2006/02/26

Lugares (que me esperam, que chamam por mim...) - Parte 1






(a suivre)

Rally Magic


Sempre que digo isto sinto-me pedante, mas é a mais pura das verdades: depois de já se ter experimentado um rali "por dentro", perde-se mais de metade do gosto de os ver na berma da estrada. E, não obstante, já passei muitas noites no carro, já apanhei muito frio nas orelhas, tudo para ver evoluir os "colegas" e poder saudá-los à saída duma curva - tal como, quando vou "lá dentro", gosto de ver os amigos a incentivar-me nos lugares mais improváveis.

Não foi o caso ontem, dia do Rali Casino da Póvoa, primeira prova do Campeonato Nacional de Ralis: depois de muitas hesitações "vou-não-vou", e na ressaca de uma semana de mudança de emprego anormalmente agitada, acabei mesmo por me decidir por ficar em casa. Eram quase 1000 km a fazer, e depois havia ainda aquela dificuldade de digestão do facto de este ano não ter conseguido um lugar dentro de um carro de corrida (está bem, eu sei que andei meio "perdido" e que acordei tarde), pelo que o apelo de um pacato Sábado de descanso partilhado com o meu filho falou mais alto - isso e a perspectiva de poder encontrar alguém cá, confesso, mesmo que só de vislumbre.

Pelos vistos tive razão: a intempérie causou bastantes problemas a organizadores, concorrentes e público, e várias classificativas tiveram mesmo que ser anuladas, deixando um amargo de boca a todos os intervenientes. Mesmo assim, vendo hoje as fotos publicadas, não consigo deixar de sentir uma pontinha de inveja dos bravos que por lá andaram (sim, aquilo é neve, e a foto foi tirada ontem na zona de Vieira do Minho!). Talvez se lembrem de mim numa próxima prova, mas talvez então eu não possa... Talvez as coisas possam começar agora a correr-me melhor.

2006/02/17

Secção de leituras

Há dias lia numa crónica de João Bénard da Costa que, muitas vezes, não somos nós que encontramos os livros, mas sim eles, livros, que nos encontram. Certíssimo, como sempre.

Há mais de um ano, no aeroporto de Recife, aguardando o embarque para um voo transatlântico de muitas horas e com o stock de leituras que havia levado de cá já completamente lido, entrei numa livraria. Como livro do dia, "64 contos" de Rubem Fonseca, um calhamaço de mais de 800 páginas, aspecto algo tosco, mas que, contudo, se riu para mim. Comprei-o, claro. As referências que tinha de Rubem Fonseca eram praticamente nulas, confesso, mas durante o voo deu para inverter radicalmente essa situação. Aeroporto de Lisboa, trâmites alfandegários, o livro vai para o porão de um saco de mão, o saco que normalmente uso em viagens profissionais, e começa a "ganhar cama" lá no fundo, maioritariamente por preguiça. Nos hotéis nacionais, quando conseguia chegar mais cedo ao quarto, ainda o resgatava ao seu refúgio, mas o cansaço não me permitia ler mais que quatro ou cinco páginas avulsas, sem tempo, portanto, para tomar o gosto (melhor diria relembrar) ao seu esplendor.

E eis que chegam os últimos dias, catadupas de acontecimentos, e de repente disponho de mais algum tempo para ler. Os contos lá continuavam, a olhar para mim - e fizeram bem nessa persistência, pois as tais 800 páginas parecem agora 8, de tão depressa que se estão a passar!

Que crueza, que realismo, e, ao mesmo tempo, que mistério, que beleza. O Brasil deve ter mais a ver com isto, acho eu.

Dominó

Existem estigmas e sindromas que, por um motivo ou outro, teremos que carregar toda a vida. No meu caso pessoal, uma das coisas que mais frustrado me deixa consiste na incapacidade de, no contacto pessoal, transmitir às outras pessoas o tipo de ser humano que eu sou. Uma grande timidez desde pequeno, a rasar as fronteiras do caso patológico, a juntar a uma memória fotográfica de duração inferior à de um peixinho vermelho, criam em muitas das pessoas que me conhecem a ideia de que sou afectado e até antipático - o que, como poucos saberão, é uma ideia perfeitamente injusta!

Agora a história repete-se: divorciado recente, mas, contrariando as imagens feitas, mantendo uma vida relativamente sossegada e praticamente sem casos boémios, tenho dificuldade em fazer as pessoas acreditarem que é assim que a minha vida se passa na verdade e que o meu sonho, longe de ser o de um playboy, passa por coisas muito mais prosaicas e mundanas - comezinhas até, secalhar.

Mas afinal a culpa só pode ser minha, não é?

2006/02/10

E não se pode exportá-los?

Há umas horas atrás ouvi uma daquelas eminências pardas do Partido Socialista, Vitalino Canas de seu nome, dizer, na Assembleia da República (onde eu lhe pago para ser deputado!), que tão condenáveis eram os ataques islâmicos recentes como as caricaturas que, alegadamente, lhes deram origem. Isto, depois das anteriores declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Diogo Camaleão do Amaral, dá bem uma ideia da tacanhez de ideias que grassa no partido em que mais de metade dos eleitores portugueses que se dirigiram às urnas nas últimas legislativas depositaram a sua confiança.

2006/02/09

It's just a question of time!


Já não os via há quase 14 anos, mas os rapazes mantiveram-se em forma, não há dúvidas!

Parte II

Está bem, não precisam de começar já a bater; eu sei que foi uma ausência demasiado grande, mas acreditem que existiram razões para tal - não as vou especificar agora, porque também não têm nenhum interesse para quem lê este blog (aliás, não têm nenhum interesse para ninguém a não ser para mim), mas aconteceram. A boa notícia, no entanto, é que este blog vai voltar a ter alguma regularidade, e espero que os posts acompanhem alguma boa evolução pessoal e espiritual da sua equipa redactorial. E pronto, era isto que eu queria dizer...

2005/12/07

Deliberação

Os moradores desta casa, reunidos em plenário, decidiram por unanimidade o seguinte: de momento não se vislumbram quaisquer motivos para celebrar ocasiões tais como o Natal, passagem de ano ou similares pelo que, e até que suceda algo que altere este estado de espírito, as respectivas comemorações estão proibidas dentro destas paredes.

2005/12/06

A quem puder interessar:

A legislação deste cantinho onde vivemos possui certas idiossincrasias, normalmente desconhecidas da maioria dos cidadãos. Não sei se é o caso da que vou mencionar, até porque desde já assumo a minha total ignorância no que ao assunto diz respeito, mas trata-se de uma lei, no mínimo curiosa. Sabiam, pois, os caríssimos leitores que, após um divórcio, deverá obrigatoriamente ser observado um período de carência por parte dos ex-conjuges antes de voltar a dar o nó? Ora, a curiosidade aqui é que este tempo não é igual para ambos os géneros - assim, o homem poderá voltar a celebrar o seu casamento seis meses depois da consumação do divórcio, enquanto que a mulher apenas o poderá fazer dez meses após aquela data. Isto, dizem os especialistas, apesar de parecer machismo "puro e duro", destina-se apenas a salvaguardar a hipótese de a mulher se encontrar grávida aquando do divórcio, e vir a casar com novo noivo prestes a dar à luz um rebento do destituído. Quanto puritanismo...

Bom, mas afinal serve apenas este post para informar que, segundo a lei actual, me encontro desde ontem, dia 5 de Dezembro do ano da graça de 2005, livre para voltar a contrair matrimónio, bastando apenas para tal que me surja alguém que cumpra os requisitos mínimos exigíveis para a função. Não é uma efeméride alegre, admito, mas não deixa de ser uma efeméride, pois não?

2005/11/18

Vera, 6 anos, linda:

- Olha lá Verinha, conta cá uma coisa ao tio: já tens namorado?
- (Chegando-se muito junto a mim e falando baixinho ao ouvido) Sim, tio; é o Bruno!
- O Bruno? Quem é o Bruno? Anda lá na tua escola?
- Não, só tem 4 anos, anda na Casa do Povo (Infantário de Azeitão); por isso agora não nos vemos.
- ...
- Mas quando nos encontramos na rua é cá uma paixão, tio; agarramo-nos e é só beijos e mais beijos...
- O quê?
- Sim, e quando ele vier cá a casa vamo-nos fechar à chave no quarto...
- (De olhos esbugalhados) O quê, o quê, o quê?
- ...como nos "Morangos com açúcar"!

2005/11/13

Os filmes da minha vida - 3

Dr. Strangelove

Desculpem lá o hiato nos posts, mas foi uma semana... estranha.

2005/11/04

Sindroma do alpinista

Nunca vos aconteceu sentirem-se à beira da conquista, mas em pânico por saberem que, não obstante todo o difícil percurso efectuado, a parte decisiva só agora começa? Aquela fase em que qualquer escorregadela, qualquer passo em falso, pode comprometer e deitar a perder todo o esforço, todo o empenho, todo o sacrifício anterior?

Quando estamos longe, uma montanha é igual a outra montanha, a outra montanha, a outra montanha... Mas, uma vez iniciada a subida, cada passo, cada gota de suor, cada socalco superado, tornam-se parte de um património que nos vai engrandecendo, que nos vai dando ânimo para prosseguir - contudo, nesse progresso, carregamos cada vez mais a responsabilidade de todo o investimento anterior, e sabemos que não podemos, não temos o direito de dar passos em falso, por respeito ao que já fomos capazes de fazer. E é a história da pescadinha de rabo na boca: o saber que não podemos errar cria-nos uma tal tensão que passamos a questionar doentiamente tudo o que fazemos, para saber se está certo ou errado - e vem então a ansiedade de percebermos finalmente que não sabemos que raio é isso de "certo ou errado", que nem sabemos como chegámos ali, não fazemos a mínima de qual o passo correcto a seguir, e tudo o que nos resta é arriscar e acreditar.

Mas nunca ninguém se gabou de ter chegado quase ao topo do Everest, pois não?

2005/10/25

Os filmes da minha vida - 2


Nota: O 2 deve-se ao facto de considerar "El sol del membrillo" (ver post "Madrid" mais abaixo), como o primeiro post desta série.

2005/10/23

É hoje!

No fim da adolescência ia a jantares de aniversário. A partir de meados dos vintes até aos trinta e tal, eram casamentos quase todos os dias. Depois veio a fase dos baptizados e das visitas às maternidades. Agora, depois dos quarenta, os jantares de divorciados começam a ser cada vez mais frequentes - isto não é nada animador.

O que virá a seguir? Funerais?

Desculpem lá a neura; o ano de reorganização pessoal está quase a acabar, alguns dos objectivos estão cumpridos, outros estão próximos e o resto virá por acréscimo, espero.

2005/10/20

Ainda a propósito da co-incineração:

José Sócrates tem a estranha capacidade de me despertar sentimentos que eu próprio desconhecia em mim - qualquer coisa assim a meio caminho entre sádico e criminoso.

2005/10/19

Madrid


Coisas simples que nos prendem.

2005/10/18

Conchas e búzios

Por diversos motivos, que me absterei de voltar a pormenorizar aqui, tenho andado algo desinteressado das notícias nos últimos tempos. Contudo, num tour de force que me impus a mim mesmo, aos poucos vou procurando reatar velhos hábitos como se nunca os tivesse deixado. Foi por isso que hoje retomei um dos meus gestos favoritos, apesar de mal educado: almoçar sozinho no restaurante, ao mesmo tempo que leio o jornal.

E foi precisamente no "Público" que li este fait divers delicioso: ao que parece, no âmbito do processo Casa Pia tem sido ouvido nos últimos tempos um jovem, ex-aluno da instituição, e as perguntas têm incidido sobre o comportamento de um tal arqueólogo subaquático, peça chave no supra citado processo. A parte encantadora da peça é quando se lê que aquela testemunha, ao referir-se ao dito arqueólogo, chama-lhe - por dislexia, desconhecimento ou pura malícia, vá-se lá saber - "astrólogo submarino"!

O que isto me deu para rir o resto da tarde.

2005/10/16

Taylor made


Ferrari? Porsche? Coisas de nouveaux riches.

Para mim, só há três tipos de carros: os confortáveis (leia-se discretos, espaçosos, com cinco portas, silenciosos, económicos e preferencialmente vans), os de competição (leia-se potentes, desconfortáveis, barulhentos, cheios de cheiros, mas estupidamente viciantes - para usar moderadamente e em local próprio, fazendo logo a seguir uma desintoxicação num "confortável") e os Morgan!

P.S.: Pronto, está bem, admito; tal como nos mosqueteiros, são três mais um. Também existem os carros velhos, aquelas latas da década de setenta que se vêem aí abandonadas pelas cidades, e que me despertam estúpidos instintos esbanjadores, mas quanto a esses estou a tentar deixar a adição. Mas não é fácil - ainda anteontem "descobri" um Triumph Dolomite em Setúbal, e tive que morder a língua para não parar e ir lá deixar um cartãozito com o meu contacto!

Projectos

Decisões de Outono, uma espécie de preâmbulo para as decisões de Ano Novo, aquelas que se guardam habitualmente na gaveta em Fevereiro:

- Comer menos porcarias, andar mais de bicicleta e jogar mais ténis;

- Tentar ganhar mais dinheiro, ainda que não saiba bem como;

- Ler mais, ouvir mais música, ir mais ao cinema - enfim, renascer;

- Mudar de casa, talvez;

- Mostrar a alguém o óbvio: que eu sou, de longe, a sua melhor opção, para não dizer a única (desculpem a petulância, mas uma terapia de autoestima é fundamental);

- Preparar o regresso às corridas de automóveis, paradas este ano abruptamente, nem sei bem porquê;

- Envolver-me de vez nos já demasiado adiados projectos do golfe e do mergulho - respectivamente com os meus grande amigos V.C.S. e G.V.M;

- Passar mais tempo na casa do meu pai, no Alentejo, com o Lourenço, pelo menos;

- Reaprender a sonhar e a acreditar.

Não será isto exposição suficiente para um blog masculino, Vieira?