said he wants to join Real Madrid - as far as many English fans are concerned (not to mention Manchester United's own) that might not be a bad idea."
(Gostei especialmente da candura com que se diz que Rooney levou um cartão vermelho directo "por ter reagido enquanto estava a ser pressionado por três jogadores portugueses...")

Há mais coisas giras na imprensa inglesa, mas o tom não varia muito. A dôr de cotovelo é uma coisa do arco da velha...

2006/06/30

Novidades da medicina:

Diogo Freitas do Amaral apresentou hoje a demissão do cargo que ocupava no Governo devido a problemas na coluna vertebral que, segundo o seu porta-voz, se têm vindo a agravar nos últimos tempos. Duas informações curiosas podemos extrair inequivocamente desta notícia:

Afinal o professor sempre tem coluna vertebral.

O contorcionismo, como já se calculava, é bastante prejudicial à dita.

2006/06/28

Coisas simples:


...para ir agora a Cacela Velha, comer umas ostras no largo e ver o pôr do sol...