2006/07/23

Há males que vêm por bem!

Na semana passada pensei que o meu programa cultural para esta semana bem que poderia passar por um reencontro com David Gahan y sus muchachos na próxima sexta-feira, em Alvalade. Não estava completamente convencido, não só porque seria a terceira vez que veria a banda - e a segunda no espaço de alguns meses - mas principalmente porque começo a ficar um bocadinho farto destes espaços demasiado grandes, cheios de gente com idade para serem meus filhos, e tudo numa noite que podia revelar-se de sauna. A única coisa que mantinha a minha decisão pendente era apenas o gosto que teria em reouvir ao vivo "Enjoy the silence" e "It´s just a question of time", mas os rapazes, ou os seus promotores em Portugal, fizeram o favor de decidir por mim ao cancelar o concerto, e assim pouparam-me provavelmente a uma noite demasiado agitada para alguns cabelos brancos que me começam a despontar.

Posta de parte a hipótese Depeche Mode, surgiu-me de imediato nova opção de concerto para o mesmo dia. O meu Lourenço descobriu que os D'zrt iriam actuar na mesma sexta-feira no espaço da Feira de Santiago, em Setúbal. Novamente apenas havia um único argumento a favor da comparência, mas era um argumento que facilmente se superiorizava a qualquer outro: a felicidade do Lourenço. Quero lá saber que a feira tenha perdido o carisma de outros tempos, de quando era na Avenida Luísa Todi, desterrada que foi para lugares da cidade do Sado que mal conhecia. Não me interessa também que os sons emitidos pelos imberbes actores se situe bem abaixo de medíocre numa hipotética escala qualitativa. Tampouco me importaria o convívio com alguns milhares de teenagers em delírio, desde que com isso pudesse satisfazer o ainda pouco ambicioso gosto cultural do meu filho. Mas de novo houve quem decidisse por mim: os avós do petiz irão resgatá-lo já quarta-feira para umas férias a quatrocentos quilómetros daqui, junto ao Douro, e agora a minha dúvida reside apenas em saber se serei capaz de aguentar mais de duas semanas sem o ver, ou se terei que improvisar um raid-relâmpago intercalar para matar saudades.

Mas voltando à agenda cultural desta semana, parece afinal que os deuses se estavam a conluiar para me proporcionar algo bem mais condizente com a minha disposição actual: em viagem recente aos lados do Cabo da Roca recordei, através dos cartazes afixados na marginal, que Ive Mendes actua na próxima quinta-feira no espaço intimista da Cidadela de Cascais. Pode ser que seja agora que algo comece a correr bem na minha vida...

2006/07/18

Que cabeça a minha!

Este blog, que se orgulha de ser dos primeiros do país (desculpem lá a vaidade, mas de alguma coisa me hei-de orgulhar, não?), fez na passada sexta feira, dia 14, três aninhos. Já anda e corre sozinho, já não pede chupeta, e apenas tem algumas dificuldades na articulação das palavras, mas está a melhorar!

2006/07/16

A derreter

Esta altura, como os meus leitores já devem ter notado, não tem sido das mais apropriadas para postar, e vários são os factores que concorrem para alguma apatia:

O calor, desde logo. Calor desumano, passe o trocadilho.

Algum aumento de trabalho, logo agora, e incertezas sobre férias: se as terei, quando, e, se as tiver, o que devo fazer? A Zambujeira chama-me, mas não antes de Setembro... E São Pedro de Moel também me deixou saudades, desde que não volte para o meio dos nove milhões de portugueses que tiram férias em Julho ou Agosto.

E há concertos para ir ver (a propósito, onde é que vocês andavam com a cabeça que deixaram passar uma coisa óptima como os Waterboys só com "meia dúzia" de assistentes?), corridas de automóveis (o Lourenço quer voltar ao autódromo, mas acho que já está a chegar a altura de lhe mostrar the real thing, os ralis!), a decisão se vendo esta casa enorme ou se fico aqui, a mota para ir buscar ao mecânico, só coisas, só coisas...

Desculpem lá o tom confuso, mas... it's more than I can bare!

2006/07/06

On the road again


Soube-se ontem, numa espécie de confirmação dos rumores que já há algum tempo andavam no ar, que o Rally de Portugal vai voltar ao Campeonato Mundial de Ralis já a partir do próximo ano. Uma óptima notícia para os muitos amantes do desporto automóvel, e mais especificamente dos ralis, que existem por este país, dirão talvez os mais desatentos.

Mas as coisas não são bem assim; muita coisa mudou na competição de estrada nos últimos anos e dos difíceis ralis cheios de público disputados nas décadas de 80 e 90, que a maior parte das pessoas lembram, pouco ou nada ficou. O Rally de Portugal que se disputará em 2007 na zona do Algarve é uma competição formatada segundo regras de normalização rígidas, de desenvolvimento mais ou menos asséptico que tanto poderia ter lugar em Portugal como noutra parte do mundo, com a ressalva natural da diferença de paisagens e de estradas. E note-se bem que não estou a falar da forma saudosista como muitos apreciadores, principalmente do norte do país, lamentam o abandono de troços tradicionais do rali, como os das zonas de Arganil ou de Fafe, entre outros. Eu participei em seis edições do rali sentado num carro de competição, e acompanhei muitas outras em equipas de assistência, como jornalista, ou mesmo como mero espectador. Conheço bem a mística de todos os lugares onde estive, sei bem o que é sair de Viseu às quatro da manhã, ver nascer o sol em troços de Arganil com mais de quarenta quilómetros, dormir duas ou três horas por noite, descer para o Confurco a olhar para as dezenas de milhares de pessoas que nos esperam na encosta do outro lado da estrada, ou reencontrar os amigos na chegada ao Estoril. Vivi as lágrimas e as alegrias do rali como poucos e, desculpem-me a imodéstia, sinto-me um privilegiado por isso. Mas sei também que não se vive do passado, e que, neste momento, não existe outro local em Portugal para realizar o rali que não o Algarve, dada a quantidade de infraestruturas logísticas disponíveis, a par com boas estradas de montanha, conjugação única no país.

No entanto, ainda aqui há tempos, em conversa com o meu grande amigo N.R.S., comentava que os ralis de hoje em dia perderam a magia de outros tempos, muito por culpa das organizações, para as quais o público é visto como um empecilho e que, se fosse possível, realizariam as suas provas dentro de pavilhões fechados com transmissão unicamente pela televisão. Com excepção de meia dúzia de credenciados, que perceberão tanto de ralis como de lagares de azeite, o acesso ao contacto com os bólides é controlado de forma quase ditatorial, sejam quais forem as circunstâncias - e não estou a falar de palhaçadas arriscadas no meio da estrada, mas de visitas a assistências, observação dos stops, ou "aquela" curva gira, cujo acesso, no entanto, está vedado cinco quilómetros antes por zelosos agentes da lei. O público conhecedor deixou de interessar, e um rali do Mundial hoje em dia não é um produto para o verdadeiro aficcionado, mas sim para o curioso, que tanto vai ao rali, como ao concerto dos Rolling Stones, como à festa lá da terra, e sempre com o mesmo grau de interesse.

Por isso, e porque assisti aos dois últimos ralis de Portugal como espectador e fiquei indignado com o que vi, garanto-vos desde já que, se não surgir um convite para participar na próxima edição do Rally de Portugal (já agora, aceito propostas), muito dificilmente me verão no sul do país entre 30 de Março e 1 de Abril do próximo ano. Façam bom proveito os que forem.

Lá se foi a taça!

Os comerciantes de móveis de Paços de Ferreira já podem respirar fundo; não ganharam para o susto!

2006/07/03

O apelo


Depois de ler, sem parar sequer para respirar, "As Duas Águas do Mar", do Francisco José Viegas (a propósito, parabéns atrasados pelo prémio APE), é que percebi que a minha vida não estará completa enquanto não for a Finisterra!

Oportunidade única

A falta de visão estratégica do nosso Primeiro Ministro vê-se mais nas oportunidades que deixa escapar do que no (pouco) que faz; com o país de olhos postos no Mundial de Futebol, Sócrates podia aumentar o IVA para 50%, vender o Algarve a uma empresa offshore (com transporte incluído até às instalações do cliente) e até nomear Zézé Camarinha para ministro de qualquer coisa, que ninguém dava por isso.

2006/07/01

Fairplay

A julgar pela reportagem apresentada na versão online do Daily Mirror, escassos minutos após o término da partida dos quartos de final do Mundial de Futebol 2006, que opôs Portugal à Inglaterra, é de supôr que as televisões inglesas não passaram o mesmo jogo que os portugueses viram. Senão, porquê escrever isto?

"But Simao scored the first and Cristiano Ronaldo hit the fifth after Jamie Carragher failed to put England back on terms. The shoot-out was particularly harsh on the Liverpool man, who had been brought on as substitute in the dying minutes of extra time with penalties in mind, as his first effort easily beat Ricardo in the Portugal goal. However, the referee decided he wasn't ready and ordered Carragher to re-take the kick."
(Estará o jornalista, quando diz que "bateu facilmente Ricardo", a referir-se a um penalty que Carragher marcou antes do apito do árbitro, e para o qual Ricardo nem se mexeu?)

E isto?

"Wayne Rooney - alone and upfront for much of the match - was given a straight red card in the 62nd minute as he reacted while being challenged and hacked by three Portuguese players in the centre of the pitch. It felt another harsh decision against England by the Argentinian referee. (...) The most remarkable incident of the second period was Rooney's sending off - not helped by Ronaldo running over to the referee in a blatant attempt to get him to take action against his Manchester United colleague. With the excellent Gary Neville and impeccable Rio Ferdinand also on the pitch, it's hard to see how Ronaldo can be assured a warm reception when he next returns to training at Carrington. If he does. He has said he wants to join Real Madrid - as far as many English fans are concerned (not to mention Manchester United's own) that might not be a bad idea."
(Gostei especialmente da candura com que se diz que Rooney levou um cartão vermelho directo "por ter reagido enquanto estava a ser pressionado por três jogadores portugueses...")

Há mais coisas giras na imprensa inglesa, mas o tom não varia muito. A dôr de cotovelo é uma coisa do arco da velha...

2006/06/30

Novidades da medicina:

Diogo Freitas do Amaral apresentou hoje a demissão do cargo que ocupava no Governo devido a problemas na coluna vertebral que, segundo o seu porta-voz, se têm vindo a agravar nos últimos tempos. Duas informações curiosas podemos extrair inequivocamente desta notícia:

Afinal o professor sempre tem coluna vertebral.

O contorcionismo, como já se calculava, é bastante prejudicial à dita.

2006/06/28

Coisas simples:


...para ir agora a Cacela Velha, comer umas ostras no largo e ver o pôr do sol...

Dependências

É sabido que nem tudo o que dá prazer nos é permitido; aliás, a maior parte das coisas que sabem bem são proibidas, engordam, ou ambas.

Há muitos anos que não dispensava a compra do jornal "Blitz", mas isto apenas até à altura em que percebi o quão pernicioso esse hábito se andava a tornar para a minha carteira - não pela parca quantia que custava o jornal em si, mas pelas excursões que logo em seguida fazia à FNAC para adquirir CD's que, face à crítica, se apresentavam como simplesmente indispensáveis. São desta fase as minhas "descobertas" de muitas bandas, tais como os Mansun, Mercury Rev, ou, mais recentemente, os Ordinary Boys, Delays ou The Libertines, e isto só para citar alguns. A decisão teve que ser drástica: deixar de comprar o jornal, com apenas algumas recaídas ocasionais, tão frequentes nos viciados. Olhos que não veêm, coração que não sente.

As finanças reorganizaram-se, até ao dia em que apareceram estes tipos a perturbar-me o espírito. Também lhes vou enviar, em breve as facturas referentes a despesas não previstas, se bem que gratificantes. Desta fase recordo, ainda a semana passada, a compra do álbum dos Final Fantasy, com o mentor dos Arcade Fire, cujo nome agora não recordo (e estou demasiado preguiçoso para pesquisas).

Agora a tentação voltou: o Blitz deixou o seu formato de pasquim semanal e passou a apresentar-se numa revista mensal que é impossível não comprar. Tempos difíceis se aproximam. A propósito, sabiam que Richard Hawley (o que eu penei à espera do primeiro CD, "Lowedges") já tem um novo álbum? E que Thom Yorke, dos Radiohead, lançou um álbum a solo? E que Neil Hannon, aka The Divine Comedy, também tem novo trabalho? Ai, ai...

Olé!


Sexta passada, por las ocho de la tarde, retomei um dos meus maiores prazeres: os toiros no único lugar onde podem ser vistos - em Espanha, claro.

A corrida foi mediana, com um El Juli razoavelmente inspirado e um Miguel Angel Perera numa das piores exibições que já lhe vi, ambos a terem que se defrontar com a nova estrela ascendente do toureio espanhol e, por inerência, mundial: Alejandro Talavante!

Há já dois anos, desde que vi César Jimenez em Almendralejo, que não tinha tamanha surpresa ao ver uma lide. Talavante, de apenas dezoito anos, e que tomou a alternativa há apenas duas semanas numa praça de nome impronunciável, confirmou todas as críticas que já tinha conhecido, e que o tornam no maior fenómeno da temporada, pelo menos até ver. Certo que algumas impetuosidades, a par com alguma dificuldade na avaliação da aprendizagem dos toiros durante a lide, pechas apenas imputáveis à sua juventude, o impediram de colher como troféus mais do que duas discutíveis orelhas na segunda lide. Mas a forma corajosa e elegante como executa as estatuárias, as gaoneras perfeitas, e a maestria com a muleta tornam-no, para já, num matador que aconselho vivamente aos aficcionados. Eu fiquei admirador, e decerto tudo farei para voltar a assistir a uma corrida onde ele conste no cartel - de preferência na Real Maestranza, em Sevilha, afinal a verdadeira "catedral" do toureio!

2006/06/26

Delírio duma noite quente

A minha vida bem que poderia ser um longo fim de semana, com ar condicionado em todos os lugares, bons restaurantes, cheios de coisas boas que não engordassem nem fizessem mal (incluindo charutos), livros por todo o lado, varandas sobre o mar, boas conversas, boas companhias, aqueles CD's que nos arrepiam, os jornais do dia espalhados pelo chão da sala, dinheiro no bolso, estrada para rolar, e o meu filho sempre perto de mim...

2006/06/20

O dinheiro afinal não compra tudo!

Ontem, ao folhear uma revista que se encontrava na mesa do café onde parei ao fim da tarde, daquelas que saem como suplemento num jornal qualquer, dei com uma entrevista de um tal Renato Berardo, filho de um famoso coleccionador de arte moderna com o mesmo apelido. A minha costela voyeur não me poupou, e lá acabei por dar comigo a ler as declarações do herdeiro. Não comentarei agora a maior parte do que lá ficou dito, mas não consegui conter um enorme arrepio quando li a descrição, pelo próprio, das suas primeiras tentativas de comprar arte. Segundo o entrevistado, só depois de ter adquirido, há alguns anos, um quadro, é que teve conhecimento de que este era uma reprodução, e isto por amável esclarecimento da esposa. Indignado, perguntou então a quem lhe facultou a informação por que motivo não tinham comprado o original, ao que a sua consorte conselheira o voltou a informar de que tal teria sido muito, mas mesmo muito difícil, já que o original se encontra no Louvre e se chama Mona Lisa. E ele contou isto, assim, numa revista.

Pensando bem, acho que também não vou comentar esta parte da entrevista.

2006/06/18

Carta aberta a Sílvia Alberto

Existem, definitivadamente, duas épocas no jornalismo escrito português: antes e depois de Miguel Esteves Cardoso (MEC). Para além da informalidade e paródia que introduziu na escrita, desde os seus tempos do "Se7e", passando pelas crónicas no "Expresso" (assim de repente lembro-me da "Causa das Coisas", "As minhas aventuras na República Portuguesa", "Os meus problemas"...), e culminando nos excelentes textos e legendas de "O Independente", que comprei desde o número 1, para além disso, dizia, MEC tinha ainda uma outra capacidade extraordinária: a de nos pôr a sofrer os seus próprios problemas, tal a forma como expunha despudoradamente os seus estados de espírito pessoais nas páginas das publicações em que escrevia. Foi talvez por isso que me veio há bocado à memória um artigo (mais à frente já perceberão porque me lembrei disto agora) em que o autor, tanto quanto sabemos encantado com as belezas de uma apresentadora de um programa televisivo de surf - também isto uma novidade naqueles dias - de sua graça Rita Seguro, dedicava toda uma crónica, em jeito de declaração pública, a confessar-nos o seu deslumbramento e paixão pela radical diva; aliás, se não estou em erro, o autor dirigia-se directamente à visada, isto apesar de, aparentemente, nunca terem sido sequer apresentados. Nunca percebi ao certo se a coisa era mesmo sentida ou se havia ali uma pequena pontinha de ironia, mas fascinou-me absolutamente a forma como escarrapachou nas páginas de um jornal coisas que até aí só se diziam em privado ao melhor amigo - e, mesmo assim, nunca antes do segundo gin tónico!

Lembrei-me disto há bocado quando, depois de jantar em casa da minha mãe com o meu filho, acabei por ceder às insistências de ambas as gerações para assistir a um programa televisivo, aparentemente de grande popularidade, chamado "Dança comigo". Curiosamente, foi a primeira vez que assisti a tal coisa (quem me conhece melhor já sabe da minha obstinada abstinência - tentem lá dizer isto depressa - em relação à televisão), e foi também, feliz ou infelizmente, o último programa exibido ("desta série", conforme nos foi dito, o que não augura nada de bom). O programa em si é banalíssimo, apelando permanentemente à palmadinha nas costas entre intervenientes e às emoções facilmente manipuladas de uma plateia já convenientemente instruída para assistir ao espectáculo das suas vidas, com muita lagriminha marota à mistura. Nada a acrescentar, portanto.

Contudo, algo ali me fez assistir ao programa com redobrada atenção até ao seu final: o "reencontro" com Sílvia Alberto, agora mulher, mas com o mesmo ar de menina que, há já alguns anos, me fazia levantar de manhã aos domingos para assistir ao "Clube dos Amigos Disney"! Sim, já sei, não esperavam isto de mim, mas também nunca vos garanti que não vos iria desiludir, pois não?

Bom, mas voltando ao assunto, e aproveitando a introdução sobre a desavergonhada atitude de MEC, e transpondo-a para este micro-espaço, vou, eu também, aproveitar a prolixidade e o desaforo que tenho na escrita para fazer aqui um convite público: convido-a, pois, a si, Sílvia Alberto, caso eventualmente faça uma pesquisa no Google e venha aqui parar, para dois almoços ou jantares por estes dias, preferencialmente depois de Outubro, altura em que a temperatura começa a voltar a níveis civilizados. Relativamente à escolha dos lugares, e como bom cavalheiro que prezo ser, deixarei este agradável assunto ao seu cuidado, Sílvia, certo aliás de que o seu leque de conhecimentos nesta área é muito superior ao meu. No entanto, se tiver a amabilidade de me incumbir dessa tarefa, poderei sugerir alguns que fujam ao óbvio de Lisboa como, por exemplo, o "Mar do Peixe" no Meco, o "Ribamar" em Sesimbra, o "Sacas" na Zambujeira do Mar, o "Aqui há peixe" no Carvalhal, o "Trinca-Espinhas" em São Torpes, ou outros em que pensarei se se dignar aceitar este convite duplo. Por fim, calculo que esteja intrigada pelo preciosismo de a convidar para duas refeições, e não simplesmente para almoçar ou jantar; bom, é que, conhecendo-me como me conheço, sei que no primeiro deles não conseguirei dizer mais que "pois...", "ah..." e "ia dizer qualquer coisa mas passou-me" - assim, só o segundo servirá para conversarmos normalmente. Está explicado?

2006/06/17

Orçamento

Apesar de, graças a Deus, nunca ter passado dificuldades financeiras por aí além, noto em mim, por vezes e cada vez mais, uma tendência para o "forretismo", se bem que, na maior parte dos casos, a consiga justificar com a simples invocação da razão.

Para ilustrar o que digo, não consigo conceber como, por exemplo, se gastam fortunas abissais em peças de roupa quando, muitas vezes, apenas estamos a comprar o emblema ou a griffe. Como diz com alguma graça e muita razão o meu amigo P.R., é absolutamente despudorado comprar uma peça de vestuário, seja ela qual for, cujo custo seja superior ao ordenado mínimo nacional. Claro que este raciocínio não poderá valer, por exemplo, para uma camisa, em que o plafond terá que ser forçosamente muito mais baixo, e cujo valor razoável de aquisição não poderá exceder nunca os cinquenta ou sessenta euros, e isto para casos de comprovada qualidade.

O mesmo para os automóveis: por muitos Euromilhões que me pudessem sair, não me veria em caso algum a comprar aqueles carros estranhos que os príncipes árabes ou o Vítor Baía compram, com preços superiores a meio milhão de euros. Acho que é um desrespeito a todas as pessoas com necessidades este tipo de desperdícios e, apesar de ser um grande adepto de automóveis em muitas das suas vertentes, considero que existem excelentes carros com todas as comodidades exigíveis muito abaixo dos cinquenta mil euros.

Por fim, um fenómeno recente: os telemóveis. Observo frequentemente, mesmo no meu círculo de amigos mais restrito, mudanças frequentes e dispendiosas de aparelhos cujo único defeito é não serem os últimos do catálogo, por forma a dispor permanentemente de toda a parafernália dos gadgets mais recentes que estes aparelhos oferecem, tais como máquina fotográfica, berbequim, cortadora de fiambre, máquina de café, e sei lá mais o quê. Esta mentalidade impressiona-me e arrepia-me, a mim que só compro um telemóvel quando o anterior está mesmo kaput. Aconteceu há dias e, contrariado, dirigi-me a uma loja da especialidade para adquirir um novo telemóvel. O vendedor bem me queria convencer da utilidade de comprar um modelo que podia receber e-mails, telegramas e correio azul, mas os meus olhos desde a entrada na loja recaíram num singelo aparelho que, por cerca de cinquenta euros, me oferece a possibilidade de fazer e receber chamadas, afinal tudo aquilo para que eu quero um telemóvel!

Em adenda às reflexões expressas acima, gostaria ainda de informar que o anterior aparelho, talvez ressabiado com a sua troca por uma unidade mais jovem e pujante, se recusou a colaborar na hora de passagem do testemunho, isto é, quando tentei salvar os números que possuía em agenda. É, pois, por esse motivo, que aproveito a amplitude deste espaço blogosférico para solicitar a todos os meus leitores e amigos, principalmente àqueles que ainda não incomodei através de e-mail ou mensagem de Hi5, o favor de me reenviarem os vossos números, usando para o efeito o endereço electrónico situado ao lado (em "Recados"), ou, caso o possuam já, o meu número de telemóvel, que não sofreu alterações.

2006/06/12

Problemas de hardware

Ontem, enquanto tentava criar um manjerico para o Lourenço, utilizando, como me mandaram no infantário, papel crepe e um copo de plástico, deixei cair umas grossas gotas de cola-tudo UHU aqui em cima do computador portátil (e agora perguntam vocês: mas para que raio usaste cola UHU numa coisa que se resolve só com agrafos e jeito, e eu, em vez de vos responder, mostro-vos as minhas notas do secundário em trabalhos manuais, ou oficinais, ou lá o que lhes chamam agora). Bom, mas voltando aqui ao meu fiel companheiro, tentei limpá-lo de imediato com um lenço de papel, mas só consegui espalhar mais o visco. Agora, a coisa já secou e o plástico apresenta uma textura como que "arrepanhada" junto ao mouse digital - mas o aparelhómetro vai funcionando na mesma.

Será grave, doutor?

Lindo!

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


(Alexandre O'Neill by M.G.)

A ternura dos quarenta

Este blog teve a característica original de acompanhar o final da minha quarta década de vida (os "trintas") e a entrada na quinta (os "quarentas"). Se bem que pareça um lugar comum, a verdade, verdadinha mesmo, é que muita coisa mudou "aqui dentro" com este franquear.

Houve diversos e importantíssimos factos que aconteceram nestes quase três anos que modificaram de forma irreversível a minha vida, mas houve também mudanças de atitude importantes, quando percebi que me estava irremediavelmente a afastar da minha juventude. Uma das principais diferenças que noto, e pela qual já me fizeram pagar a incoerência, foi o meu súbito interesse pelo futebol, quiçá por falta de coisas mais apelativas por que me interessar. Mas nada de precipitações! Consigo ver um jogo de princípio ao fim mas, em relação por exemplo aos lugares que cada jogador ocupa em campo, continuo a apenas distinguir o guarda-redes e todos os outros. Isto para grande desespero de quem me acompanha ao estádio (do Vitória de Setúbal, claro!), e que, com grande paciência, me vai elucidando sobre mudanças de flanco, faltas de ânimo e outras preciosidades do género (obrigado, F.C., grande amigo!).

Mas, se há coisa para que ainda não consegui a devida garra (e, nesta fase, duvido que venha a obtê-la já), é para embandeirar (literalmente) em relação à selecção Nacional. Que me desculpem os mais nacionalistas, e acreditem que gostaria tanto que os portugueses ganhassem este Mundial como qualquer um de vós - apesar de confessar que, se tivesse dinheiro para apostar, o faria no Brasil, ou melhor, na sua selecção. Talvez a coisa melhore, mas para me galvanizarem têm que passar a jogar bem melhor do que fizeram esta noite. Depois falaremos.

Entretanto, lembrem-me um destes dias de postar aqui qualquer coisa sobre outras mudanças fundamentais que chegaram com os quarentas - as que já chegaram e as que podem estar para vir.

2006/06/09

Secção "No gira-discos do meu carro":

Comecemos pelo mais óbvio: o álbum "At War with the Mystics" dos The Flaming Lips, e não me parece que seja necessário falar muito dele, pois toda a gente já deve conhecer, por esta hora, pelo menos a canção do Yeah, Yeah, Yeah... Se não conhecem, ainda vão a horas - se já conhecem, aproveitem para ouvir o resto do álbum que, apesar de algumas críticas menos favoráveis, é muito, mas mesmo muito bom. É claro que não podemos esperar que os rapazes agora criem um "Yoshimi battles the pink robot" em cada álbum que façam - Da Vinci também só criou uma Gioconda, o que não significa que os seus restantes trabalhos fossem maus. De qualquer forma este último trabalho chegou ao sexto lugar de vendas no Reino Unido, mas presumo que cá teria muita dificuldade em combater a qualidade melódica de um Tony Carreira!


Passando a "Here come the Tears" dos... The Tears, trata-se de nomes provavelmente desconhecidos da maior parte dos leitores, e - digo-o por experiência própria - mesmo da maior parte dos empregados da FNAC, até daqueles "especializados" nas prateleiras do "Alternativos". Mas se eu disser que na formação desta banda entram Brett Anderson, ex-vocalista dos defuntos Suede, bem como Bernard Butler, guitarrista dos dois primeiros álbuns da mesma banda (os melhores, de longe), a sobrancelha já começa a levantar, não é? Então oiçam lá as músicas e depois digam qualquer coisa.

Por fim temos os Babyshambles: o seu vocalista constitui uma das maiores fontes de rendimento dos tablóides britânicos, e já começa também a aparecer com frequência nas secções de curiosidade das publicações portuguesas - infelizmente nunca é por razões relacionadas com a música que produz, nem sequer é por boas razões: Pete Doherty, assim se chama o rapaz, foi suspenso da sua anterior banda, os magistrais The Libertines, devido à sua grande adição às drogas, e resolveu formar esta banda onde nos continua a encantar com a sua voz rouca. Infelizmente, apenas o faz nos intervalos entre as suas detenções, que começam a ser cada vez mais frequentes. Mas as notícias nunca referem a qualidade do trabalho produzido, razão porque este blog de espírito missionário vem asseverar aos seus estimados leitores que vale a pena deixar de pensar por um pouco nos problemas pessoais do jovem e escutar as suas palavras cantadas, com atenção, neste álbum, "Down in Albion". Para os curiosos das referências mais famosas, ainda posso deixar aqui a informação extraordinária de que esta personagem foi namorado da modelo Kate Moss a qual, de resto, faz um sensual coro logo na primeira faixa do álbum.