2004/06/25

Contrição ou "See you soon!"

Ontem, por motivos profissionais, jantei em Albufeira, a poucos metros da Rua da Oura.

Já aqui confessei bastas vezes a minha embirração de estimação com o futebol e, principalmente, com a hipervalorização que se faz de um simples desporto; mas na última noite era impossível não sentir algum entusiasmo, e assim, pela primeira vez desde que este campeonato começou, assisti a um jogo quase na totalidade. O ambiente era simpático, com um restaurante cheio de portugueses, e mais uns holandeses que, no entanto, também apoiavam a selecção portuguesa. Mas já um rápido vislumbre para a rua deixava antever o pior, fosse qual fosse o resultado: milhares de adeptos ingleses pululavam por todo o lado, e bebiam litros e litros de cervejas em bares engalanados de branco e vermelho.

O jogo acabou, o resultado foi o que se conhece, o jantar também terminou, e viémos para a rua. Surpresa: eu, que nem sou pessoa de grandes euforias, nem tampouco ostentava qualquer sinal que me identificasse como luso, comecei a ser espontaneamente felicitado por ingleses pela vitória da selecção nacional. Ouvi vezes sem conta as expressões "nice fight", ou "fair enough".

Insisti então com o meu amigo P., que me acompanhou no jantar, para descermos até à Oura, a fim de verificarmos in loco se aquela educação britânica era um fenómeno da zona em que nos encontrávamos, ou se se tratava de algo generalizado. O P. estava algo receoso, com a memória de acontecimentos recentes ainda fresca, mas eu insisti bastante e lá fomos. Tudo na mesma: adeptos com fair-play, trocas de camisolas, felicitações mútuas.

Fiquei surpreendido, confesso, e aqui faço publicamente a minha assunção de erro: sempre pensei que os adeptos mais ferrenhos fossem uma raça de gente pouco digna desse nome, indivíduos que apenas se deslocam a um cenário de jogo para arranjar conflitos e, se possível, tirar desforço físico da parte contrária. O meu quase nulo conhecimento do meio induzia-me essa ideia. Estava errado, admito; esses, os violentos, são uma minoria que, contudo, gozam de um injusto protagonismo, dada a assiduidade com que se envolvem em problemas - e há-os em todo o lado, não me lixem: procurem lá também nas nossas claques dos dragões amarelos, dos diabos cor de rosa, ou em qualquer outra.

Mas os verdadeiros amantes desse desporto, como de qualquer outro, sabem portar-se com dignidade, ganhem ou percam, e esses merecem admiração incondicional.

2004/06/23

Parábola

Quando somos adolescentes todos os adultos nos parecem extremamente fastidiosos e desfasados da realidade; isto aplica-se principalmente aos avós, que "são uns chatos" que só servem para nos pespegar uns beijos repenicados nas bochechas, deixando, em contrapartida, umas notinhas no nosso dia de aniversário e no Natal. Quão estúpidos somos então!

Há dias, numa fabulosa tira de Calvin & Hobbes, publicada no Público, o pai de Calvin sofria de insónias - quando instado pela esposa a confessar o que o impedia de dormir, disse mais ou menos isto (cito de memória): "quando era pequeno pensava que os adultos sabiam sempre a forma correcta de resolver as situações; pensava que, quando chegássemos à idade adulta, todo esse conhecimento nos surgiria automaticamente - se soubesse que não era assim, não teria tido tanta pressa em ser adulto!" Lindo, não é?

Só quando nos tornamos adultos, e pais, percebemos as dificuldades que todos os nossos progenitores sentiram para nos educar; só então conseguimos avaliar a frustração de não nos conseguirem transmitir os seus ensinamentos, as dúvidas que sentiam naquilo que nos queriam dar e a ansiedade de perceberem que nem sempre estávamos disponíveis - e então sentimos um enorme remorso por não os termos recompensado devidamente desse esforço homérico, e por já ter passado tudo tão depressa.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, conheci a primeira morte de um avô: atormentado pela doença, o meu avô Brito deixou-nos, depois de alguns meses de sofrimento. Era um homem grande, em todos os sentidos; foi um dos primeiros carteiros do Barreiro, depois funcionário fabril e, às suas custas, tornou-se num respeitado empresário de razoável sucesso. Nunca o chamei por "avô" - entre nós, chamávamo-nos mutuamente de "amigo", ate à data da sua morte. Eu, que nunca apreciei grandemente futebol, nunca esquecerei os muitos jogos da CUF e do Barreirense - ambas, então, equipas da primeira divisão - a que assisti na sua companhia. Quando eu tinha dezasseis anos, pedi-lhe insistentemente que me oferecesse uma motorizada, como tinham todos os meus amigos. No dia do meu décimo sexto aniversário, ele conduziu-me até á garagem e lá estava, reluzente, a motorizada dos meus sonhos. Mas não durou muito a alegria: passados uns meses enfeixei-me contra um carro, e fiz uma grave fractura exposta do fémur. Já lá vão mais de vinte anos, mas mesmo que viva até aos cem, nunca esquecerei aquela visita do meu "amigo" à clínica: pouco ou nada falou, nem sequer para me criticar (antes o tivesse feito), mas aquele olhar de mágoa e tristeza, e a culpa que ele visivelmente sentia por ter sido o causador indirecto da desgraça, magoaram-me mais que mil punhais.

Passados alguns anos, cerca de nove, morreu a minha avó Luísa, sua esposa. Era uma pessoa diferente: naquela época era comum haver algum apagamento da esposa, em função do marido, algo que nós agora chamaremos machismo, mas que na altura era visto como algo perfeitamente natural. Na altura não eram comuns os infantários, pelo que, num cenário de ambos os pais trabalhadores, eram normalmente os avós quem se encarregava da guarda das crianças. Lembro-me, por isso, das muitas tardes de brincadeira que passei naquele rés-do-chão do Alto do Seixalinho, no Barreiro, dos cabelos brancos que lhe fiz com birras e pedidos improváveis, mas, principalmente, da sua capacidade de resignação e tolerância. Nunca a minha avó Luísa perdeu realmente a paciência comigo, e o amor que me tinha fazia com que estivesse sempre ansiosa pela minha chegada. Dela lembro-me das manhãs na Praia da Manta Rota, em que propositadamente me punha a nadar até fora de pé, apenas para, sadicamente, ver a sua aflição e impotência; por vezes, chegava até a chamar o banheiro de serviço - mas, no regresso do banho, lá estava sempre religiosamente guardada a minha bola de berlim, que ela entretanto havia comprado.

O meu avô Álvaro, avô paterno, morreu um ano depois; deixou-me em testamento um exemplo de coragem e um importante ensinamento de amor. Apaixonado nos anos 30 por uma mulher de outra condição social, numa relação proibida, não hesitou em "raptá-la", fugindo de bicicleta (!) de Messines até Paderne, sete quilómetros pela serra algarvia, para então consumarem o casamento desejado. Poeta repentista, com uma memória prodigiosa, deixou-me gravada a força de vontade e a tenacidade que, mesmo numa pessoa simples como ele era, podem levar a romper barreiras e a aguentar duras provações da vida.

A minha avó Piedade morreu ontem. Lutadora, como o meu avô Álvaro, foi "cúmplice" na supra citada fuga, e também ela me ensinou o poder do amor. Aliás, por amor a mim, neto varão, era capaz de percorrer vários quilómetros desde a sua casa até à da minha avó Luísa, a pé, e o regresso comigo ao colo, apenas para poder ter a minha companhia por alguns momentos. A vida não lhe foi fácil, mas nunca lhe faltou uma palavra de compreensão e carinho, mesmo para com grandes injustiças que contra si foram cometidas. Senhora de uma agilidade invulgar até quase ao fim da vida, era também de uma doçura e simpatia que encantou todos quantos com ela privaram.

Nunca mais lhes poderei pagar a todos o bem que me fizeram, e por isso sinto sinceros remorsos. Todos me fazem já muita falta, mas todos me deixaram muito mais rico, como pessoa. Bem hajam lá no Céu onde estão, e no meu coração, de onde nunca sairão.

2004/06/20

Radar

Frase gira ouvida há uns minutos numa estação de rádio:

"Há duas maneiras de se ser rico: ter mais, ou desejar menos!"

2004/06/17

Que saudades...

Que saudades dos dias de Inverno; da chuva, dos cachecóis, dos restaurantes vazios com empregados simpáticos, das lareiras acesas, muitos livros e revistas, edredões quentinhos, a praia vazia e o mar cinzento...

Que saudades da chuva!

Máxima # 1.855

A facilidade com que se encontra um lugar de estacionamento perto do lugar onde queremos ir é inversamente proporcional à celeridade com que os nossos assuntos vão ser resolvidos nesse local. Concretizando, se arranjarmos um lugar mesmo à porta "daquele" restaurante espectacular, o mais provável é termos acertado no dia de folga semanal - ou, se pararmos o carro junto à empresa onde tínhamos uma reunião importantíssima, é garantido que o nosso interlocutor está muito ocupado e pede para adiarmos essa reunião!

2004/06/14

Quem é que o segura?

Já aqui citei Churchill há uns tempos nesta frase: "Não há nada mais triste do que uma derrota, excepto, talvez, uma vitória". Deve ser mesmo isso que Sócrates, João Soares, Carrilho, e muitos socialistas estão a pensar neste momento.

Obrigado!

O Serra-mãe faz hoje um ano.

2004/06/11

Superavit de dinheiro, deficit de educação

Não deixa de ser curioso verificar que os espaços de estacionamento destinados a deficientes, em qualquer edifício que deles disponha, estão, em 99% dos casos, ocupados pelas viaturas de pessoas sem deficiência motora aparente; mas, se estes indivíduos, que amiúde se fazem transportar em carros topo de gama, se têm por deficientes, quem somos nós para o questionar?

Reflexões

"Foram já as bodas de prata, comemoradas em solidão"
in "Saíu para a rua", letra de Carlos Tê, música e interpretação de Rui Veloso


Este blog aproxima-se do seu primeiro aniversário, que ocorrerá, se Deus quiser, na próxima segunda-feira, dia 14. Comecei esta aventura no boom inicial dos blogs, e tenho-me deixado ficar porque me sinto gratificado ao "despejar" para um computador (quase) tudo o que me vai na alma. Não preciso de ser alinhado, e por isso sempre pautei a minha escrita neste espaço por uma sinceridade e franqueza que quase desconhecia na minha vertente pública.

Muitas coisas, com diferentes importâncias, aconteceram em doze meses na minha vida; mudei de emprego, o meu filho cresceu, o meu Alfa Romeo ficou, finalmente, pronto, voltei às corridas, e, principalmente, muitas pessoas que não conhecia passaram a ler as minhas divagações, e outras, que me conheciam superficialmente, começaram a ver-me com outros olhos - se a impressão causada pela novidade foi positiva ou negativa não me interessa discutir agora.

Vi acabarem blogs que adorava, nascerem muitos de qualidades diversas, mas continuei sempre nesta minha missão, apesar de saber que o Serra-mãe nunca foi (e, com toda a probabilidade, nunca será) um blog de referência.

A média de visitas tem-se mantido sem grandes alterações, mas confesso que algo me preocupa cada vez mais: o número de comentários aos posts que aqui deixo tem vindo a decrescer exponencialmente, o que me leva a crer que as coisas que escrevo têm vindo a esvaziar-se de interesse. Serão, com certeza, fases na vida de uma pessoa, que se reflectem directa ou indirectamente na forma como se escreve, mas não posso esconder que me sinto desiludido e até algo triste com isso. No entanto, continuo a escrever porque gosto, e como sei que tenho pelo menos um leitor garantido (moi même, narcisisticamente), o blog não vai parar, pelo menos para já.

2004/06/10

Portugal-0

Eu, que até me tenho em conta de razoavelmente nacionalista, estou nauseado com a quantidade de bandeiras de Portugal que se vêem por estes dias na nossa rua. Não há varanda, janela, carro ou criancinha que não ostente ou abane pindericamente um pano verde e vermelho. E este súbito ataque de patriotismo dever-se-á ao facto de hoje ser dia de Camões e das comunidades portuguesas? Não, infelizmente não; diz-me quem sabe que toda esta gente anda a comemorar o próximo início de um campeonato desportivo, no qual participará uma equipa portuguesa.

Sei que me chamarão anti-patriótico por isto, mas mal posso esperar para que a nossa equipa seja afastada da referida competição (o que, a manterem-se as estatísticas, deverá acontecer numa fase inicial), para ver se passa esta febre generalizada, e o país volta ao seu normal funcionamento - se o termo "normalidade" se pode aplicar a um povo que olimpicamente ignora a cultura e apenas se sente galvanizado ao ver um conjunto de adultos em calções a correr atrás de uma bola!

Sevilla me mata!

Nestes tempos quentes surge-me sempre a vontade de comer um gazpacho gelado, à andaluza - e eu até sou (passe a imodéstia), especialista em prepará-lo.

2004/06/09

Aborto

Há já algum tempo que ando para falar nisto, mas tenho-o sempre evitado, nem sei bem porquê; contudo, agora parece-me que chegou a hora. Naturalmente que entendo, como toda a gente de bom senso, que qualquer ser que venha ao mundo tem o direito inalienável de ser criado nas melhores condições psicológicas possíveis; imagino, também, que há por aí muito irresponsável que não pensa nas consequências dos seus actos, e que não tem um mínimo de capacidades, psicológicas ou de outras ordens, para criar um filho.

Mas a verdade é que a questão se coloca a montante da fase da gravidez; não é admissível que alguém engravide, simplesmente "num impulso", porque não tomou as precauções adequadas, e depois alije a responsabilidade como quem deita fora um sapato velho (não falo, naturalmente, de casos de violações ou malformações do feto, que possuem um estatuto particular na legislação). É que esse "impulso" deu origem a um ser vivo, e não acredito que ninguém seja tão ignorante que não tivesse consciência das possíveis consequências do acto quando o praticou - nem mesmo as pessoas que escrevem para a revista "Maria".

A partir da altura em que a gravidez acontece, há um ser vivo em gestação, tão importante como qualquer um de nós, mas com a diferença de se encontrar completamente desprotegido, a não ser pelo útero materno. Ora se é a própria mãe, o único ser em todo o mundo que o pode proteger, que o mata, que sociedade é esta?

Responder-me-ão, já o adivinho, que é preferível que ele não venha a este mundo, do que o faça para sofrer; mas, pela mesma ordem de ideias, eliminaríamos fisicamente muitas outras pessoas de 5, 10 anos, ou até adultas, apenas para lhes poupar vidas de sofrimento.

Soluções? Não são simples, e alguns chamar-me-ão até de utópico, mas passam certamente por um trabalho de fundo, que incuta hábitos e valores nos jovens, por uma dinamização do trabalho da acção social, designadamente na área da adopção, e até pelo incentivo à denúncia de casos de maus tratos infligidos a crianças.

Agora o que não consigo aceitar é que uma pessoa, que se sente indignada pelo abate de uma ninhada de gatinhos ou cachorros, por não haver disponibilidade para os criar, não se sinta incomodada com a descrição que se segue, sobre as formas de matar um feto - para todos os efeitos, um ser vivo. Aviso desde já que a leitura dos parágrafos seguintes pode ser chocante para algumas pessoas, mas são coisas que não podem ser explicadas doutra forma:

A curetagem consiste em utilizar «uma espécie de faca em forma de gancho (cureta) [que] é introduzida dentro do útero e [que] retalha o feto. Os pedaços são removidos através do colo do útero».

Existe também a injecção de salina, que só pode ser utilizada «depois das 16 semanas. Com uma agulha injecta-se uma solução de sal pelo abdómen da mãe, dentro da bolsa do bebé, que engole a solução e fica envenenado por ele, demorando uma hora a morrer. Esta solução é também altamente corrosiva, chegando mesmo a queimar uma camada externa da pele. Passadas 24 horas, a mãe entra em trabalho de parto».

Outro dos métodos utilizados (que, tal como os outros, é usado independentemente das instalações serem públicas ou privadas, legais ou clandestinas) é a sucção/aspiração que é o método «comum nas primeiras 12 semanas de gravidez. O feto [ainda vivo] é aspirado com tudo o que o envolve».

Também é usado o aborto químico, que consiste no uso de «componentes químicos que provocam contracções no útero mais violentas do que as naturais, ao ponto de matar o bebé».

Finalmente (desta lista e descrição), o parto parcial, onde «o feto é puxado para fora - só a cabeça fica dentro do útero. Introduz-se um tubo na sua nuca e suga-se toda a massa cerebral, o que conduz à morte. Só então o feto consegue ser totalmente retirado».

Nota: agradeço a compilação destes dados ao meu amigo João Titta Maurício, que por sua vez os elaborou a partir de um texto publicado na obra de J. D. Barklay, A. Forsythe e T. L. Parker, "Abortion methodologies: frequency and risk", cuja tradução surgiu na revista "Tempo", em 24/Março/2004.

2004/06/07

Setúbal, cidade vermelha?

Curiosa, a forma como funciona a esquerda nos nossos dias; "descobri", há relativamente pouco tempo, um blog sobre a cidade que há quase trinta anos me acolheu, e que eu acho a mais bonita de Portugal: Setúbal. Chama-se, esse blog, Sadinos, e discorre sobre temas caros àquela urbe que já teve melhores dias, pelo menos em termos sociais.

Dando provas de uma assinalável vitalidade, o blog é bastante participado, maioritariamente por gente assumidamente (ou não) de esquerda que, contudo, se "esquece" frequentemente de colocar o seu verdadeiro nome nos comentários que escreve. É timbre desta gente, ao bom estilo bloquista, evitar a discussão frontal e partir para a ofensa pessoal e calúnia, principalmente quando os temas e os argumentos não lhes surgem de feição - o que, diga-se de passagem, sucede quase sempre.

Mas com cobardias e canalhices avulsas podemos nós bem; já se torna, no entanto, insustentável que os autores do blog, que dizem defender discussões amplas e participadas para o mesmo, eliminem recorrentemente as opiniões divergentes das suas, salvando cuidadosamente os mais alarves e ordinários comentários, desde que proferidos por "esquerdalha". É, por isso, que dou por encerrada a minha breve participação naquele espaço, pelos vistos mais fascista do que qualquer longa noite - e faço-o aqui, no meu blog, porque naquele, para além de ver os meus comentários apagados, já fui chamado de acólito de direita, e até de extrema-direita, confusão sistemática que estes fulanos de extrema-esquerda alimentam dolosamente.

Caros conterrâneos: fiquem com o vosso blog imaculadamente preenchido com lindos comentários encarneirados, que eu não abdico de pensar pela minha cabeça - e continuarei a fazê-lo em sede própria. Mas um sobressalto me assalta: agora, que querem vedar a participação a quem não comungar das vossas ideias, quem irão insultar? Experimentem uns aos outros - muitos insultos serão certamente merecidos.

P.S.: A fim de que os meus leitores desconhecedores de causa consigam perceber de alguma forma o que está aqui em causa, junto deixo a transcrição do último comentário que fiz naquele blog, e que resistiu uns estóicos cinco minutos antes de ser apagado:

"Este assunto é manifestamente off-topic, e só o escrevo aqui, porque os posts em que escrevi antes foram encerrados - não sem antes terem sido apropriadamente eliminadas algumas opiniões por mim proferidas, a par com outras divergentes das orientações políticas deste blog.

Esta é, definitivamente, a minha última participação neste blog, que ingenuamente acreditei ser um espaço aberto de debate de ideias. Enganei-me e sofri as consequências disso; não se sendo da cor, é-se logo apodado de acólito a soldo de alguma tenebrosa organização.

Gosto de Setúbal tanto ou mais que qualquer um dos participantes; não gosto, contudo, de discutir com pessoas que fazem do insulto e da calúnia o seu argumento principal. Para esse fim, já dei.

Acreditem ou não, nada mais me moveu para participar neste espaço do que a vontade de debater sadiamente ideias - não escondi, desde o princípio, a minha relação de amizade com outros comentadores. Orgulho-me das minhas amizades e das minhas opiniões, ao contrário de outros, que cobardemente insultam sem se identificar. Não concertei, no entanto, qualquer tipo de intervenção com quem quer que fosse - as intervenções, entre gente democrática, são espontâneas, por muito que isso custe a perceber a algumas pessoas.

Continuarei a blogar no espaço que mantenho há cerca de um ano, www.serra-mae.blogspot.com, e no qual todas as pessoas de bem serão bem vindas.

Entretanto, sem hipocrisias, desejo as maiores felicidades aos autores deste blog, mas também aos seus leitores, comentadores e, acima de tudo, a Setúbal.

P.S.: Leia depressa; este comentário será apagado dentro de alguns segundos."

2004/06/06

Despeito & Nacionalismo

A Vieira pode muito bem estar em Paris, a comer uma soupe d'oignons avec du café au lait et toute ça, mas eu acabei de comer, em Azeitão, umas sardinhas assadas que me encheram as medidas.

2004/06/05

Transferências

É a lei natural da vida; enquanto uns desaparecem, como é o caso do excelente Dicionário do Diabo (ainda que o Pedro Mexia esteja no Fora do Mundo, bem acompanhado, de resto), outros vão chegando - é o caso do Na Peida, blog de amigos, mas que terá que encontrar um pouco mais de conteúdo para os seus statements (se quiserem, claro, que eles são uns irreverentes).

Entretanto, a serra vai a caminho do seu primeiro aninho de vida, daqui a pouco mais de uma semana.

2004/06/04

É preciso ter lata!

Aqui há uns tempos, cheguei de Londres ao aeroporto de Lisboa; numa atitude, que depois vim a perceber ser temerária, entrei num táxi na praça daquele interface, e pedi ao motorista para me levar à Penha de França, onde tinha deixado o carro em casa de uma amiga. Com um facies revelador da desilusão sofrida, por não lhe ter antes aparecido um incauto inglês a pedir-lhe um serviço para Cascais, o motorista lá cumpriu dolorosamente o trajecto sem um comentário. Mesmo assim, e imbuído da boa disposição que as estadias em Londres sempre me provocam, no fim da viagem ofereci o troco ao cro-magnon, convicto de que estava a cometer uma boa acção, a qual seria devidamente apreciada. Mas não o pensou assim a besta e, ao arrancar, mandou pela janela as moedas que constituiam o aludido troco.

Não é caso único, infelizmente; familiares meus já tiveram contenciosos mais graves com exemplares da fauna, por pedirem 'apenas' um serviço entre a Portela e o Terreiro do Paço.

Foi, por isso, com uma incredulidade indescrítivel, que há uns minutos ouvi na rádio algo como isto: os motoristas de táxi do aeroporto reivindicam o direito a cobrar uma taxa acrescida aos utentes, por considerarem que prestam um serviço com requisitos de qualidade acrescidos.

Está muito calor, o rádio não estava muito alto, e por isso só posso pensar que se tratou de algum delírio ou alucinação auditiva minha. Digam-me que não é verdade, por favor.

2004/05/28

Do contra

Volto a bater no ceguinho, mas não posso deixar de me sentir ofendido pelo nacional-histerismo que tomou conta do país, a propósito de um grupo de jogadores que ganharam um importante jogo de futebol.

Mas que diabo é isto? São apenas pessoas como nós que dão uns chutes numa bola. Por que razão hão-de ser todos alcandorados ao estatuto de heróis? Não o serão muito mais os nosso atletas paralímpicos, que voltam ao país carregados de ouro, e que são votados ao mais olímpico desprezo?

Em pleno Algarve, e logo após o fim desse jogo, assisti in loco a uma explosão de alegria que - estou certo - não seria maior se cada um dos celebrantes tivesse sido pai ou mãe naquela altura. Por um bocadinho, toda aquela boa gente esqueceu as misérias que constituem as suas vidas, e festejou uma simples vitória desportiva como se de um triunfo pessoal se tratasse; hoje talvez já tenham voltado às muitas imperiais de fim de tarde, à porrada na mulher, mas naquele instante todos se sentiam vitoriosos - e por um motivo pífio!

2004/05/24

Adições

Havia já muito tempo que não actualizava a minha colecção de CDs, mas hoje não resisti, e só de uma penada comprei dois álbuns extraordinários: Neil Hannon, usando o habitual alter ego de The Divine Comedy, em "Absent friends", e "You are the quarry", de Morrissey, sem os Smiths mas a soar como em "The Queen is dead".

O oto-verme de hoje é benigno: "Irish blood, english heart".

2004/05/23

Fórmula 1


Quem me conhece minimamente não questionará a minha grande paixão pelos automóveis - mas ficará decerto admirado se eu lhe confessar que há já vários anos que não fico a hora de almoço em casa, a um domingo, para ver um Grande Prémio de Fórmula 1.

Com efeito, a Fórmula 1 moderna tornou-se numa competição monótona e desinteressante, disputada em circuitos assépticos, desenhados por computadores, e com carros carregados de electrónica que bem poderiam ser telecomandados a partir das boxes. Num cenário destes, emerge a razoável perícia para a condução de alguns, mas principalmente a maior ou menor capacidade de um determinado carro - e é por isso que um piloto médio (e um homem indigno desse nome), como Michael Schumacher, consegue facilmente ir coleccionando vitórias em linha, enquanto se vai enterrando bem fundo o interesse da Fórmula 1.

Mas há um Grande Prémio que tento não perder todos os anos: o do Mónaco. Porque é o último de uma linhagem de Grandes Prémios feitos para homens, e não para vedetas que, mal vêem uns pingos de chuva, logo se juntam em associações e piquetes de greve para exigirem condições de segurança. Esquecem-se estas primas donnas que são pagos a peso de ouro para praticar um desporto de risco, e que é esse mesmo risco que nós, espectadores, esperamos que eles corram. De resto, qualquer um deles sabia de antemão as regras do jogo.

Que saudades de homens com "H" grande, como Jackie Stewart, François Cévert, James Hunt, Gilles Villeneuve, Ronnie Peterson, Nigel Mansell, ou o grande Ayrton Senna (e falo apenas de alguns dos que vi correr). Que pena não serem as "meninas" de agora feitas da mesma fibra de Jacques Villeneuve, que se recusou a assinar um pacto de não ataque nas primeiras voltas de um qualquer Grande Prémio, "furando" assim a combinação que todos os outros pilotos haviam cozinhado para nos defraudar, a nós, espectadores.

Há uns anos, assistia eu a uma tourada em Espanha, e um velho aficcionado ao meu lado não se cansava de vaiar o toureiro que, na minha modesta opinião, até não se estava a sair nada mal. Ao fim de algumas vaias, e percebendo tacitamente a minha admiração com tamanho descontentamento, o velho explicou-me: "o toureiro ganha mais por esta faena, do que muitos de nós ganhamos num ano, e o bilhete custa quase uma semana de trabalho a muitas das pessoas que aqui estão; por isso, ele não pode tourear razoavelmente - ele tem que tourear bem!"

Se não, senhores da fórmula 1, dediquem-se ao golf.

Amigos

Tanto esta Ana como esta falaram disto recentemente, e logo senti que é algo que há muito me atormenta também a consciência; na adolescência chamamos "amigos" a qualquer tipo que beba umas bejecas connosco, goste de sair e de falar de miúdas. Mas depois, os nossos caminhos quase sempre divergem; quando, passados uns anos, voltamos a encontrar os nossos "melhores amigos de há uns tempos", não conseguimos evitar pensar: "mas o que é que eu tenho a ver com este gajo?"

Chamem-me snob, egoísta, o que quiserem, mas neste momento contam-se facilmente pelos dedos de uma mão as pessoas com quem sinto que posso falar de qualquer coisa, de qualquer assunto, e que sinta que estão disponíveis para mim - e eu para elas, claro. Quase ninguém quer saber o que eu leio, o que eu oiço, o que eu sinto, mas, em contrapartida, quase toda a gente está sempre disponível para me apresentar a sua perspectiva sobre o último jogo de futebol ou sobre o casamanto dos príncipes espanhóis (bocejo...).

Acho, por isso, que é tempo de criar uma espécie de prateleira nas minhas relações: a daquelas pessoas com quem já passei por muito, mas que encaminharam as suas vidas e as suas prioridades em direcções diferentes das minhas. Pessoas a quem tenho pudor de chamar "amigas", pela carga emocional que o termo comporta, mas das quais não sou capaz de dizer que não o são.