2004/07/01

Sonho


Uns dias aqui fariam maravilhas!

Falácias

Em desespero de causa, ganha cada vez mais espaço, entre os detractores da solução de continuidade proposta pelo e para o governo, o argumento do tipo: "eu não votei em Santana Lopes para primeiro ministro!".

É uma verdade insofismável, e até acrescento mais: nenhum português votou em Santana Lopes para primeiro ministro! Mas também não será menos verdade que nenhum português votou alguma vez em Durão Barroso, ou em quem quer que fosse, para primeiro ministro, apenas e tão só porque em Portugal, democracia representativa, não se vota em pessoas para primeiro ministro mas sim em partidos para a constituição da Assembleia da República. É esta a falácia que a oposição, mas também alguns sociais democratas com problemas de indigestão, anda a tentar impingir ao País.

Mas a verdade é líquida e incontornável: nas últimas eleições legislativas o povo português votou maioritariamente no PSD, pelo que, como consta da constituição, foi este partido que o Presidente da República convidou para formar governo. Foi o PSD que, face a uma maioria relativa obtida, decidiu convidar o PP, terceira força política mais votada, para um governo de coligação que propôs ao Presidente da República, e que sujeitou ao sufrágio da Assembleia da República. Nesta sede, os deputados - estes sim, eleitos a partir dos resultados eleitorais - viabilizaram o governo então proposto, e o seu programa, para um mandato de quatro anos.

Ora, não venham agora oportunistas diversos invocar falsidades para tentar aproveitar uma janela de oportunidade; o governo continua, o seu programa também, e só manifesta má fé podem levar a considerar que Santana Lopes e/ou Paulo Portas não teriam o perfil para manter a linha de rumo até aqui traçada. Como se pode combater um putativo governo com um pressuposto inexistente ou pelo menos não confirmado - o de que Santana Lopes conduziria o país a uma situação de esbanjamento populista? Trata-se, obviamente, de preconceito, e este não é um critério aceitável em política.

Por outro lado, também não me parece que haja grande espaço para contestar a natural subida de Santana Lopes à liderança do seu partido; não sou militante, nem sequer simpatizante, do PSD, mas presumo que se trate de um partido com estatutos - e parece-me lógico calcular que esses estatutos refiram que, em caso de impossibilidade de continuidade em funções por parte do seu presidente, este seja substituído, em sede de Conselho Nacional, pelo seu vice. So, what's the big deal?

P.S.: Mas confesso que me daria um gozo perverso ver o país em eleições antecipadas, só para ver o tamanho dos sapos que Sócrates, Soares júnior ou Lamego teriam que engolir, ao manifestar o seu incondicional apoio a Ferro.

Como eu gosto do Euro 2004!

Graças a ele, ontem, à hora a que se disputava o jogo Portugal-Holanda, consegui encontrar um lugar onde jantar, sem televisões por perto e praticamente vazio. Ainda conseguia ouvir a ladaínha longínqua de um relato, e adivinhava os golos da nossa equipa através de rumores abafados, mas o saldo final da refeição foi calmo.

Depois, de regresso ao hotel, e graças ao barulho que os adeptos faziam na rua, não consegui adormecer cedo e acabei por aproveitar para ler "de uma penada" dois livros que tinha comprado umas horas antes: "Linguagem Seinfeld", de Jerry Seinfeld, e "A insubmissa", de António Modesto Navarro, uma boa surpresa. Nada disto teria sido possível sem o Euro 2004!

Podem começar então a desancar-me; podem-me chamar de snob, de intelectual "da treta", podem até ter pena de mim - sentimento que agradeço mas dispenso. Só não admito que me acusem de pouco patriotismo.

Vamos lá a ver se nos entendemos: teria tanto gosto em que fosse a nossa selecção a vencer este campeonato como qualquer outro português - só não consigo partilhar da euforia e quase histeria que tomou conta desta gente, a propósito de algo que não é mais do que um desporto. No dia em que o Estado gastar pelo menos 1% do que se gasta com o futebol com outras modalidades em que existem tantos jovens talentos sem possibilidades de mostrar o que valem - e, assim de repente, e com algum conhecimento de causa, lembro-me dos desportos motorizados, incluindo a motonáutica, em que o meu grande amigo Duarte Benavente anda a disputar o Campeonato Mundial de Fórmula 1 com excelentes resultados, do ténis ou do BTT - no dia em que as visões se tornarem abrangentes, dizia, e quem de direito perceber que desporto não é só futebol, nesse dia talvez alguém me veja entusiasmado com um simples jogo de bola - antes não!

Falem-me em "fenómeno de massas", e eu respondo: acham sadio andar a acicatar rivalidades e até ódios contra povos amigos, a desejar humilhá-los através de golos? Não percebem que todo esse sentimento contraria a essência do conceito de desporto? "Aljubarrota", professor Marcelo? Por amor de Deus!

2004/06/29

First things first!

O país vive tempos de instabilidade, e todos os portugueses estão ansiosos por importantes decisões que se tomarão por estes dias, e das quais pode estar dependente o seu futuro.

Estará o povo luso suspenso das palavras de Jorge Sampaio, sobre qual a solução governativa por que optará? Não, caros ingénuos - do resultado do jogo Portugal-Holanda!

2004/06/27

Ego inchado

Desculpem lá a imodéstia, mas ontem, na primeira saída semi-desportiva do meu Alfa Romeo 1750 berlina, o tal de 1972, ganhei o Rally Cidade de Almada acompanhado pelo meu amigo P. - e não, não era só um concorrente!

Ideias

E, de repente, toda a gente desata a criticar Durão Barroso pela sua opção de aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia; mesmo quem não votou no homem e nunca gostou dele, fala agora de "traição", de "fuga", ou de "abandono dos portugueses", suspirando antecipadamente pela sua ida.

Mas vamos por partes:

1. Não me parece que o lugar agora proposto ao nosso Primeiro seja assim tão insignificante que não fosse importante para um país ter nele um seu representante. E esta, parece-me, é uma questão supra partidária - aliás, o próprio Durão Barroso mostrou ter esse entendimento do assunto ao apoiar, numa fase prévia, a putativa candidatura de António Vitorino ao cargo, isto antes de o seu próprio nome ser sequer uma hipótese.

2. Não há "abandono", ou "fuga" comparável áquela protagonizada por Guterres em 2001. Por um lado, não há queda do Governo, nem os partidos que o compõem pretendem eleições intercalares, ao contrário do PS naquela altura, que assumiu tacitamente a sua incapacidade para governar este país. Por outro lado, é natural que as políticas preconizadas por Barroso para a recuperação económica deste país sejam seguidas pelos seus sucessores - e afinal, votamos em ideias políticas ou em pessoas mais ou menos cativantes? (A resposta a esta última questão não será líquida para muita gente; vide a quantidade de pessoas que vota no BE, seduzidas pelo nouveau chic, sem terem sequer um lampejo das suas ideias, encostadas ao radicalismo de esquerda)

3. Na sequência do que escrevi acima, é de referir que os argumentos contra Santana Lopes também são pouco menos que risíveis: ou "não se gosta porque é engatatão", ou "porque bebe copos", ou "porque tem ar de gigolo" - em suma, por todos os motivos, menos pelas políticas que pode vir a apresentar para o nosso país, e que deveriam ser, em primeiríssima análise, o pincipal motivo pelo qual elegemos quem nos dirija. De resto, e ainda que isso possa parecer estranho a alguns, nas eleições legislativas não votamos em pessoas para constituir o governo, mas sim para exercerem cargos de deputados; depois de contabilizados os votos, o Presidente da República convida então o líder do partido mais votado a formar governo, podendo este (o governo) incluir ou não o nome do seu líder.

A personalização da política, o ataque à pessoa e não ao seu programa, costumam ser uma táctica recorrente da esquerda deste país - os "modernos" bloquistas deram o tom, a coisa pegou, e aí vão os socialistas encantados atrás do comboio. Só tenho pena de ver gente de centro e direita a afinar pelo mesmo diapasão. Mas pobres de espírito, oportunistas e abutres há-os em todos os quadrantes, é verdade.

2004/06/25

Contrição ou "See you soon!"

Ontem, por motivos profissionais, jantei em Albufeira, a poucos metros da Rua da Oura.

Já aqui confessei bastas vezes a minha embirração de estimação com o futebol e, principalmente, com a hipervalorização que se faz de um simples desporto; mas na última noite era impossível não sentir algum entusiasmo, e assim, pela primeira vez desde que este campeonato começou, assisti a um jogo quase na totalidade. O ambiente era simpático, com um restaurante cheio de portugueses, e mais uns holandeses que, no entanto, também apoiavam a selecção portuguesa. Mas já um rápido vislumbre para a rua deixava antever o pior, fosse qual fosse o resultado: milhares de adeptos ingleses pululavam por todo o lado, e bebiam litros e litros de cervejas em bares engalanados de branco e vermelho.

O jogo acabou, o resultado foi o que se conhece, o jantar também terminou, e viémos para a rua. Surpresa: eu, que nem sou pessoa de grandes euforias, nem tampouco ostentava qualquer sinal que me identificasse como luso, comecei a ser espontaneamente felicitado por ingleses pela vitória da selecção nacional. Ouvi vezes sem conta as expressões "nice fight", ou "fair enough".

Insisti então com o meu amigo P., que me acompanhou no jantar, para descermos até à Oura, a fim de verificarmos in loco se aquela educação britânica era um fenómeno da zona em que nos encontrávamos, ou se se tratava de algo generalizado. O P. estava algo receoso, com a memória de acontecimentos recentes ainda fresca, mas eu insisti bastante e lá fomos. Tudo na mesma: adeptos com fair-play, trocas de camisolas, felicitações mútuas.

Fiquei surpreendido, confesso, e aqui faço publicamente a minha assunção de erro: sempre pensei que os adeptos mais ferrenhos fossem uma raça de gente pouco digna desse nome, indivíduos que apenas se deslocam a um cenário de jogo para arranjar conflitos e, se possível, tirar desforço físico da parte contrária. O meu quase nulo conhecimento do meio induzia-me essa ideia. Estava errado, admito; esses, os violentos, são uma minoria que, contudo, gozam de um injusto protagonismo, dada a assiduidade com que se envolvem em problemas - e há-os em todo o lado, não me lixem: procurem lá também nas nossas claques dos dragões amarelos, dos diabos cor de rosa, ou em qualquer outra.

Mas os verdadeiros amantes desse desporto, como de qualquer outro, sabem portar-se com dignidade, ganhem ou percam, e esses merecem admiração incondicional.

2004/06/23

Parábola

Quando somos adolescentes todos os adultos nos parecem extremamente fastidiosos e desfasados da realidade; isto aplica-se principalmente aos avós, que "são uns chatos" que só servem para nos pespegar uns beijos repenicados nas bochechas, deixando, em contrapartida, umas notinhas no nosso dia de aniversário e no Natal. Quão estúpidos somos então!

Há dias, numa fabulosa tira de Calvin & Hobbes, publicada no Público, o pai de Calvin sofria de insónias - quando instado pela esposa a confessar o que o impedia de dormir, disse mais ou menos isto (cito de memória): "quando era pequeno pensava que os adultos sabiam sempre a forma correcta de resolver as situações; pensava que, quando chegássemos à idade adulta, todo esse conhecimento nos surgiria automaticamente - se soubesse que não era assim, não teria tido tanta pressa em ser adulto!" Lindo, não é?

Só quando nos tornamos adultos, e pais, percebemos as dificuldades que todos os nossos progenitores sentiram para nos educar; só então conseguimos avaliar a frustração de não nos conseguirem transmitir os seus ensinamentos, as dúvidas que sentiam naquilo que nos queriam dar e a ansiedade de perceberem que nem sempre estávamos disponíveis - e então sentimos um enorme remorso por não os termos recompensado devidamente desse esforço homérico, e por já ter passado tudo tão depressa.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, conheci a primeira morte de um avô: atormentado pela doença, o meu avô Brito deixou-nos, depois de alguns meses de sofrimento. Era um homem grande, em todos os sentidos; foi um dos primeiros carteiros do Barreiro, depois funcionário fabril e, às suas custas, tornou-se num respeitado empresário de razoável sucesso. Nunca o chamei por "avô" - entre nós, chamávamo-nos mutuamente de "amigo", ate à data da sua morte. Eu, que nunca apreciei grandemente futebol, nunca esquecerei os muitos jogos da CUF e do Barreirense - ambas, então, equipas da primeira divisão - a que assisti na sua companhia. Quando eu tinha dezasseis anos, pedi-lhe insistentemente que me oferecesse uma motorizada, como tinham todos os meus amigos. No dia do meu décimo sexto aniversário, ele conduziu-me até á garagem e lá estava, reluzente, a motorizada dos meus sonhos. Mas não durou muito a alegria: passados uns meses enfeixei-me contra um carro, e fiz uma grave fractura exposta do fémur. Já lá vão mais de vinte anos, mas mesmo que viva até aos cem, nunca esquecerei aquela visita do meu "amigo" à clínica: pouco ou nada falou, nem sequer para me criticar (antes o tivesse feito), mas aquele olhar de mágoa e tristeza, e a culpa que ele visivelmente sentia por ter sido o causador indirecto da desgraça, magoaram-me mais que mil punhais.

Passados alguns anos, cerca de nove, morreu a minha avó Luísa, sua esposa. Era uma pessoa diferente: naquela época era comum haver algum apagamento da esposa, em função do marido, algo que nós agora chamaremos machismo, mas que na altura era visto como algo perfeitamente natural. Na altura não eram comuns os infantários, pelo que, num cenário de ambos os pais trabalhadores, eram normalmente os avós quem se encarregava da guarda das crianças. Lembro-me, por isso, das muitas tardes de brincadeira que passei naquele rés-do-chão do Alto do Seixalinho, no Barreiro, dos cabelos brancos que lhe fiz com birras e pedidos improváveis, mas, principalmente, da sua capacidade de resignação e tolerância. Nunca a minha avó Luísa perdeu realmente a paciência comigo, e o amor que me tinha fazia com que estivesse sempre ansiosa pela minha chegada. Dela lembro-me das manhãs na Praia da Manta Rota, em que propositadamente me punha a nadar até fora de pé, apenas para, sadicamente, ver a sua aflição e impotência; por vezes, chegava até a chamar o banheiro de serviço - mas, no regresso do banho, lá estava sempre religiosamente guardada a minha bola de berlim, que ela entretanto havia comprado.

O meu avô Álvaro, avô paterno, morreu um ano depois; deixou-me em testamento um exemplo de coragem e um importante ensinamento de amor. Apaixonado nos anos 30 por uma mulher de outra condição social, numa relação proibida, não hesitou em "raptá-la", fugindo de bicicleta (!) de Messines até Paderne, sete quilómetros pela serra algarvia, para então consumarem o casamento desejado. Poeta repentista, com uma memória prodigiosa, deixou-me gravada a força de vontade e a tenacidade que, mesmo numa pessoa simples como ele era, podem levar a romper barreiras e a aguentar duras provações da vida.

A minha avó Piedade morreu ontem. Lutadora, como o meu avô Álvaro, foi "cúmplice" na supra citada fuga, e também ela me ensinou o poder do amor. Aliás, por amor a mim, neto varão, era capaz de percorrer vários quilómetros desde a sua casa até à da minha avó Luísa, a pé, e o regresso comigo ao colo, apenas para poder ter a minha companhia por alguns momentos. A vida não lhe foi fácil, mas nunca lhe faltou uma palavra de compreensão e carinho, mesmo para com grandes injustiças que contra si foram cometidas. Senhora de uma agilidade invulgar até quase ao fim da vida, era também de uma doçura e simpatia que encantou todos quantos com ela privaram.

Nunca mais lhes poderei pagar a todos o bem que me fizeram, e por isso sinto sinceros remorsos. Todos me fazem já muita falta, mas todos me deixaram muito mais rico, como pessoa. Bem hajam lá no Céu onde estão, e no meu coração, de onde nunca sairão.

2004/06/20

Radar

Frase gira ouvida há uns minutos numa estação de rádio:

"Há duas maneiras de se ser rico: ter mais, ou desejar menos!"

2004/06/17

Que saudades...

Que saudades dos dias de Inverno; da chuva, dos cachecóis, dos restaurantes vazios com empregados simpáticos, das lareiras acesas, muitos livros e revistas, edredões quentinhos, a praia vazia e o mar cinzento...

Que saudades da chuva!

Máxima # 1.855

A facilidade com que se encontra um lugar de estacionamento perto do lugar onde queremos ir é inversamente proporcional à celeridade com que os nossos assuntos vão ser resolvidos nesse local. Concretizando, se arranjarmos um lugar mesmo à porta "daquele" restaurante espectacular, o mais provável é termos acertado no dia de folga semanal - ou, se pararmos o carro junto à empresa onde tínhamos uma reunião importantíssima, é garantido que o nosso interlocutor está muito ocupado e pede para adiarmos essa reunião!

2004/06/14

Quem é que o segura?

Já aqui citei Churchill há uns tempos nesta frase: "Não há nada mais triste do que uma derrota, excepto, talvez, uma vitória". Deve ser mesmo isso que Sócrates, João Soares, Carrilho, e muitos socialistas estão a pensar neste momento.

Obrigado!

O Serra-mãe faz hoje um ano.

2004/06/11

Superavit de dinheiro, deficit de educação

Não deixa de ser curioso verificar que os espaços de estacionamento destinados a deficientes, em qualquer edifício que deles disponha, estão, em 99% dos casos, ocupados pelas viaturas de pessoas sem deficiência motora aparente; mas, se estes indivíduos, que amiúde se fazem transportar em carros topo de gama, se têm por deficientes, quem somos nós para o questionar?

Reflexões

"Foram já as bodas de prata, comemoradas em solidão"
in "Saíu para a rua", letra de Carlos Tê, música e interpretação de Rui Veloso


Este blog aproxima-se do seu primeiro aniversário, que ocorrerá, se Deus quiser, na próxima segunda-feira, dia 14. Comecei esta aventura no boom inicial dos blogs, e tenho-me deixado ficar porque me sinto gratificado ao "despejar" para um computador (quase) tudo o que me vai na alma. Não preciso de ser alinhado, e por isso sempre pautei a minha escrita neste espaço por uma sinceridade e franqueza que quase desconhecia na minha vertente pública.

Muitas coisas, com diferentes importâncias, aconteceram em doze meses na minha vida; mudei de emprego, o meu filho cresceu, o meu Alfa Romeo ficou, finalmente, pronto, voltei às corridas, e, principalmente, muitas pessoas que não conhecia passaram a ler as minhas divagações, e outras, que me conheciam superficialmente, começaram a ver-me com outros olhos - se a impressão causada pela novidade foi positiva ou negativa não me interessa discutir agora.

Vi acabarem blogs que adorava, nascerem muitos de qualidades diversas, mas continuei sempre nesta minha missão, apesar de saber que o Serra-mãe nunca foi (e, com toda a probabilidade, nunca será) um blog de referência.

A média de visitas tem-se mantido sem grandes alterações, mas confesso que algo me preocupa cada vez mais: o número de comentários aos posts que aqui deixo tem vindo a decrescer exponencialmente, o que me leva a crer que as coisas que escrevo têm vindo a esvaziar-se de interesse. Serão, com certeza, fases na vida de uma pessoa, que se reflectem directa ou indirectamente na forma como se escreve, mas não posso esconder que me sinto desiludido e até algo triste com isso. No entanto, continuo a escrever porque gosto, e como sei que tenho pelo menos um leitor garantido (moi même, narcisisticamente), o blog não vai parar, pelo menos para já.

2004/06/10

Portugal-0

Eu, que até me tenho em conta de razoavelmente nacionalista, estou nauseado com a quantidade de bandeiras de Portugal que se vêem por estes dias na nossa rua. Não há varanda, janela, carro ou criancinha que não ostente ou abane pindericamente um pano verde e vermelho. E este súbito ataque de patriotismo dever-se-á ao facto de hoje ser dia de Camões e das comunidades portuguesas? Não, infelizmente não; diz-me quem sabe que toda esta gente anda a comemorar o próximo início de um campeonato desportivo, no qual participará uma equipa portuguesa.

Sei que me chamarão anti-patriótico por isto, mas mal posso esperar para que a nossa equipa seja afastada da referida competição (o que, a manterem-se as estatísticas, deverá acontecer numa fase inicial), para ver se passa esta febre generalizada, e o país volta ao seu normal funcionamento - se o termo "normalidade" se pode aplicar a um povo que olimpicamente ignora a cultura e apenas se sente galvanizado ao ver um conjunto de adultos em calções a correr atrás de uma bola!

Sevilla me mata!

Nestes tempos quentes surge-me sempre a vontade de comer um gazpacho gelado, à andaluza - e eu até sou (passe a imodéstia), especialista em prepará-lo.

2004/06/09

Aborto

Há já algum tempo que ando para falar nisto, mas tenho-o sempre evitado, nem sei bem porquê; contudo, agora parece-me que chegou a hora. Naturalmente que entendo, como toda a gente de bom senso, que qualquer ser que venha ao mundo tem o direito inalienável de ser criado nas melhores condições psicológicas possíveis; imagino, também, que há por aí muito irresponsável que não pensa nas consequências dos seus actos, e que não tem um mínimo de capacidades, psicológicas ou de outras ordens, para criar um filho.

Mas a verdade é que a questão se coloca a montante da fase da gravidez; não é admissível que alguém engravide, simplesmente "num impulso", porque não tomou as precauções adequadas, e depois alije a responsabilidade como quem deita fora um sapato velho (não falo, naturalmente, de casos de violações ou malformações do feto, que possuem um estatuto particular na legislação). É que esse "impulso" deu origem a um ser vivo, e não acredito que ninguém seja tão ignorante que não tivesse consciência das possíveis consequências do acto quando o praticou - nem mesmo as pessoas que escrevem para a revista "Maria".

A partir da altura em que a gravidez acontece, há um ser vivo em gestação, tão importante como qualquer um de nós, mas com a diferença de se encontrar completamente desprotegido, a não ser pelo útero materno. Ora se é a própria mãe, o único ser em todo o mundo que o pode proteger, que o mata, que sociedade é esta?

Responder-me-ão, já o adivinho, que é preferível que ele não venha a este mundo, do que o faça para sofrer; mas, pela mesma ordem de ideias, eliminaríamos fisicamente muitas outras pessoas de 5, 10 anos, ou até adultas, apenas para lhes poupar vidas de sofrimento.

Soluções? Não são simples, e alguns chamar-me-ão até de utópico, mas passam certamente por um trabalho de fundo, que incuta hábitos e valores nos jovens, por uma dinamização do trabalho da acção social, designadamente na área da adopção, e até pelo incentivo à denúncia de casos de maus tratos infligidos a crianças.

Agora o que não consigo aceitar é que uma pessoa, que se sente indignada pelo abate de uma ninhada de gatinhos ou cachorros, por não haver disponibilidade para os criar, não se sinta incomodada com a descrição que se segue, sobre as formas de matar um feto - para todos os efeitos, um ser vivo. Aviso desde já que a leitura dos parágrafos seguintes pode ser chocante para algumas pessoas, mas são coisas que não podem ser explicadas doutra forma:

A curetagem consiste em utilizar «uma espécie de faca em forma de gancho (cureta) [que] é introduzida dentro do útero e [que] retalha o feto. Os pedaços são removidos através do colo do útero».

Existe também a injecção de salina, que só pode ser utilizada «depois das 16 semanas. Com uma agulha injecta-se uma solução de sal pelo abdómen da mãe, dentro da bolsa do bebé, que engole a solução e fica envenenado por ele, demorando uma hora a morrer. Esta solução é também altamente corrosiva, chegando mesmo a queimar uma camada externa da pele. Passadas 24 horas, a mãe entra em trabalho de parto».

Outro dos métodos utilizados (que, tal como os outros, é usado independentemente das instalações serem públicas ou privadas, legais ou clandestinas) é a sucção/aspiração que é o método «comum nas primeiras 12 semanas de gravidez. O feto [ainda vivo] é aspirado com tudo o que o envolve».

Também é usado o aborto químico, que consiste no uso de «componentes químicos que provocam contracções no útero mais violentas do que as naturais, ao ponto de matar o bebé».

Finalmente (desta lista e descrição), o parto parcial, onde «o feto é puxado para fora - só a cabeça fica dentro do útero. Introduz-se um tubo na sua nuca e suga-se toda a massa cerebral, o que conduz à morte. Só então o feto consegue ser totalmente retirado».

Nota: agradeço a compilação destes dados ao meu amigo João Titta Maurício, que por sua vez os elaborou a partir de um texto publicado na obra de J. D. Barklay, A. Forsythe e T. L. Parker, "Abortion methodologies: frequency and risk", cuja tradução surgiu na revista "Tempo", em 24/Março/2004.

2004/06/07

Setúbal, cidade vermelha?

Curiosa, a forma como funciona a esquerda nos nossos dias; "descobri", há relativamente pouco tempo, um blog sobre a cidade que há quase trinta anos me acolheu, e que eu acho a mais bonita de Portugal: Setúbal. Chama-se, esse blog, Sadinos, e discorre sobre temas caros àquela urbe que já teve melhores dias, pelo menos em termos sociais.

Dando provas de uma assinalável vitalidade, o blog é bastante participado, maioritariamente por gente assumidamente (ou não) de esquerda que, contudo, se "esquece" frequentemente de colocar o seu verdadeiro nome nos comentários que escreve. É timbre desta gente, ao bom estilo bloquista, evitar a discussão frontal e partir para a ofensa pessoal e calúnia, principalmente quando os temas e os argumentos não lhes surgem de feição - o que, diga-se de passagem, sucede quase sempre.

Mas com cobardias e canalhices avulsas podemos nós bem; já se torna, no entanto, insustentável que os autores do blog, que dizem defender discussões amplas e participadas para o mesmo, eliminem recorrentemente as opiniões divergentes das suas, salvando cuidadosamente os mais alarves e ordinários comentários, desde que proferidos por "esquerdalha". É, por isso, que dou por encerrada a minha breve participação naquele espaço, pelos vistos mais fascista do que qualquer longa noite - e faço-o aqui, no meu blog, porque naquele, para além de ver os meus comentários apagados, já fui chamado de acólito de direita, e até de extrema-direita, confusão sistemática que estes fulanos de extrema-esquerda alimentam dolosamente.

Caros conterrâneos: fiquem com o vosso blog imaculadamente preenchido com lindos comentários encarneirados, que eu não abdico de pensar pela minha cabeça - e continuarei a fazê-lo em sede própria. Mas um sobressalto me assalta: agora, que querem vedar a participação a quem não comungar das vossas ideias, quem irão insultar? Experimentem uns aos outros - muitos insultos serão certamente merecidos.

P.S.: A fim de que os meus leitores desconhecedores de causa consigam perceber de alguma forma o que está aqui em causa, junto deixo a transcrição do último comentário que fiz naquele blog, e que resistiu uns estóicos cinco minutos antes de ser apagado:

"Este assunto é manifestamente off-topic, e só o escrevo aqui, porque os posts em que escrevi antes foram encerrados - não sem antes terem sido apropriadamente eliminadas algumas opiniões por mim proferidas, a par com outras divergentes das orientações políticas deste blog.

Esta é, definitivamente, a minha última participação neste blog, que ingenuamente acreditei ser um espaço aberto de debate de ideias. Enganei-me e sofri as consequências disso; não se sendo da cor, é-se logo apodado de acólito a soldo de alguma tenebrosa organização.

Gosto de Setúbal tanto ou mais que qualquer um dos participantes; não gosto, contudo, de discutir com pessoas que fazem do insulto e da calúnia o seu argumento principal. Para esse fim, já dei.

Acreditem ou não, nada mais me moveu para participar neste espaço do que a vontade de debater sadiamente ideias - não escondi, desde o princípio, a minha relação de amizade com outros comentadores. Orgulho-me das minhas amizades e das minhas opiniões, ao contrário de outros, que cobardemente insultam sem se identificar. Não concertei, no entanto, qualquer tipo de intervenção com quem quer que fosse - as intervenções, entre gente democrática, são espontâneas, por muito que isso custe a perceber a algumas pessoas.

Continuarei a blogar no espaço que mantenho há cerca de um ano, www.serra-mae.blogspot.com, e no qual todas as pessoas de bem serão bem vindas.

Entretanto, sem hipocrisias, desejo as maiores felicidades aos autores deste blog, mas também aos seus leitores, comentadores e, acima de tudo, a Setúbal.

P.S.: Leia depressa; este comentário será apagado dentro de alguns segundos."

2004/06/06

Despeito & Nacionalismo

A Vieira pode muito bem estar em Paris, a comer uma soupe d'oignons avec du café au lait et toute ça, mas eu acabei de comer, em Azeitão, umas sardinhas assadas que me encheram as medidas.